quarta-feira, 6 de junho de 2012

O direito de se destruir



Vou entrar em um tema polêmico. Vou ser chato. Vou pisar no calo de amigos e parentes. Mas, se eu não fizesse isso, não seria o Ulisses, não é mesmo? rsrsrsr. No fundo, amo todos vocês!

Eu escuto o tempo todo pessoas que dizem curtir a vida, sem restrições alimentares, ou que fumam e bebem, alegando que "todo mundo morre um dia" ou "se morrer amanhã, morrerei feliz" ou "para que viver tanto com tantas restrições?", enfim. Acho que os argumentos desse tipo são dos mais variados.

Por mais que eu seja contra tais argumentos, não por questões alimentares, mas ideológicas, já que a vida é algo frágil, importante e raro nesta imensidão cósmica e até uma formiga luta sempre pela sobrevivência, eu entendo perfeitamente quem pensa assim. Aqui não existe um jogo de "certo" ou "errado", mas sim de como um ou outro pensam. Respeito quem pensa desta forma, assim como gosto de ser respeitado nos meus pensamentos.



Entretanto, há uma questão que sempre me vem à cabeça nesse contexto. A eutanásia. Explico.
De forma geral, as pessoas que tem este tipo de pensamento, de apologia à curtição e autodestruição, pensam em viverem menos, mas viverem mais felizes. Sempre se apegam ao pensamento de morrerem de forma fulminante, em um belo dia de verão, sentados a uma cadeira. Já repararam que elas nunca pensam que podem simplesmente não morrerem? Que elas podem ser acometidas de um mal qualquer que as obrigam a ficar, anos e anos a fio, sob cuidados extremos, em um hospital ou mesmo em casa? Que elas podem envolver a vida de muitos amigos e parentes nessa difícil jornada?

A questão, portanto, é: já que no Brasil, a eutanásia é proibida, isto é, a pessoa não tem o direito de querer morrer nestas condições e a vida humana deve ser preservada a qualquer custo e a qualquer extremo, que direitos esta pessoa tem em colocar este peso nas costas de todo um círculo de pessoas? Afinal, não estamos mais falando dos direitos dela, mas de muitos outros.

Antes que me venham com argumentos do tipo "ah, mas você pode comer aveia a vida inteira e ser atropelado", ou "mesmo tendo hábitos saudáveis você pode ser acometido de algum mal similar e requerer cuidados". Ok, isto é verdade, mas estatisticamente isto é tão mais improvável, que não merece, se quer, que eu crie este parágrafo. Além disso, uma coisa é falarmos de uma fatalidade e a outra, bem diferente, é a autodestruição intencional. Do ponto de vista ético de conduta, existe um abismo de diferença.

Voltando ao tema. Até que ponto a pessoa tem realmente direito de se destruir, se lá na frente não será ela mesma que pagará tal pena, mas quem está ao seu lado? Particularmente, acho que ela não tem nenhum direito, a não ser que a eutanásia fosse algo lícito e moralmente aceito. Mas esta é só a minha opinião. Sinceramente, entendo que ela é "certa" só na minha cabeça e na de quem concorda comigo, mas não um certo absoluto. Entenderei os outros "certos", mas escrevi sobre isso aqui, pois realmente tenho curiosidade de saber como as pessoas pensam sobre este tema.

Bom, acho que já fui chato o bastante. Quero saber o que vão me falar sobre isso agora. Quero matar minha curiosidade.

9 comentários:

  1. Fala Ulisses,

    Situação complicada essa.

    Como eu já escrevi antes, cuido dos meus pais e não vejo isso como um fardo, creio que isso vem da nossa cultura que é de origem oriental. Eles já são idosos, então, tenho que ficar policiando o que comem, os remédios que tomam, as consultas médicas.

    Às vezes me vejo pensando: "se vc tivesse tomado cuidado com a alimentação na juventude, não estava eu pesquisando sobre "stents", exames de sangue, raio x das carótidas etc... Sim, às vezes, dá vontade de brigar, jogar na cara dizendo: "viu só, eu avisei, mas vcs não me ouvem...". Mas isso iria adiantar o quê? Hoje nada né... Já passei da fase de brigar, de me estressar e de tentar mudar as pessoas.

    Infelizmente eles já estão velhinhos e vejo que esses prazeres mundanos os fazem felizes (por mais aterrorizante que isso possa soar para nós que somos um pouquinho mais conscientes com a saúde). Uma vez, eu arranquei um pastel de feira da mão da minha mãe e fiz isso com uma certa raiva. Vi seus olhinhos lacrimejarem na hora. Pôxa, doeu meu coração... Ela nunca fez isso comigo, por que diabos eu estava fazendo isso com ela? Pensei comigo mesmo: por mais que minhas intenções sejam boas e por mais que eu os ame do fundo do meu coração, jamais repetirei esse gesto.

