domingo, 22 de abril de 2012

As "verdades" do Ironman



O Ironman é uma prova onde o aprendizado é sem fim. 

Talvez pelo fato dele ter tantas variáveis é que o torna uma modalidade de triathlon cada vez mais praticada. É uma prova onde exitem muito mais mitos que verdades. Quando pensamos que descobrimos uma verdade imutável e absoluta, ficamos sabendo de atletas que enfrentaram situações completamente distintas, que deram certo e que contradizem completamente aquela verdade anterior.

Metodologias de treinamento, periodizações, fisiologia, nutrição, logística de treino e de provas, rotinas, enfim, acredito que seja completamente impossível enumerar todas as variáveis de forma a criarmos uma fórmula mágica, que se aplica à todas as situações e a todos.

Obviamente, existem aqueles caminhos comuns, aqueles caminhos que deram certo para um bom número de atletas e que, em última instância, podemos supor que elas representem um modelo, se não perfeito, mas completamente viável e que dá certo. Para exemplificarmos algumas:

- Criar uma base aeróbica de volume grande no início da periodização para tornar nosso corpo eficiente fisiologicamente naquilo que precisaremos na prova;
- Deixarmos os treinos de mais força para o começo da periodização;
- Tomarmos cuidado com tempo de exposição em treinos, evitando transições bike/corrida muito longos;
- Aprender a ouvir o corpo para podermos fazer dias de descanso que nos recuperem e absorvam o treinamento aplicado;
- A relação volume/intensidade deve ser oposta conforme vamos chegando próximo do dia da prova, isto é, não chegarmos com tanto volume próximo da competição para não haver estresse fisiológico, aproveitando para aumentar a intensidade
- Tomar cuidado para não deixarmos todas as fichas em provas menos importantes que aparecem pelo caminho que podem comprometer nossa recuperação e nossa continuidade de treinos.
- Polimento pré-prova, com volume e intensidades extremamente reduzidos entre 15 e 20 dias que antecedem a prova.

Enfim, aqui elenquei pouquíssimos desses "caminhos-modelo", mas já dá para ter uma idéia do que quero dizer.

O fato é que todo Ironman que se preza está (ou deveria estar) aberto a ouvir, ler e a aprender com outras metodologias ou outras opiniões de atletas e treinadores. Nesse caminho de aprendizado, eu reparei que existem atletas que fazem tudo diferente do que, em tese, seriam as recomendações de melhores práticas para o treinamento de uma prova como essa. E o mais intrigante, caminhos que dão certo da mesma forma.

Ao analisarmos atletas profissionais de elite, por exemplo, chega a ser espantoso o número de provas que fazem ao longo dos meses de treinamento para o Ironman, em intensidade alta. Provas que se eu fosse fazer, demoraria no mínimo, uma semana para me lembrar que eu estou vivo. Mais recentemente, hoje, para ser mais preciso, o caso do Guilherme Manocchio e do Ivan Albano, que fizeram um Ironman da África do Sul, chegando ali entre os 15 primeiros (ou seja, com performance e sem economizar) a um mês do Ironman Brasil, que, em tese, é o foco desses dois atletas. Alguém vai falar que eles estão errados? Como eles conseguem, eu não sei, mas algum fisiologista ou treinador vai falar que eles estão fazendo besteira? Se eles se derem mal no Ironman Brasil, aí é fácil todo mundo levantar e falar algo. Mas quero ver alguém falar AGORA e assumir que eles estão errados e que vão pagar um preço alto em Florianópolis. Complicado...até porque toda a comunidade do triathlon brasileiro está torcendo por nossos atletas.

Já vi muito atleta falar que não faz dia de descanso. Bom, no meu caso, se fico uma semana sem um dia de descanso, pode pegar a carcaça e jogar no caminhão de lixo. Me escuto e faço meus dias regenerativos, meus offs, ou dias que faço apenas funcionais ou musculação.  Já vi atleta que se não fizer dois dias de descanso semanais simplesmente não rendem. Chegam nas provas e vão muito bem. Já vi, da mesma forma,  atletas que não descansam, chegam nas provas e sempre vão mal, como já vi atletas que não descansam que chegam nas provas e detonam. Onde entram as teorias da fisiologia aqui?

