quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Treinar demais faz mal?



Olá a todos,

Quem nunca ouviu esta? "Treinar demais faz mal" ou "esporte competitivo não é saudável".

Bom, médicos e nutricionistas costumam chamar atletas de "inflamados crônicos". Indivíduos que estão sempre inflamados devido aos treinos intensos e/ou longos. Quando estamos nos limites do corpo, ele responde com substâncias tóxicas que prejudicam nosso metabilismo e realmente geram uma série de sobrecargas. Não é a minha intensão aqui provar os índices de acúmulo de amônia ou os efeitos tóxicos do lactato ou do cortisol; ou mesmo dos problemas ortopédicos. Nem tenho conhecimento para isso. A idéia aqui é pensar um pouco do ponto de vista lógico e empírico da coisa. Correndo um sério risco de estar enganado, mas especulando.




É fato que de vez em quando ouvimos sobre algum problema de saúde grave que acomete alguns atletas de elite, como o recente caso do Norman Stadler ou mesmo do Torbjorn Sindballe. Sem contar da lenda Lance Armstrong, que, diferentemente dos outros dois com problemas cardíacos, teve um câncer que pode ter ocorrido devido às horas de prática de ciclismo.

Quantas pessoas, já no outro extremo, os sedentários, possuem câncer e problemas cardíacos? Bom, acho que a imensidão é tanta que fica difícil até de expressar em números. O Brasil com mais de 50% de obesos, os EUA com mais de 60%, certamente esse número é muito maior neste grupo do que no de atletas.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 70% das pessoas do mundo são sedentárias e estão sujeitas a desenvolver doenças cardíacas e obesidade. Ainda com dados da OMS, a falta de atividade física é responsável por 54% do risco de mortes por infarto cardíaco, 50% por acidente vascular cerebral (AVC) e 37% por câncer.

Esporte é algo, portanto, comprovadamente saudável e seus benefícios são inegáveis para o bem estar e saúde humanos, no entanto, estamos falando de excessos. Provas, competições, longas distâncias, ultra maratonas, Ironmans e por aí a fora. Quais são os limites do que podemos considerar saudável? Aqueles números que a OMS apresenta como 30 minutos diários, me parecem que chegaram a uma fórmula mágica. Mas e para quem não está a fim de simplesmente controlar os níveis de colesterol, mas está a fim de fazer provas? Melhorar tempos e performances?

Aqui, acredito que temos uma zona nebulosa. Existe um grupo de pessoas que não são os sedentários, não são os esportistas de final de semana ou frequentadores de academia, nem são atletas profissionais, daqueles que vivem de competir. Trocando em miúdos, nós, triatletas, nadadores, corredores, ciclistas e praticantes amadores de outras atividades, mas que tem um fim competitivo e de melhora, no final das contas. A OMS divulgou alguma coisa para esse público? Nunca ouvi falar.

Acredito que para esse público, temos que usar mais da lógica e bom senso do que das opiniões dos especialistas da área. Vamos pensar. Dentre este grupo de atletas, existem:

1) os que treinam sério, forte e com determinação para melhora constante, focados em provas duras como triathlons de longa distância, maratonas e ultramaratonas; ou mesmo provas curtas, mas com objetivo de baterem recordes pessoais, ganhar uma categoria, subir ao pódio, etc.
2) os que treinam mais light, fazem seus treinos intensos de vez em quando, mas nada em excesso e dedicam-se para provas curtas e de meia distância como corridas de 5/10/21km, giros de ciclismo, algumas travessias aquáticas de 2k/3k, sem muitas pretensões de tempo.

Acredito que a cada escolha que temos, há uma renúncia. Se exite um atleta do tipo "1", para que ele seja competitivo e ainda seja saudável, ele vai ter que abrir mais mão de eventos sociais, vai ter que se alimentar de forma mais regrada e voltada à recuperação e performance, vai ter que abrir menos exceções, vai ter que se preocupar com seu nível de estresse, vai ter que entender mais do esporte para evitar lesões, overtrainings e outros males.

Se existe um atleta do tipo "2", obviamente que como seus objetivos são menos ousados e usa as provas e competições como meio de integração social e se sentir saudável, vai ter que se restringir em algumas coisas, mas nada que chegue aos pés do atleta do tipo "1". Vai poder frequentar uma baladinha com mais frequência, vai poder comer uma gororoba de vez em quando, vai poder treinar mais desencanado, sem ficar preocupado com técnica, periodizações, etc.

Acredito que estes dois tipos de atletas são saudáveis. Eu sou um atleta do tipo "1" e desconheço algum amigo que seja mais saudável do que eu. Quando vou no médico é para ele falar sempre "Nossa! está tudo ótimo", não tenho problemas de saúde nunca, não fico doente, não tenho cáries, não me cai cabelo, não tenho dores (fora as de treino normais), tenho disposição, enfim. Sou saudável e treino com performance. Alguém vai me falar que faz mal? Mas eu faço de forma "xiita" o outro lado da moeda. Não quero só a parte "legal" do esporte. Quero abraçar a abstinência alimentar também, a ausência das baladas, de álcool, enfim. Acho que minha saúde merece. Como citei, a cada escolha, uma renúncia.

Onde quero chegar? Existe um atleta do tipo "3". O atleta que quer o bônus, mas sem o ônus.
Imagine uma mescla do atleta do tipo "1" com o tipo "2". O atleta treina duro, todos os dias, muito mais do que o recomendado pela OMS, é obstinado, quer a melhora, preocupa-se com tempos, pacings, números, etc, inscreve-se em provas como triathlons de longa distância, maratonas e ultramaratonas, todo ano quer ver melhora em si mesmo. Características do atleta tipo "1". No entanto, comem mal, dormem mal, bebem todos os finais de semana, abrem exceções o tempo todo. Características do atleta tipo "2", quase tendendo ao sedentário.

