segunda-feira, 16 de abril de 2012

Os melhores vão para Kona?













Kona se tornou o "Olimpo" do triathlon e do esporte de endurance.

É onde estão, no mês de outubro a mais de trinta anos, os melhores triatletas de longa distância profissionais e amadores. É sem dúvida uma conquista e tanto, digna de muita garra, abstinência, dor e inteligência.

Será?

Em todas as atividades humanas que temos dinheiro, glamour ou status envolvidos, não podemos deixar de desconfiar que estes ideais iniciais e simbólicos podem não representar mais a realidade. 


Em qualquer esporte existe uma regra básica: quanto mais perto dos melhores e dos limites humanos estamos, mas difícil evoluirmos. As evoluções acabam sendo mínimas e as competições sendo decididas nos detalhes.

Neste contexto, não é muito difícil de notar que qualquer que seja a artimanha que um atleta utilize para se melhorar, lícita ou ilícita, pode ser a diferença. Sendo assim, as competições devem sempre ter muito cuidado ao premiarem os melhores realmente, se atentando aos detalhes principalmente daquilo que não é lícito.

No caso do triathlon de longa distância, o maior vilão é sem dúvida alguma, o vácuo no ciclismo. O triathlon é um esporte "contra-relógio", sendo assim, ele deve simular uma prova onde o indivíduo concorre com ele mesmo, com o relevo, com o clima, com seu condicionamento físico, psicológico e inteligência e sem nenhuma ajuda externa. Um triatleta que se beneficia do vácuo na etapa do ciclismo, não é atleta. Ele está devidamente colocado ao lado de estelionatários e corruptos, já que utilizam do preparo e do condicionamento de outros atletas, bem como das falhas das fiscalizações, para melhorarem seus tempos e, em última instância, pegarem algum pódio ou pior, alguma vaga para algum mundial. O de Kona, inclusive.

Apenas para ilustrar e colocarmos alguns números, o ciclismo é um esporte onde você vai mais rápido proporcionalmente à potência que é aplicada aos pedais. Esta medida em Watts. Para um atleta de 70kg manter 40km/h contra um vento de 10km/h, no plano, ele precisa exercer uma força de aproximadamente 364W. Se não existisse o vento, o mesmo atleta para manter a mesma velocidade precisaria de 186W. (Utilizei uma ferramenta bem interessante encontrada neste site para calcular http://www.exploratorium.edu/cycling/aerodynamics1.html)

É claro que ao entrar no zona de vácuo, não temos um fator de arrasto do vento de zero, mas certamente é muito menor do que os do 10km/h. Vamos, para não errarmos muito feio, dizer que um atleta no vácuo tenha, nas mesmas condições acima, 80% a menos de vento, isto é, um vento de 2km/h. Teríamos 216W. Uma diferença de aproximadamente 150W! E está diferença é em escala exponencial, isto é, se o vento aumentar 10%, não teremos um aumento de 10% em Watts, mas de bem mais. 

Vamos viajar um pouco mais nos números. No caso de um Ironman, se o atleta mantiver a absurda média de 40km/h durante os 180km, teremos um tempo de 4h30 de ciclismo. Vamos supor que aquela situação acima seja a da prova. O atleta, para fazer este feito, precisaria colocar nos pedais 364W durante 4h30. Ou 364 Joules em 1 segundo. Ou 5.896.800 Joules em toda a etapa de ciclismo. Ou 1411Kcal, aproximadamente. 

Já o "vaqueiro" (nome carinhoso dado aos picaretas que pegam vácuo), se nas mesmas condições pegasse vácuo, gastaria 837Kcal!!! Bom, acho que todos sabem aqui a diferença de 1400Kcal para 800Kcal, principalmente em uma prova de endurance, não é mesmo? Isso sem contar o fator psicológico da fadiga.

Apenas para viajar um pouquinho mais (e ficar ainda mais puto), se aquele segundo atleta fosse honesto e não pegasse vácuo, mas decidisse fazer a mesma força, como se estivesse no vácuo, isto é, os 216W e 837Kcal, ele sustentaria não os insanos 40km/h, mas 32km/h. Isto em 180km representaria um tempo de ciclismo de 5h38, "apenas" 1h08 acima do atleta de verdade.

Levando em conta que o triathlon não é ciclismo e ele exige que corramos depois, e no caso do Ironman 42,2km, não é difícil perceber o que estas diferenças podem representar também de economia de energia para se correr melhor, não é mesmo? Muito melhor, aliás...

É claro que estou utilizando simuladores e fórmulas matemáticas e as situações no campo são diferentes. Mas não tenho dúvidas que se em uma situação onde todos os atletas fossem obrigados a mostrar para a organização seus medidores de potência, os "vaqueiros" teriam sérios problemas em justificar como conseguiram segurar uma média horária alta, com a potência de um iniciante aos pedais.

Voltemos à Kona. No começo do post estava falando sobre detalhes, não é mesmo. Pois bem. Para nos classificarmos para o mundial, não existe índice, mas colocações. A cada ano que passa me parece que os tempos dos primeiros colocados amadores estão cada vez mais agressivos (para falar a verdade, nunca sei se por melhora e evolução nos treinamentos ou se porque a picaretagem do vácuo está cada vez mais à tona, refletindo a era ética que o ser humano vem passando). Hoje, entre as categorias de 30 até 44 anos, falar de conquista de vagas para Kona com 10h de prova não existe mais. Temos que começar a falar de 9h30 ou 9h20 para baixo. Um vaqueiro picareta que honestamente andaria por volta das 9h50 ou 10h, utilizando-se do vácuo e vendo todos esses números que coloquei aqui, calcularia sem medo de errar, um Ironman para baixo de 9h20 e, para a infelicidade dos honestos, uma vaga para Kona.

