sábado, 25 de fevereiro de 2012

A eterna questão do vácuo no triathlon




Olá a todos,

Acho que este deve ser o tema mais polêmico no triathlon, por isso, resolvi abordá-lo simplesmente com a minha opinião, já que existem diversas outras. Afinal, o blog é meu rsrsrsrrs.

Os primeiros indícios de multiesportes surgiram na França, nos anos 20, envolvendo seqüência de esportes, muitas vezes até canoagem. No entanto, o triathlon moderno surgiu, com o nome "triathlon" em uma primeira competição em San Diego, em setembro de 1974. De lá para cá o esporte vem crescendo vertiginosamente. Variações de distâncias, variações de multiesportes (aquathlon, duathlon, biathlon), criação de federações e de organizações para regulamentar o esporte.


A idéia básica sempre foi um evento único, constituído por três modalidades, na sequência natação/bike/corrida, onde os participantes "lutavam" contra o relógio, sem ajuda externa, podendo-se apenas utilizar os recursos oferecidos pela organização da prova, como água, isotônico, mecânicos, etc. O objetivo principal não era nadar melhor, pedalar melhor ou correr melhor, mas fazer os três, naquela seqüência, o mais rápido possível.

Obviamente, sob esta ótica, começaram a ser criadas as primeiras metodologias de treinamento e estratégias. Perguntas como: Como devo treinar para correr com as pernas cansadas do ciclismo? Como devo treinar para sair cansado da natação na horizontal e logo mudar de modalidade? Quais são as cadências que devo utilizar? Enfim, são perguntas óbvias que certamente atormentavam os atletas e treinadores daquela época (muitas delas, até hoje não 100% respondidas, na verdade). 

O fato é que uma legião de atletas treinou sob aquela visão, aquelas regras. Outra legião de treinadores se especializou em treinamentos que seriam feitos sob aquelas circunstâncias. Sem contar o número de fãs que começou a entender o esporte e suas regras.

Nesta visão de "lutar contra o relógio" e "sem ter ajuda nenhuma", era óbvio que o vácuo no ciclismo deveria ser algo ilícito, já que, como sabem os praticantes desse esporte, o atleta que lidera um pelotão sempre está fazendo muito mais força contra o vento do que os atletas que estão logo atrás, na chamada, zona de vácuo. É comum para pessoas não familiarizadas com o esporte dizerem "Ah, mas isso faz tanta diferença?", mas para quem está lá dentro, a diferença é muito grande.

Sendo assim, foram colocadas regras de distâncias entre as bikes para se coibir a prática. Distâncias que normalmente variavam entre 7m e 10m que deveriam ser sempre obedecidas pelos atletas e só serem invadidas no ato da ultrapassagem, que deveria demorar alguns segundos.

É bem verdade que em natação de água aberta, existe a famosa "esteira" que é o ato de nadar "no pé" do atleta da frente, ou mesmo ao lado, em uma zona em que a água favorece a hidrodinâmica, pois o atleta que lidera, também está fazendo o papel (e a força) para os demais. Esta prática deveria existir no triathlon? Na minha opinião, não. Ela deveria seguir a mesma lógica da bike. Até mesmo na corrida, que é o esporte que sofre menos ação das ações do ar/água, existe aquela "manha" de, em dias de vento, correr atrás de outro atleta para se poupar. Esta prática, assim como a esteira da natação, não é e nunca foi ilícita, mas em minha opinião, também deveria ser para não se ferir o princípio básico e orignial do esporte: luta contra o relógio individual. 

Não sei bem a história disso e dos porquês dos esforços serem apenas de se coibir a prática no ciclismo, mas eu daria meu pitaco de que dois fatores fizeram com que assim fosse: o primeiro é a dificuldade de fiscalização, tanto na água, quanto na corrida. O outro fator é a proporção que a tal prática influencia no resultado geral. Ainda que uma esteira na água alguns minutos e algum esforço seja economizado, assim como na corrida, nada se compara a energia e ao tempo economizados na etapa de ciclismo. 

O divisor de águas dessa discussão foi a entrada do triathlon nos jogos olímpicos em Sidney, 2000. Para que o triathlon fosse um esporte passível de ser televisionado, de ser assistido ao vivo e de se transmitir alguma emoção, a federação internacional foi pressionada a ceder com relação ao vácuo, já que aqueles pelotões que se formavam tornavam o esporte mais emocionante e dinâmico para quem assiste. Tenho lá minhas dúvidas se um triathlon com vácuo é realmente mais emocionante, mas essa foi a decisão que chegaram na época.

