quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Qualidade x quantidade - parte I



Olá a todos,

Se existisse um ranking para temas polêmicos, este certamente figuraria entre os primeiros.

Quando comecei a fazer triathlon, logo percebi que existiam duas escolas, duas ideologias, sobre treinamento. Os adeptos dos treinos de grande volume, normalmente vindos das escolas mais antigas, e os adeptos da chamada "qualidade", baseados nas novas tendências e pesquisas que afirmavam que a intensidade era o mais novo "Santo Graal" das metodologias de treinamento.




Era uma guerra. Assessorias se antagonizavam sob uma ou outra ótica, treinadores e alunos discutiam, até brigas existiam por causa dessas tendências. Alunos que tinham treinadores que eram da escola da "qualidade", mas queriam fazer um pouco de volume, faziam escondidos e vice-versa. Pessoas se vangloriavam dizendo "eu sou adepto dos trabalhos de qualidade". Um show de horror.

Aquela guerra ridícula, em minha opinião, estava ofuscando a possibilidade de mais descobertas e mais melhoras nas metodologias de treinamento.

Se me pararem na rua e perguntarem: "Você é a favor da qualidade ou da quantidade?" Qualquer imbecil vai responder que é da qualidade. Mas, acredito que o problema seja semântico. O que aquela pessoa quer dizer com "qualidade"?

Daquelas escolas antagônicas, a da qualidade, em sua imensa maioria das vezes, pregava a alta intensidade. Eles simplesmente trocaram "socação o tempo todo" por "qualidade". Pregavam idéias como "se você treinar sempre forte e socado, no dia de uma prova, vc diminui um pouquinho o ritmo e vai até o infinito", como se aquilo fosse a metodologia ideal para provas que variavam de sprint de 100m até Ironmans.

A partir do momento que uma pseudo-verdade como esta que coloquei acima é colocada, tudo deriva dali. Reparem que treinadores que usam esse critério para definirem seus treinos, normalmente trabalham em regra de três:
- Se vc está treinando para uma prova de 5km de corrida, vamos fazer 10x tiros de 400m
- Se vc está treinando para uma meia maratona, vamos fazer 20x tiros de 400m
- Se vc está treinando para maratona, vamos fazer 28x tiros de 400m

Esta "metodologia" estende-se ao triathlon
- Se vc está treinando para um triathlon olímpico, vamos fazer a série (10km bike + 2km corrida) 4 vezes
- Se vc está treinando para um Ironman, vamos fazer a série (40km bike + 10km de corrida) 3 vezes

Como o pessoal "da qualidade" acreditava que precisava estar sempre na socação, mas sabiam que aquilo poderia trazer um overtraining, sem contar que os atletas em poucos meses desistiriam de treinar daquela forma insana, "blocavam" os treinos sempre. Ao invés de se correr 30km moderado, o negócio era correr 3x 10km socando o pau! As palavras "leve" e "moderado" não existiam no vocabulário, afinal, "temos que treinar sempre na socação, porque no dia da prova, diminuímos um pouquinho o ritmo e vamos até o infinito". 

Na história da humanidade, milhares de idéias ridículas como essa se transformaram em verdade e derivaram pensamentos que até hoje temos em nossas cabeças...mas isso é para outro fórum rsrsrsr. 

Pronto, como em um passe de mágica, toda a complexidade fisiológica de nosso corpo fora transformada em uma simples e ingênua regra de três. Eu, um "entendido" de tecnologia, como poderia contestar? Mas o fato é que nunca acreditei que seria preciso muitos diplomas e títulos acadêmicos para desconfiar que aquilo era uma viagem sem tamanho.

As escolas do alto volume pregavam, por outro lado, que vc precisava "calejar". Precisava estar acostumado a ficar horas e horas em cima de uma bike, horas e horas de quilômetros acumulados de corrida. Como se a insistência pelo excesso fosse levar à perfeição. O objetivo era falar para os amigos os volumes semanais que carregavam. No meu primeiro Ironman, com uns 6 meses de triathlon, cheguei a fazer um treino de 160km de bike e 30km de corrida!!!! Pronto, eu já era um IRONMAN!!! Eu já era um SOLOMAN!! (rs). Quebrado, moído e vazando cortisol pela orelha naquela Bandeirantes, me sentindo o cara! 

