quarta-feira, 14 de março de 2012

Texto desmotivacional



Olá a todos,
Criar um post motivacional, nos dias de hoje, é mole.

Talvez seja um reflexo da cultura ocidental de concorrência e competição para sempre se estimular o aumento de produtividade, o crescimento dos números e massacrar a concorrência e nunca ficar em segundo lugar as causas de existir essa imensidão de apelos motivacionais.

Entre em uma área de vendas de uma empresa multinacional e verá quantas táticas são utilizadas para manter a equipe motivada. Faça um curso de MBA e verá que motivar uma equipe é uma "qualidade" de um líder. As táticas motivacionais exploram o sonho do ganho financeiro, a condição de status e poder, enfim. Existem até mesmo pessoas cujas profissões é esta: motivar pessoas!

No mundo do esporte, isso não é diferente. Vídeos, textos, frases, pseudo-filosofias motivacionais existem a rodo. Para Ironman então, vídeos motivacionais viraram uma febre.
Já repararam que muitos dos Best Sellers são livros de auto-ajuda e motivacionais?

Que tanto precisamos de motivação? Será que respeitar o ritmo das coisas não é uma forma mais inteligente de se lidar com a nossa natureza do que nos motivarmos sempre ao infinito? A natureza (na qual estamos inclusos) tem um ritmo. Porque temos que estar sempre ultra motivados para alcançar objetivos infinitos, quer sejam esportivos, corporativos, acadêmicos, ultrapassando muitas vezes, esse ritmo? Será que esse excesso de motivação não é um dos fatores de estarmos construindo uma sociedade egoísta e destrutiva?

Não estou fazendo uma apologia à preguiça, à falta de iniciativa e estímulo, entretanto, será que não seria mais inteligente entendermos este ritmo e nos adequarmos a ele? 

No caso do mundo corporativo, aquele funcionário preguiçoso que não faz nada e monta nas costas dos outros é um problema, mas será que aquele excesso de estímulo, aquela motivação exacerbada não é algo que só causa estresse? Será que não existe um ponto onde a produtividade existe, sem criar um laboratório de loucos a base de Gardenal? Aí, uma pergunta um pouco mais filosófica: será que precisamos de tanta produtividade assim?

No caso do esporte, a analogia é a mesma. Se fôssemos nos deixar levar pelos vídeos motivacionais, os levássemos ao "pé da letra", treinaríamos 12 horas por dia, em ritmos alucinantes, sob condições que variariam de deserto do Sahara até o frio da Patagônia. Será que este é o ritmo que precisamos nos impor para evoluirmos? Quem me garante, do ponto de vista fisiológico, que treinar insanamente, com mínimos descansos, treinos insanos, vão me evoluir mais do que encontrar "o ritmo"? Será que aquela motivação de sair correndo na chuva vai realmente me melhorar mais do que simplesmente escutar um pouco o meu "ritmo" e dizer para si mesmo "na chuva eu não vou, vou descansar"?

Eu descobri recentemente que alguns estudos acadêmicos relatam que os atletas que mais sofrem de Overtraining são os mais motivados. Será que é melhor ir para uma prova 10% aquém ou 10% além de suas capacidades? Motivação para ir para 10% além é necessário?

Histórias motivacionais existem aos montes por aí, mas será que os protagonistas destas histórias não eram especialistas em encontrar o seu ritmo? Um banho de marketing transformou aquele sábio ritmo em algo alucinante, fora do comum? Se pegarmos todos os medalhistas olímpicos, campeões mundiais de suas modalidades e diversos atletas da nata da elite mundial, eles realmente foram a 10% além de suas capacidades? Realmente suas vidas eram semelhantes ao que escutamos, especulamos e vemos nos vídeos motivacionais que os transformam em super seres humanos? Ou será que o que diferenciou esses atletas dos demais foi justamente a inteligência de saber encontrar o seu ritmo, enquanto os outros se explodiam?

Será que a mensagem inteligente não seria "encontre o ritmo", ao invés do "vá ao limite", "supere-se", "no pain no gain"? Essa apologia ao extremo, ao excesso é realmente algo intrínseco à melhora ou isso é apenas um delírio social generalizado típico dessa cultura ocidental?

Abaixo, uma charge metafórica do que escrevi aqui rsrsrrsrs. Acho que o principal recado é ser um motivado sábio, não um burro com iniciativa rsrsrsr.

Sem apologia nenhuma ao Paulo Maluf, por favor!!!!




7 comentários:

  1. Ulisses,
    Parabéns pelo texto acima, muito bem colocado, as coisas, como tudo em nossas vidas tem o seu ritmo natural de acontecer, as vezes o andar devagar é pressa, saber reconhecer o seu tempo, limites, esforços é sabedoria, é sinônimo de inteligência.
    Nunca me esqueço nos meus tempos de mundo corporativo s/a, que bastava colocar a palavra urgência pela pressão imposta pelos clientes, que tinham péssimos gerenciamentos de estoque, controle de produção, etc...., que a merda acontecia, os embarques sempre atrasavam, se perdiam, etc... e a bomba estourava nas nossas mãos os prestadores de serviço, que erámos os agentes de carga, o ele final da cadeia de logística, por isso aprendi na vida que tudo tem o seu tempo, o seu momento, a sua hora certa e precisamos sim aprender quando chega essa hora, aprender a respeitá-la, compreende-la, infelizmente no mundo que vivemos, se voce não aguenta a pressão, está fora, é simplesmente descartado, a pressão, a cobrança refletem no stress, irritação, insônia, depressão, trizteza, tudo que é contra a natureza humana, está na hora de acordarmos desse inferno e tentarmos mudar esses paradigmas idiotas que o mundo corportativo vem impondo ao longo de décadas, séculos, sei lá!!!!! Abraços Augusto

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  2. Preciso Ulisses...como disse o Gu, o importante é cada um encontrar o seu ritmo. Este é o grande desafio, ir na "cola" dos outros é fácil...e suicida em alguns esportes.