Transições longas. Este é um assunto polêmico, mas, de forma geral, treinadores e fisiologistas não recomendam transições de mais de 40min de duração. Razão: tempo de exposição e estresse fisiológico para pouco ganho, já que terá a oportunidade de um treino de qualidade no específico de corrida. Mas, para variar, já vi atletas que fazem transições de mais de 20km. No meu primeiro Ironman cheguei a fazer duas transições de 30km de corrida. No final das duas, só sobraram a pele e os cabelos (rsrsr). É bem verdade que a grande parte dos atletas que eu vejo fazendo isso, chegam no Ironman e  andam depois da primeira meia maratona, mas, existem atletas que fazem estas transições "numa boa", se recuperam e continuam a semana. Chegam nas provas, arrebentam! Vamos falar que eles estão errados? Vamos dizer os famosos jargões "se eles não fizessem dessa forma iriam melhor?"

Em 2010, segui a metodologia do Ironguides. Entre muitas diferenças da metodologia em relação ao "convencional" é a tal periodização reversa. Ela consiste no oposto em relação ao dogma de se criar uma base de volume e condicionamento aeróbico no começo para aumentar a intensidade no final. Ela começa com um certo volume, mas nitidamente o foco é em técnica, em não explodir o atleta e em velocidade. Tudo vai aumentando, tanto volume, quanto intensidade ao longo do período, de forma bem estruturada. Isso vai contra tudo que eu já li de fisiologia, no entanto, eu segui à risca o treinamento e com um ano e oito meses de triathlon, trabalhando intensamente no mercado corporativo, sem anabolizante e sem vácuo, fiz um Ironman para 9h48, o que não é nada mal. Conheço outros atletas que seguiram a mesma metodologia e fizeram provas brilhantes mais de uma vez. Vamos dizer que a metodologia é furada? 

Se entrarmos no mérito de nutrição, a coisa é ainda mais intrigante. Existem as regras básicas de ingestão de carboidratos, sódio, potássio e líquidos durante a prova. Aqui, existe um certo consenso com algumas particularidades de um atleta para o outro. No entanto, quando falamos de gorduras e proteínas (entre elas BCAAs, Glutamina, etc), as discrepâncias vão as alturas. E, mais uma vez, vejo atletas que fazem resultados brilhantes com estratégias alimentares muito diversas. Isto sem falar nas diferenças de alimentação e suplementação do dia a dia durante o período de treinos.

Acreditar naquela máxima do "cada um é cada um"? Como acredita o meu amigo Vagner Bessa, e eu também, temos muito mais similaridades do que diferenças. Somos todos seres humanos e certamente acreditar que cada um é um ser completamente diferente do outro é bem complicado. (Ele explica muito bem isso neste post em seu blog A Árvore e a Floresta). Se fosse assim, não seria possível inventarmos vacinas e remédios alopáticos. Uns comeriam pedra, outros grama e outros frutas e cada um se adaptaria com aquela realidade. Isto certamente não é possível. O que torna, então, estas "verdades" não tão verdades assim nestas situações do Ironman?

Particularmente, eu não sei. Sei que o triathlon é um esporte novo e, com isso, não existem tantos estudos e avanços científicos como existem em esportes mais consagrados como natação, ciclismo e corrida isoladamente. Quando falamos ainda de Ironman, a coisa é pior ainda. É como se ainda não tivéssemos descoberto "as verdades" desse esporte e usamos aquilo de melhor que temos na mão no momento. Outros atletas mais empiristas utilizam sua própria percepção para colocarem os limites fisiológicos de seus treinamentos e fazem isso muito bem. Eu estou cada vez mais adepto dessa prática.

Resumindo: se você é um triatleta novato, está partindo agora para a longa distância e está atrás das verdades do triathlon, sinto informar, mas ela não existe totalmente. Você terá que usar de sua inteligência e de um somatório de informações e aprendizados que colherá em textos, em conversas com treinadores e atletas e o seu bom senso. Ao final de algum tempo, você criará "as suas verdades" que, obviamente, poderão estar redondamente erradas em algum momento e terá que readequá-las novamente. Isto é o Ironman.

Ulisses

2 comentários:

  1. Sendo novo, o Iron é um campo para inovações em tudo, da nutrição aos equipamentos, passando ainda pelas várias metodologias de treinamento.

    Acho que ele pede uma única coisa: esteja aberto as mudanças.

    Parabéns pelo texto Ulisses!!! Deveria estar no Kit do Ironman!

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  2. Parabéns Ulisses pelo texto, ótimo mesmo, quero também colocar a minha ideia sobre treinos e teorias de sobre tudo em relação no que está em volta disso, espero poder está lá para assistir o Ironman Brasil deste ano, tenho fé no seu objetivo, boa sorte e grande abração.

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