Obviamente que a escola do alto volume teve que se render à questão da intensidade. Era óbvio demais que só fazer treinos de volume, o atleta não sairia de um "plateau". Aí, quando uma esperança começava a surgir para finalmente essas duas escolas chegarem a um acordo, as bizarrices aumentaram. Agora não era mais "Corre 10km forte aí", nem "corre 25km numa boa", mas o somatório insano dessas duas, ao estilo "corre 18km FORTE".

Santo Deus rsrsrsrsrrs. Saía-se de um treino deste como se tivesse feito uma prova. O dia seguinte, andar era complicado.

Impressionantemente, ninguém tinha a capacidade de pegar um livro de fisiologia ou metodologias de treinamento de técnicos conceituados e analisar tudo aquilo pela fisiologia humana, não por regras de três e "achismos".

Para encerrar o post, digo que a metodologia certa é o BALANÇO. De acordo com a prova foco pela frente, saber o que cada série e cada estímulo altera no corpo do ponto de vista fisiológico e estruturar um treinamento para atingir essas melhoras.

Na parte II vou entrar um pouco mais nesses detalhes.

Ulisses

2 comentários:

  1. Cara... treinar para triathlon é treinar uma sequencia SEM FIM.

    É um ciclo, sem fim.

    Vc tem que treinar hj, alguma coisa que consiga fazer amanhã e depois e depois e depois e depois e depois e depois e depois e depois e depois e depois....

    Treinar 1 treino forte é fácil (independente do nível) ... é fácil

    Quero ver a sequencia.


    Outra coisa:

    Fazer: 40km bike + 10km de corrida) 3 vezes

    Independente da intensidade, não é NEM FODENDO igual a fazer 160km com 30km de corrida.

    Chegar ao final de 3 x 40+10 NÃO vai te dar tanta confiança em terminar um Ironman, QUANTO terminar o treino de 160+30 mesmo que demore 12 hrs para faze-lo.

    Ganhar confiança em si mesmo.... essa é a chave para abrir algumas portas

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Ciro, legal sua passagem por aqui. Não conheço nenhum atleta tão empirista como vc. E os resultados estão aí, não é mesmo?
      Isso que vc escreveu da sequência é perfeito. Saber "encaixar"um treino que te melhore, não te deixe em um plateau, nem te destrua, seguindo uma sequência sem fim, como colocou, me parece a chave.
      Quando escrevi esse post (e vai ter mais um) sobre isso, era no sentido de mostrar as duas "escolas" que conheci. Acho que todo mundo já conheceu gente de uma e outra escola. O fato é que simplesmente por existirem essas escolas de forma antagônicas, uma se opondo a outra, já é algo estranho. Eu acredito que o treinamento ideal é aquele que aproveita o melhor das duas escolas. Vc vai fazer um Ironman sem ter feito treinos longos, pedais homéricos, corridas bem longas, ainda que seja em ritmo leve??? ok, boa sorte ao cidadão. E acho que vc concorda comigo aqui. No entanto, vc vai fazer um Ironman sem colocar nenhum treino mais curto na semana de velocidade e intensidade? ok, terá bastante confiança e condicionamento aeróbico, mas vai sempre demorar muito para chegar. Acredito que estas coisas valem até para provas mais curtas. Não tenho muitas dúvidas que até os atletas de provas de olímpico se beneficiam dos treinos mais longos e leves, por exemplo, do ponto de vista fisiológico. Esse cara vai precisar pedalar 6hs? Talvez não, mas porque não umas 3 ou 4hs? Será que esse cara só precisa pedalar por volta de 1h30 socando a bota só porque ele vai fazer prova curta? E outras adaptações que o corpo dele precisa? É nesse sentido que eu acredito que uma escola deveria aprender com a outra. Todos nós ganharíamos e sairíamos dessa guerra ridícula.
      Valeu!

      Excluir