domingo, 27 de maio de 2012

Aprendendo com a frustração



Hoje, possivelmente, foi o dia mais frustrante da minha vida.
Nunca coloquei tanto empenho, sem um retorno à altura, como este Ironman 2012.
Dada a largada, estranha este ano, por sinal, com certa antecedência e sem aquela contagem e palavras que a antecedem costumeiramente, saí para nadar no famigerado liquidificador humano e fiz uma natação como o esperado. Errando algumas coisas em navegação, mas menos do que normalmente. Saí da água para cravados 1:00h e fiz uma transição de 3:30m, já poupando 4 preciosos minutos em relação ao meu melhor Ironman em 2010.
Saí para pedalar feliz da vida, forte, me sentindo ótimo, sem aquele frio costumeiro em cima da bike, comum nesta etapa.

Ultrapassando os primeiros atletas, com 3km de ciclismo, pego um olho de gato enorme que quase me derruba e escuto meu pneu dianteiro explodir. Só podia ser um pesadelo. Comecei a gritar "não! Não! Não!". Rapidamente, peguei o "pitstop", coloquei no pneu e ele começou a inflar, desinflando logo em seguida. Quando eu olho, um talho no pneu saindo a espuma do pitstop. Um talho!
Não podia estar acontecendo aquilo.
Outro pitstop e a mesma coisa...
Mais um CO2 e nada...
Mais outro CO2 e nada...

Não levei pneu sobressalente. Fiz uma estratégia, que muitos podem achar suicida, mas a de nadar como tivesse que nadar, fazer o pedal mais forte que conseguisse, ficando entre os melhores pedais da prova, e fazer uma maratona consistente. Eu estaria com 2 anos a mais de treino, uma periodiação insana de pedal que eu fiz, e 7kg a menos para arrastar, afinal, eram 4kg a menos de peso corporal e 3kg a menos na bike entre caramanholas e assessórios. Esta estratégia não só me garantiria uma vaga para Kona, mas uma colocação entre os melhores amadores da prova, o que seria dois sonhos em um único dia.

A cada escolha, uma renúncia.

Sem levar o pneu extra, entrei em pânico. Parou um fiscal e ele me perguntava: "e aí amigo? Quer que eu chame o mecânico?". "quanto tempo ele demora?". "uma meia hora, 40 minutos". Sentei no chão e chorei...aquilo não pderia estar acontecendo...

Esperei 2 longos minutos, analisei a situação de forma mais fria e concluí: não era para acontecer. Resolvi desistir, por mais que aquilo me doesse.

A única coisa que eu queria naquele momento era ver minha família e ficar o mais longe possível daquele ambiente triatlético. Uma van veio me buscar, me levou até a transição e eu não pude fazer meu check-out, o que vai me obrigar a sair aqui de Canasvieiras e voltar para lá para isso. Uma solução um tanto draconiana da organização, ao meu ver, visto que eu estava identificado, com chip e disposto a fazer qualquer procedimento.

Duas coisas me deixam feliz: cresci absurdamente como atleta nesses meses de treinamento. Este lastro esportivo, sem lesões, estará comigo para sempre. A outra coisa é meu amigo Marcos Faria, que eu, daqui de Canasvieiras, não conseguia parar de pensar "agora o Marquinhos está em tal lugar", " agora ele está em tal lugar". Exatamente as 16:15 eu disse à minha família. "O Marquinhos chegou agora". Impressionantemente, ele me liga agora a noite dizendo que fez 9h15, ficou em 22o geral da prova e certamente pegará a vaga para o Havaí. Quando a gente conversa, compete e treina muito com um amigo atleta, sabemos do que ele é capaz. Este cara merece.

Vou repensar muitas coisas em minha vida esportiva depois desse fato frustrante, mas de um valor de aprendizado sem paralelo.

Agradeço aqui imensamente a minha namorada, kika, que amo muito e que está aqui comigo agora e durante este treinamento; à minha mãe, meu pai e a minha família que transformaram um dia catastrófico em uma tarde mais amena e compreensiva; aos meus apoiadores que acreditaram em mim, principalmente o Santa Pimenta e a 2XU Brasil.

A cada um dos amigos que me desejaram sorte e sucesso, meus sinceros agradecimentos. O que seriam dos atletas sem estas pessoas ao nosso lado nos dando tanta força?

O esporte é isso. Agora, é repensar os objetivos todos...

8 comentários:

  1. Poxa Ulisses, que dia vc teve .
    Frustração x aprendizado.
    Teremos mais desafio à frente !!

    Bjs

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  2. Parabéns Ulisses por colocar este fato no seu blog, são poucos que falam, mas vc fez o melhor, desistir de uma competição é aprender mais sobre o Triathlon - Ironman, agora é colocar a cabeça no lugar e seguir o que seu coração pedi, as vezes precisamos arriscar tudo, por que estamos vivos para fazer o que vc ama muito ou seja buscar o seu melhor a cada dia. Grande abração.

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  3. Caro Ulisses.
    Pena todo o esforço acabar assim...a frustração deve ter sido imensa.
    Mas não é a tôa que a sua estratégia pode ser chamada de "suicida"; entretanto, grandes bônus eventualmente implicam grandes riscos...e bem que poderia ter dado certo.
    Abraço.
    Leandro Rodrigues

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  4. Cara, sem palavras, o fato e que o que vc ganhoe treinaod para este ano ficara para po resto da vida e o qprendizado da prova é que as vezes a coisa mais simples pode acabar com os nossos planos! vc é forte, siga em frente! Esqueça de tudo e bola pra frente!!!

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  5. Cara, não desanime, tome isso como estímulo. É óbvio que a frustração por um objetivo não atingido é enorme, mas quando a gente sai de uma competição com a certeza de que se deu o máximo estamos bem conosco. E sempre se aprende para usar na próxima. Abração, Gangi

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  6. Oi Ulisses,

    Tudo que acontece conosco são formas e oportunidades de aprender mais. O que é mais importante neste mundo você possui: o apoio total de sua família e amigos.
    Não faltarão oportunidades de você vencer!

    Um grande abraço,
    Dani

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  7. Cara, estava MUITO na torcida e me sensibilizei... Senti daqui de tão longe um pouco da dor, então imagino o tamanho do tapa na cara, mas vou te falar, como vc bem coloca, tem muito, mas muito aprendizado aí!

    Mete bronca, Ulisses, os planos apenas atrasaram um ano, que é muito, mas é pouco, dependendo de onde se olha, como vc bem sabe. O cara que repete de ano na escola, por qualquer que seja o motivo, pode largar a escola ou mandar ver de novo e passar com ótimas notas no ano seguinte e seguir em frente :)

    Abração, meu caro!

    George

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