sexta-feira, 9 de março de 2012

Ciclismo e intolerância



Olá a todos,

Acredito que todos estão, pelo menos de longe, acompanhando os movimentos ciclísticos pelo Brasil a fora. Normalmente, os protestos são contra a morte de ciclistas no trânsito, mas existem as manifestações para pedir por mais respeito aos ciclistas, melhores condições das vias e ciclovias, etc.

Que a bicicleta é um meio de transporte ecológico, prático, barato e deveria ser objeto de uso nas mais variadas cidades, eu não tenho dúvidas. O problema é estabelecermos as linhas divisórias desse respeito mútuo.

Muita gente usa exemplos dos países "avançados" quando querem chamar a atenção sobre modelos de ciclismo urbanos que deram certo. E realmente, o são.


O Brasil é o terceiro maior produtor de bicicletas do mundo e não é tão despresível assim quando olhamos os números de pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte. O problema, portanto, são nas grandes cidades. Quando vamos para os interiores e praias, bicicletas pelo Brasil a fora são o que mais vemos. Todo mundo sem capacete, sem material adequado de segurança, é verdade, mas estão de bicicleta.

No entanto, coloco aqui apenas a minha opinião, acredito que o Brasil e os movimentos ciclísticos estão tentando queimar algumas etapas e, talvez, criando um sentimento de intolerância e rivalidade entre ciclistas e não ciclistas.

Cidades européias,  que normalmente são citadas como exemplos de ciclismo urbano,  passaram por um processo histórico de guerras. Em guerras, sentimentos de intolerância ficam exacerbados, minorias são excluídas, autocracias e ditaduras são implantadas. O ódio é algo que lampeja pelas ruas. Acredito que o exemplo mais expoente disso foi a própria segunda guerra mundial com os sentimentos nazistas de exclusão das minorias e se opondo a tudo aquilo que "não fossem eles". Isso é uma autocracia.

Passados mais de 50 anos, nesse processo histórico de reconstrução, houve certamente mudanças culturais profundas em todos aqueles países. Toda aquela intolerância da guerra deveria ser substituída por outro sentimento. Não digo que países europeus sejam exemplos de tolerância contra estrangeiros, por exemplo, mas certamente, de alguma forma, entenderam que sentimentos de intolerância ideológicas contra outros grupos não são o caminho para construir uma sociedade avançada. Devem ter estudado isso demais nas escolas nos últimos 50 anos. Alemães, por exemplo, tem total vergonha do Holocausto.

Quando volto ao Brasil e vejo constantemente os grupos ciclísticos reivindicando seus direitos e os grupos não ciclísticos não se importando, ou pior, ridicularizando a causa, como vemos muito nos fóruns e redes sociais, percebo sentimentos de intolerância muito similares àqueles dos períodos de guerra européia, guardadas as devidas proporções.

É estranho (e perigoso) notar como estes sentimentos de preconceito, de segregação, estão sempre enraizados no ser humano e se manifestam das maneiras mais diferentes. Percebam isso em épocas de eleição, por exemplo. Até os que acreditam que a ditadura deveria voltar, que ficam sempre quietinhos, nessas horas aparecem! São sentimentos vampiros, daqueles de filme de terror: quando achamos que o monstro morreu, ele reaparece do nada dando aquele susto! Não precisa ir muito longe. Toda vez que ouvirmos algum preconceito contra negros, baianos, pobres, praticantes de outras religiões, etc. são aqueles mesmos sentimentos da Europa pré-guerra que estamos evocando novamente.

Esta é uma questão que talvez os movimentos ciclísticos estejam desprezando. Estamos vivendo uma época de exercício de poder. No trânsito, vemos estes sentimentos o tempo todo. No carro grande que se joga na frente do pequeno, no animal que coloca aquele som altíssimo que abafa o som (e o pensamento) de quem quer que esteja do lado. O que vale é exercer o poder sobre o outro. Somando-se este cenário ao de criarmos mais um grupo reivindicando algo, podemos não ter um final feliz. O que querem os movimentos ciclísticos? Tornarem-se um grupo odiado, que sofre preconceito pelo resto da sociedade? Criarem um sentimento de ódio que desperta no motorista, ao primeiro impulso de exercício de poder, uma vontade de jogar o carro em cima do ciclista?

Quando falamos que o Brasil não está preparado para discutir a questão do ciclismo urbano, normalmente as discussões giram em torno das infra-estruturas necessárias para isso (ciclovias, integrações com outros meios de transporte públicos, etc) e da "educação" do povo, como se todos os motoristas fossem os mal educados e os ciclistas fossem os descendentes de sangue azul de educação nobre. 

Estamos falando de uma sociedade/era do exercício de poder, somado à intolerância. Isso não se denota apenas nos grupos e causas ciclísticas, mas em todos os lugares. É com este pensamento enraizado na alma do povo que queremos sair de bicicleta reivindicando? Em cidades com mais de 2 milhões de pessoas? Não sei...

Eu, particularmente, prefiro desenvolver mais meu extinto de auto-proteção do que de auto-exposição...

O processo de transformação, para tolerância entre os diferentes grupos, é demorado, envolve reflexões e mudanças profundas na sociedade. Apesar do fim nobre dos ciclistas, temo que o tiro saia pela culatra e o que deveria se transformar em um processo de conscientização, torne-se um foco de ódio e preconceito mútuo, típico de uma sociedade que caminha a passos largos para trás.

Ulisses

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