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    1. Gerd, como sempre disse pouco, mas disse tudo!!!!! Cada um no seu ritmo, como diz uma sábia frase:

      "Passárinho que acompanha morcego, acaba dormindo de cabeça pra baixo".

      Abraços!!!!
      Augusto Luppi

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  3. Fala Ulisses !!! acho que entendi mais ou menos o q vc quis dizer ... Não concordo com um aspecto ...

    Acho q um dos pontos q vc quis ressaltar é o perigo que o atleta supermotivado pode causar pra si mesmo. Mas na minha opinião o problema não está no excesso de motivação, e sim no erro de programação (ou não programação) dos treinos. O problema é quando alguns atletas pensam "Pô hoje estou supermotivado! ao invés de fazer 21km, como planejado, vou correr 32km !!"

    Acho q o melhor aspecto ou definição da motivação é o ato de não estar desmotivado! Aí acho que entendi o concordo com o q vc escreveu ... tipo,
    desmotivado -> não ira fazer o q deveria
    motivado - > não necessariamente deve tentar fazer mais do que deveria ...

    Sei lá ...
    Abraço
    Victor Cortez

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    1. ‎Victor, é mais ou menos por aí. No entanto, não existe planejamento e planilha do mundo que saiba mais do que você de como está naquele dia. O que nos faz evoluir no esporte é trabalhar em uma faixa de intensidade x volume consciente, sem auto-destruição. O meu ponto sobre essa geração da hiper-motivação é que essa sensação de "culpa" que ela provoca nos atletas ao não completar uma série ou não concluir um pedal longo pode ser exatamente o fator de melhora daquele atleta. O que te garante que, se na planilha estiver escrito 14x tiros de 400m, vc fizer apenas 8 deles e em intensidade mais baixa do que faria normalmente, não está melhorando mais? Eu sempre parto do princípio de que se eu saí destruído de um treino, ele não foi bom. A motivação é parte importante do processo, claro, mas o excesso dela talvez seja pior do que a falta. Talvez se estamos em uma época de mais desmotivação esse seja um sinal do corpo de que temos que ir mais devagar, já parou para pensar nisso? Tem muita coisa que a fisiologia não explica. Será que empurrar o limite de um atleta desmotivado naquele momento os resultados serão melhores? Será que a desmotivação não é justamente o excesso de algum neurotransmissor devido ao excesso de treino, ainda que planilhados? A motivação deve ser inteligente e não essa enxurrada marqueteira que temos o tempo todo. Faça uma busca no youtube e verá vídeos motivacionais em todas as áreas. No nosso caso, no esporte, tem vídeos ali que são ridículos, mostrando uma determinação e motivação quase que sobre humanos, que nos faz pensar: se eu seguir a rotina desse cara, eu morro. E morre mesmo! Aquilo é verdade? Duvido. Tudo que sai de um ritmo da natureza, eu desconfio.

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  4. Ulisses! Tô sentindo um certo clima de contestação no seu texto... Algo normal pra 10ª semana de treino de Ironman. Sabe aquele princípio do treinamento: stress, descanso, crescimento. Pois é stress demais, atrapalha o descanso e impossibilita o crescimento! Aí a vaca foi pro brejo!
    A expressão "ouvir o corpo" foi tão banalizada que nem damos mais ouvido a ela, muito menos ao corpo!!
    Minha vida no triathlon teve uma mudança radical ao adotar o IG. Antes eu ouvia o técnico (que não sabia o quanto eu sofria), o garmin (esse muito menos!) e não ouvia meu corpo! Larguei o técnico, vendi o Garmin (comprei um rolo) e passei a respeitar meus limites deixando de lado todo tipo de suplemento... E é aí onde quero chegar.
    Essa cultura de "exceda seus limites" é marketing puro da redbull, wtc, todas as fábricas de suplementos e siversas academias e assessorias que conhecemos bem!
    Um dia desses vi no site do Ironman um banner da FSR que dizia: "Tired of being tired? Try FSR"

    What the fuck?!?!?

    Se tá cansado de ficar cansado, DESCANSE!!!!

    Não!! Mas descansar não tem marca, não é legal de se "consumir na academia" e não gera lucros a ninguém!!! Hehehehe!

    Pois é, e os topeiras vão fundo no bagulho!!

    Eu tomo redbull pra conseguir trabalhar as vezes, mas em raras ocasiões e se começo a tomar muito, diminuo tudo (treino, trabalho, compromissos), como um bom macarrão com brócolis e durmo o máximo que dá. Hoje vou pra cama no máximo à 21h, estou "Tired of being tired!"

    Abraço!!

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