Imagine você, leitor, se por alguma razão, deixasse de existir a zona de impedimento no futebol ou mesmo a linha lateral, ou mesmo o garrafão no basquete. Lembram-se quando a "vantagem" no voleibol foi abolida para tornar o jogo mais dinâmico? Imaginem agora o que deveria ser mudado do ponto de vista de treinamento e até mesmo das capacidades dos atletas. Se a linha do impedimento do futebol não existisse, provavelmente veríamos gordinhos habilidosos em campos em partidas oficiais, já que se livrar da linha do impedimento exige um certo condicionamento físico e velocidade. Imaginem se a linha dos 3m do vôlei fosse retirada. Será que precisariam de gigantes que vem do fundo para cortar? Será que precisariam treinar tanto salto quanto treinam? Acredito que esta analogia serve para qualquer esporte. A partir do momento que existe uma regra, uma imensidão de coisas está a ela atrelada como biotipo dos atletas, metodologias de treinamento, etc. A história do esporte simplesmente muda totalmente.

Bem, foi isso que aconteceu quando liberaram o vácuo no ciclismo em provas da ITU (International Triathlon Union) para profissionais. O objetivo deixa de ser agora o tal "contra o relógio individual", mas nadar o melhor possível para ficar próximo dos pelotões da frente, sair no ciclismo na velocidade que o pelotão estiver, em uma mescla de fazer força e se poupar, para depois, sairem correndo como loucos. Não é à toa que hoje, os triatletas olímpicos que mais se destacam são os corredores, com os famosos corpos magros e leves. Além disso, existe toda a questão biomecânica de treinamento. A cadência no ciclismo em provas de ITU são muito altas, assim como a do ciclismo tradicional e as bikes não são as bikes "contra-relógio" aerodinâmicas para furarem o ar, mas bikes tradicionais de ciclismo, já pressupondo que o vácuo existe e os atletas estarão mutuamente se ajudando. Se o vácuo não existisse, provavelmente veríamos cadências mais baixas, com mais força, o que muda completamente a dinâmica do treinamento.

Já pararam para pensar que caso o vácuo não existisse em provas de ITU, os nomes do esporte poderiam ser outros? Poderiam ter saído ciclistas daqueles Alpes italianos ou franceses, com pedais descomunais, mas corredores modestos com 35/36min nos 10km e terem sido campeões mundiais? Nadadores de elite que gostam mais de ciclismo do que de corrida poderiam facilmente também ter sido campeões simplesmente focando na natação e na bike e menos na corrida como sua estratégia. Hoje, corredores de triathlon que correm acima de 33m os 10km praticamente nem figuram entre as possíveis primeiras posições, por melhor que sejam na natação ou no pedal. O triathlon ganhou dinamismo com isso? Para mim, não.

Graças ao bom senso, nem tudo está perdido. A única situação em que o vácuo é liberado é em provas da ITU (triathlon e duathlon), de distâncias short e olímpica, para a elite/profissionais. Isto significa que até mesmo para os amadores que forem competir em provas da ITU no exterior em suas categorias, o vácuo é proibido. Esta informação é muito pouco difundida inclusive entre os triatletas. Até a própria federação brasileira (CBTri), que se diz adepta das regras da ITU, simplesmente faz vista grossa para este quesito.

Em minha opinião, uma das coisas que diferencia o triathlon de outras modalidades esportivas é o fato de não termos um "perfil genético" ou um biotipo específico do esporte. Em provas de triathlon vemos atletas baixos, leves, pesados, fortes, magros, altos, gordinhos, raquíticos, enfim. E todos com suas particularidades e habilidades esportivas. Um cara com 1m75 como eu, meio "fortinho", jamais se destacaria em provas de corrida, por exemplo. Os esportes individuais possuem uma certa regra genética, que não é verdade no triathlon sem vácuo.

O voto contra que eu dou em relação esta questão do vácuo, portanto, é a de limitar um multiesporte à predominância dos corredores, tirando toda essa equivalência, essa igualdade.

O maior problema, no entanto, que gera tanta polêmica, é quando as provas que não valem vácuo, que são a maioria, principalmente as de longa distância, aparece uma legião de espertinhos que usam do vácuo para levar vantagem. Aí, o buraco da discussão é bem mais embaixo porque deixamos de filosofar em cima da maravilha do esporte e passamos a discutir a sacanagem, a pilantragem, a lei da vantagem em tudo e as injustiças.

Aqui, abre-se uma discussão ética enorme, pois existem vários lados desse prisma a serem analisados. O primeiro deles é a fiscalização. Com o número de praticantes crescendo exponencialmente e as organizações querendo ter lucros cada vez maiores nas provas, juntar o "bolo" no ciclismo torna-se algo quase inevitável. É claro que esse "inevitável" é usado por muitos como pretexto para andar encaixotado em um pelotão, mas o fato é que existem situações que realmente o atleta honesto se vê impedido de fazer algo. Ora não consegue ultrapassar o pelotão, ora é engolido pelo pelotão que vem de trás, enfim. 

Somando-se isso a questão do pequeno número e da falta de treinamento dos fiscais de prova, temos o que os espertinhos queriam: o vácuo praticamente liberado, sem ser oficialmente liberado.

