quarta-feira, 11 de abril de 2012

Todo esporte tem seu queniano



 Quando falamos de limites humanos e ficamos assutados com certas performances esportivas, o caso que mais vem à nossa cabeça são dos corredores quenianos.

Obviamente, temos estrelas da corrida de fundo e meia distância em outros países, mas em nenhum outro lugar temos tantos atletas com índices tão altos.

Para os que não são entendedores de corrida, ou que estão começando, e provavelmente já correram em uma esteira de academia, é muito comum colocarem velocidades por volta de 10km/h e já acharem difícil. Uma pessoa um pouco mais treinada, consegue colocar 12km/h e sustentar um tempo.


Apenas pessoas mais dedicadas, que realmente treinam corrida, conseguem sustentar muitos minutos velocidades acima de 14km/h, ou na linguagem dos corredores, 4:17min/km. Quebrar a barreira dos 4min/km sustentável, isto é, correr a 15km/h ou correr 10km em exatos 40 minutos é para uma parcela muito pequena da população mundial. De cada dez esteiras de academia que eu vejo, no máximo umas três passam dos 16km/h, e mesmo assim a academia precisa ter uma infra bacana para possuir uma dessas, já que tudo indica que o valor é proporcional à velocidade que ela atinge. Esteiras que passam de 20km/h custam o preço de um carro usado e só academias muito modernas possuem. Pois bem...20km/h...ou, na linguagem dos corredores, 3min/km. Estes corredores quenianos não apenas correm a esta velocidade, como sustentam os 42,2km de uma maratona nesta passada. Isso porque não é em uma esteira com ambiente controlado, mas na rua, com as intepéries do clima e do relevo. Esta é uma velocidade que um atleta bem treinado consegue correr por volta de 2km, mas eles correm 42,2km.

O fato é que existem outros "quenianos" pelo mundo nos outros esportes, que talvez passem despercebidos por não serem tão evidentes, pelo menos em países como Brasil, onde a corrida tem muito mais adeptos do que outros esportes.

Neste fim de semana, tivemos uma prova ultra tradicional de ciclismo na França chamada Paris-Roubaix, onde o belga Tom Boonen conquistou o primeiro lugar em uma prova de 257,5km, com muitos quilômetros em ruas de paralelepípedo, em 5h55m22s. Isto nos dá uma média de 43,48km/h. Basta dizer que se os quenianos fossem ciclistas, seria exatamente esta média que eles fariam em uma prova como esta.

Uma pessoa que não pratica ciclismo, mas que seja saudável e forte, provavelmente, conseguiria sustentar esta velocidade menos de 500m, isto sem vento e no plano. Um atleta bem condicionado e praticante da modalidade, provavelmente conseguirá sustentar esta média por uns 5km, sendo otimista.

No domingo do dia 01 de abril agora, a nossa Ana Marcela, que está disputando as etapas do campeonato mundial de maratonas aquáticas, venceu a 3a etapa em Israel, em um mar muito gelado, de 14 graus com um tempo de 2h02m37s os 10.000m.

Estamos falando do feminino! Isto dá um "pacing" de 1min13seg a cada 100m. A natação não é um esporte como a corrida ou como o ciclismo onde todo mundo sabe dar uma corrida desde que é criança e quase todo mundo sabe andar de bicicleta. Existe muita gente que não sabe nadar. Mas vamos supor que você começou a nadar adolescente e praticou uns quatro ou cinco anos, mas nada competitivo. Você é uma pessoa que sabe nadar e provavelmente sabe se virar bem. Se você for para uma piscina e tentar fazer um tiro de 100m no ritmo mais rápido que conseguir, provavelmente vai fazer por volta de 2min.

Se você treinar natação semanalmente e for um atleta que participa de provas, gosta de nadar rápido, você provavelmente dará esse tiro entre 1m10 e 1m35, dependendo de quantos anos você está ali se dedicando. Atletas que sustentam vários tiros de 100m para baixo de 1m15 descansando algum tempo na borda são considerados excelentes nadadores. Esta "queniana dos mares" simplesmente nadou com uma cadência de 1m13 os 10km no mar! Não sei o tempo do masculino nessas provas, mas deve ser para baixo de 1h55 ou próximo disso.

Quantos "quenianos" não temos no pólo, na ginástica olímpica, no tênis, no vôlei, no arremesso de peso, no salto em distância, no salto em altura...enfim...Quando conhecemos o esporte, fica mais fácil, mas quando não conhecemos, olhamos pela televisão, achamos bacana, mas muitas vezes não temos a menor noção de que o feito que estamos presenciando é algo digno de super-humanos.

Estes super-humanos estarão em Londes nessas próximas olimpíadas e eu, que vos escreve, estarei no Rio de Janeiro em 2016 esperando e aplaudindo todos aqueles "quenianos", filhos do Olimpo, desembarcarem aqui nas terras tupiniquins. Se teremos hotéis, transporte, acomodações, opiniões mil, pouco me importo. Estou muito mais interessado em estar ao lado dos seres que mais esbanjaram dedicação, suor, lágrimas e resignação do planeta. Durmo no banco de praça e vou a pé para os lugares, mas não perderei essa oportunidade. O resto é entretenimento, mídia e muito papo furado.

Um comentário:

  1. Farei o mesmo.... não tem hotel, durmo na praia, mas não perco as olimpíadas.... sonho em ir desde que entrei na faculdade e achei que teria $ para ir até Atenas após 3 anos de formado! RSRSRSR... mas esses "ET's", no bom sentido, merecem nosso respeito!!!!

    Abs

    Guto

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