Imaginem vocês correr 25km em um sábado e depois tomar álcool. Ou fazer um treino de contra-relógio forte e depois, quando o corpo mais precisa e está clamando por nutrientes e antioxidantes de qualidade, ele coloca uma bisteca para dentro ou uma porçãozinha de calabresa para acompanhar a cerveja. Pior ainda, vai no McDonalds. Aquele que faz treinos ultra longos com sobrepeso, destruindo toda sua estrutura ortopédica. Imginem só o nível de inflamações, o nível de estresse metabólico e o nível de toxidade em um indivíduo como esse. Eu não tenho a menor dúvida que este atleta do tipo "3" é o famoso atleta destrutivo e este sim corre sérios riscos de saúde. 

Infelizmente, este atleta é mais comum do que podemos imaginar. Talvez seja reflexo de uma sociedade que quer sempre o bônus sem o ônus, uma sociedade que tem aversão à abstinência e resignação, que deveriam ser valores cultivados pelo ser humano. Papo sociológico demais, mas deve ter alguma relação.

De qualquer forma, o conselho: sejam atletas do tipo "1" ou "2", mas nunca do "3". Sua saúde agradece.

Ulisses





5 comentários:

  1. Voce me conhece Ulisses, sou atleta tipo 2 inquestinavelmente!!! E com os anos de convivencia encontrei vááários tipo 3...como quase todos eram da minha faixa etária, o problema de 80% deles que orbigou a parar de treinar foi a hérnia de disco...dor...cirurgia...recuperacao demorada...e uma vida limitada no futuro. Gerd

    ResponderExcluir
  2. Parabéns fera, muito bem explicado, vamos esperar que entendam o processo e repeito o corpo!!!

    ResponderExcluir
  3. Agora fiquei Bolado! ... vc resumiu o que eu era há 1 ano, e o que sou agora... pulei do tipo 3 pro tipo 1 em 6 meses...
    Nada de papo sociológico não, é extremamente real e paupável!
    Meu treinador me diz isso todos os dias...

    ResponderExcluir
  4. Tomei a liberdade de colocar a resposta de um colega, o Marlus Rodrigues Domingues, que o fez via Facbook. Acho que enriquece o Post.

    "como sou da saúde pública, quando vi você falar sobre causas de morte e OMS comecei a pensar que, se fosse comentar o seu post, meu comentário teria pelo menos 4x o tamanho do post original. Por isso, só alguns pontos.

    Esporte (amador) é saúde.
    Esporte de alto rendimento não é saúde, dependendo da modalidade destroi a pessoa em poucos anos. Acho desnecessário citar exemplos extremos como do Petr Vabroušek. Mas essa destruição não significa morte, porque geralmente os prejuízos do esporte são em partes do corpo que nada tem a ver com mortalidade. E como muitos esportes protegem contra doenças crônicas, acabamos ficando velhos e com dores por mais tempo e vivendo até os 90 reclamando dos joelhos e coluna. Mas pelo menos seremos velhos de 90 anos que vão ao banheiro sozinhos, com a vantagem de não precisarmos mais de depilação após os 70.
    O pior dos casos é o amador que quer treinar (ou competir) como um atleta de alto rendimento - situação muito comum no triathlon. Vide: iniciantes que acumulam em um ano 1 Iron e 2 Meio Iron, algo impensável há 10 anos e comum hoje em dia. Frase de um fisiologista americano: "fazer um Ironman sem o condicionamento adequado é envelhecer 12 anos em 12 horas".
    Existe até o termo “weekend warriors” pra falar do atleta de fim de semana e no nosso esporte eu vejo muito o “atleta de elite de fim de semana”. É o cara que trabalha num escritório diariamente, no fim do dia vai para uma academia fazer todas as aulas possíveis e no fim de semana ele bota o uniforme da Radioshack, monta na sua bike para fazer “o longão” porque afinal ele está se preparando para o Iron. Aí aquele corpo acostumado com 1h de rolo e 2 aulas de spinning por semana é submetido a uma carga de 210km na manhã de domingo. Isso faz mal? Acho que não. Traz algum resultado em termos de treinamento? Com certeza não.
    O triathlon não é um esporte tão destrutivo, e em termos de doença crônico-degenerativa, o que mais passa perto de nós é o câncer de pele. Felizmente não pertencemos a um esporte que causa danos cerebrais (alguns tipos de luta, por exemplo).
    Não confunda doença cardíaca num atleta com a doença cardíaca que mata milhares diariamente. Mesma causa mortis no papel, causas completamente diferentes.

    Por que a OMS não fala nada sobre os praticantes de esporte amador? Primeiro porque populacionalmente nós não existimos, exemplo - menos de 0,5% da população brasileira pratica natação. Você tem ideia de quão pequeno seja esse número no Sudão? Segundo porque tem tanta desgraça em saúde pública que nós somos um grupo populacional que dispensa cuidados, afinal estamos protegidos de praticamente 90% das causas de morte "normais" (não fumamos, somos magros, bebemos pouco, costumamos comer razoavelmente bem e não somos sedentários). A OMS precisa se dedicar (com toda razão) às causas mais nobres como obesidade, cardiopatias, diabetes, tuberculose, malaria...."

    ResponderExcluir