A outra questão é a honestidade do atleta. Esse é um tema largamente discutido nos fóruns. Honestidade dos atletas? Que raio de argumento é esse? Se fôssemos contar com isso, não precisaríamos escrever um regulamento, não é mesmo? Imaginem se o juíz de futebol parasse de marcar impedimento e a partir de hoje, simplesmente a honestidade do atleta fosse aceita. Ou nas questões de bola fora e bola dentro de vários esportes. Nós estamos falando de uma era onde os atletas cortam caminho em corrida para subir ao pódio. Honestidade dos atletas? 

Senhores que são a favor de simplesmente contarem com a honestidade dos atletas, vou falar uma coisa. Atleta não é um ser celeste. Não é um ser divino acima de qualquer suspeita nem algum anjo encarnado por aqui. Estelionatários, ladrões, espertinhos, corruptos e outros seres que lampejam por aí gostam de esporte também, sabiam? Você vai falar para um empresário e atleta, que sonega imposto, não paga direitos trabalhistas, não é ecologicamente correto, suborna fiscais, engana clientes, não paga fornecedores, etc. que ele tem que respeitar o vácuo? Isso é alguma piada?

Para mim, este argumento não cola. Vindo da organização, que está querendo lavar as mãos e ter o lucro dela sem dor de cabeça, dá até para entender. Mas de nós, atletas honestos? Não, mil vezes não. Honestidade do atleta o escambau. Tem que fiscalizar e a organização da prova precisa ser responsável por isso, afinal, está sendo paga, não é uma filantropia.

Portanto, dito meus motivos dos quais sou contra o vácuo e sou contra esse negócio de contar com a honestidade dos atletas, como resolver isso portanto? Aqui vão alguns pontos que sempre vejo nos fóruns e conversas por aí:

- Melhorar a qualidade dos fiscais para não fazerem vista grossa e não privilegiarem um ou outro.
- Não criar provas onde o ciclismo seja travado, com muitas retornos de 180o para se evitar a aglomeração. De preferência, circuitos desafiadores com mais subidas.
- Limitar o número de inscritos para algo que permita o lucro da organização e uma prova justa e de qualidade.
- Aplicar efetivamente as punições. Primeira advertência, parar a bike do atleta por 5min em provas curtas e 10min em provas longas (ou alguma variação disso que tenha coerência com a distância).
- Segunda punição realmente desclassificar o atleta.
- Atletas penalizados não conseguem vaga para mundial.
- Atletas penalizados não tem direito a pódio e troféu.
- Atletas desclassificados não poderão competir na próxima etapa daquele evento.
- Atletas profissionais (principalmente no feminino*) penalizados devem ser suspensos nas respectivas federações por um tempo a ser estudado (como 6 meses, ou algo assim).

*Não quis dizer que as triatletas femininas mereçam maior punição, apenas que o vácuo entre as atletas femininas costuma ser muito maior por existirem muitos atletas amadores com ciclismo forte nas provas e não é incomum vê-las se aproveitando disso.

Ao pessoal que é a favor da liberação do vácuo por ser muito difícil se coibir, aqui vai também minha opinião: mais uma vez, os inocentes pagarão pelos culpados. Vemos isso o tempo todo em todos os lugares. Liberar o vácuo por esta justificativa é aceitar a total derrota dos honestos para os espertinhos que se dão bem em cima do treino dos outros.

Ulisses

3 comentários:

  1. Ulisses, concordo com você em diversos pontos. Este ano no internacional de santos pedalei no ritmo que eu queria e não peguei vácuo em momento algum (acabando com a desculpa de que com muitos atletas é impossível fugir do pelote), mas fui ultrapassado por alguns atletas da minha categoria que estavam em um pelote de 4 atletas se revezando, avisei os fiscais, reclamei mas nada foi feito. E ainda ouvi que deveria fazer o meu que eles fariam o deles (o meu eu fiz...)
    Uma vez eu disse no meu blog, cachorro não sobe no sofá, por que se subir apanha! Ser humano faz cagada por que sabe que não vai ser punido, se tiver certeza da punição não faz! O que falta é adestamento!
    Abs!

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  2. Belo post, Ulisses! Parabéns!

    Só não entendi uma coisa na sua última sugestão: por que a suspensão por penalização deveria ser maior no feminino?

    Abs!

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    1. Olá Daniel, na verdade, foi um problema semântico apenas. Não quis dizer que o profissional feminino mereça mais que o profissional masculino. Mas concordo que depende da forma que ler, é esta interpretação que passa mesmo. Mas o que eu quis dizer é que no feminino o problema é muito maior porque elas pegam roda de amador. QUando eu coloquei entre parênteses "principalmente o feminino", quis dizer que "principalmente no feminino o vácuo é mais descarado", não que as "penalizações devam ocorrer mais no feminino".
      Obrigado pelo toque... Mas agora vou deixar o post assim porque não gosto de arrumar um post depois que ele já foi publicado. Post publicado, já era. Melhoro o português da próxima vez!
      Valeu!

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