Se em Kona temos uma percentagem alta de vaqueiros picaretas que tem Ironmans para baixo de 9h30, mas tempos reais de quase 10 horas, onde estão os melhores atletas de fato?

Será que fora de Kona? Será que este antigo Olimpo do triathlon vai, ao longo do tempo, se transformar na terra da piada? No campeonato dos picaretas? Konaretas?

O mais duro é, conforme o tempo vai passando e meus tempos vão melhorando, vamos ficando mais próximos das informações, das análises e das fofocas. As verdades ficam mais nítidas, ídolos caem e se tornam picaretas e algumas perguntas sem respostas começam a ficar mais evidentes. A decepção vai tomando conta. Na verdade, os picaretas vão aparecendo. Assim como aquele policial honesto que entra na corporação e depois de um tempo começa a perceber quem são os participantes do jogo, aqui não é muito diferente.

Bom, que os picaretas estão vencendo em todos os cantos da sociedade, não é muita novidade,  mas no esporte, ainda mais amador, onde dinheiro e sobrevivência não fazem parte da equação, realmente me faz sentir vergonha de ser parte da raça humana...


9 comentários:

  1. O Brasil não tá fácil não...nem no esporte, nem no triathlon que achei que não teria nenhum desses subterfúgios!!! PQP....

    Muito bom texto...

    Abs

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  2. Ulisses,

    Números reais pra ilustrar melhor o teu texto:

    Considerando ma posição aerodinamica razoável, um atleta de tamanho médio 70-75kg precisa entre 280-300w pra andar a 40kph num percurso plano de ida e volta (desconsiderando assim o efeito vento contra/favor).

    Levando em consideração somente a resistência do ar à locomoção, um ciclista imediatamente atrás de outro economiza 20% de energia, e num pelotão algo entre 25-30%.

    Estamos falando aqui então de uma economia de 60-90w.

    Nessa faixa de potência, esses ganhos representam mais ou menos uns 10 anos de treino e dedicação.

    Preciso falar mais alguma coisa?

    Abs

    LODD

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    1. Valeu Lodd...realmente usei as ferramentas que tinha na mão e alguns cálculos matemáticos... De alguma forma sabia que as margens de erro seriam enormes. De qualquer forma, o problema persiste e essa provavelmente pode ser, no caso dos picaretas, a tal diferença de se pegar uma vaga ou não.
      Valeu

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  3. Exatamente por isso que eu parei de competir no Jiu Jitsu. Falcatruas nas pesagens, juizes atuando com parcialidade, dopping rotineiro.. Absurdo de um amigo que estava acima da categoria (peso), pedir para outro ir pesar no seu lugar (como o auditor das pesagens nao conferia documentos, ja imagina a zona).. O mundo da competicao possui ganancia exarcebada assim como no mundo corporativo. O problema esta generalizado, e em sociedades mais individualistas, culturalmente corruptas e com forte tendencia ao desrespeito `a "etica", regras, mesmo que numa pratica esportiva, sao descaradamente desconsideradas. Treine porque voce gosta e Kona nao eh o Olimpo. O Olimpo eh cada treino diario que te da satisfacao, saude, bem estar, onde seus limites sao superados, sempre ciente que cronometros de competicao nao indicam uma verdade indubitavel, muito menos que X possui melhor preparacao e performance que Y.

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    1. É zerão...é frustrance, mas vc tem razão...saber dessa realidade do Jiu-Jitsu dá a certeza realmente que não tem jeito...estamos na idade da pedra... Túnel de vento nas bikes e picaretagem na alma...a idade média é agora..

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  4. Infelizmente, isso que me desanima de competir. Eu fiz o 1º Long Distance de Pirassununga em 1999 e já via estes problemas, mas hj em dia é absurdo a pilantragem. Detalhe: nunca mais competi em Pirassununga, pois via a cada ano, que passaria mais raiva do que prazer em estar lá!!!

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  5. Muito bom mesmo.

    Não tenho tesão nenhum mais de fazer Ironmans, pagar uma fortuna e ainda ver a deslealdade bater na cara.....

    Tudo isso ainda sem considerar as substancias ilicitas que muitos tomam ou injetam.....

    não esta fácil !!!!

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    1. oi Ricardo...vc é irmão do lendário Renato Dantas de Lucas? Sabe cara, estou cada vez mais reparando que atletas de verdade ou viraram top do triathlon, profissionais de ponta, ou realmente saíram...Sobraram os picaretas, os posers e, obviamente, aqueles como eu que ainda sonham em ter um esporte bacana e limpo, independentemente do nível, mas estamos ficando em minoria....
      Pergunto de vc é irmão do Renato porque provavelmente sempre foram uma família de atletas e não tê-los mais nas provas por questões como essa é lamentável....

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  6. No final das contas tudo é culpa do "judiciário". aqui falando em sentido amplo, tipo incluindo os responsáveis por julgar, fiscalizar a picaretagem nas competições!! Se houvesse punição os trambiqueiros iam diminuir (imagina se houvesse uma fiscalização foda onde filmassem os vaqueiros e depois disso os outros atletas prejudicados entrassem com processos cíveis por danos !!)

    Mas acho q tô sonhando ...
    Abraço
    Victor Cortez

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