    No passado, quando crianças eles tiveram suas privações por conta da guerra, então, comida farta, comida gostosa, tem uma simbologia diferente. É até meio paradoxal pra eles, significando vida boa e boa vida. Não dá pra julgá-los sob esta ótica. Então digo pra mim mesmo que nesses últimos anos de vida que eles têm, vou continuar policiando, fazendo o que puder fazer, mas sem radicalizar nada, apenas fazendo-os viver com tranquilidade. É um ônus que vou carregar e não farei julgamentos contra eles.

    Quanto a mim, eu tento cuidar da melhor forma da minha saúde. Quando chegar a minha vez, quero dar o mínimo trabalho possível aos meus familiares e amigos. Quero envelhecer relativamente bem, já que tenho conhecimento, informação, modo de vida saudável, etc. Com essa bagagem também poderei passar aos meus filhos (se um dia os tiver) essa forma de levar a vida, ou seja, valorizando-a da melhor forma possível.

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    1. Oi Paulo, entendo perfeitamente o que está dizendo e concordo. No entanto, são situações bem diferentes. Um casal que veio de uma guerra? O meu avô, por exemplo, que foi paupérrimo, para não dizer favelado, e ficou rico, se permitindo comer e beber o que a vida lhe proporcionava? Estas pessoas, realmente, encaram de forma diferente tudo isso. Impossível de julgar. Estou falando, no entanto, de hedonismo. Prazer, prazer, prazer. Curtir a vida. Aquele pensamento de que "estamos aqui para curtir", se é que me entende. Este é um pensamento que domina todas as rodas sociais que participo, em qualquer classe, em qualquer lugar. Preocupante, ao meu ver, mas é apenas "o meu ver"....

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  2. Pessoal mete o foda-se aqui achando q vai pro céu depois que morrer... acham q a vida eh infinita, infelizmente o ser humano sempre pensa no hoje e no agora e nunca nas consequencias a longo prazo... Nao somente na questao de saude, mas em qualquer aspecto da vida.....

    Nos achamos inteligentes mas ainda somos apenas bem pouco de uma linha evolutiva que talvez nem chegue a ser realmente evoluida!

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    1. Ricardo! Concordo em grau, número e gênero! Mas são apenas nossas opiniões...
      Abraço

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  3. Ulisses, o que nós fazemos nao é lá muito recomendável. Cada um é responsável pelas suas escolhas e pagarão por elas no futuro. TODOS.

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  4. Bela polêmica. Pois é, complicado mesmo, Ulisses... O lance é que "a porca torce o rabo" quando se fala em senilidade... Me explico: a meu ver, o cara ou a cara que se destrói na versão mais radical (fumando, enchendo a cara e se entupindo de porcaria e cagando e andando para exercícios físicos por estar cansado demais para isso depois de passar horas sentado no carro preso no trânsito a caminho do trabalho onde passará o dia sentado em frente ao computador para depois sentar mais outro tanto no trânsito a caminho de casa e depois chegar e mandar um uiscão pra relaxar, uma pizza e umas breja e capotar por 5h e sair correndo no dia seguinte sucessivamente) ou na versão moderada ("pega leve durante a semana" e se acaba no fds, afinal "ninguém é de ferro"), assim como o cara moderadamente saudável (se alimenta bem e se exercita bem, se estressa pouco e pega bem de leve na frenquência e na quantidade dos venenos da vida) e a versão saudável radical (atletas de verdade, amadores ou profissionais), enfim, tomando o espectro inteiro dos mais variados casos, do extremo A ao extremo B, passando por toda a média e, claro, desconsiderando as famigeradas exceções que muitos adoram enunciar ("meu vô fumava feito uma chaminé e bebia feito um ralo e viveu bem até os 96", e "fulano atleta profissional, nunca bebeu nem fumou, so comia coisa saudável e teve um infarto fulminante aos 36"), estatisticamente, quanto menos destruição, mais vc viverá.

    Sim, a velhice demorará mais a chegar, mas chegará e aí é que a porca torce o rabo: Não há garantia, sequer probailística, de que porque se vive uma vida saudável, sua morte será mais ou menos LENTA... Hábitos saudáveis contribuirão extensivamente para a sua longevidade e isso, creio que tanto pra mim, quanto pra vc, assim como a maioria dos que vêm aqui no seu blog, é o que vale a pena, porém quem ao completarmos 96 primaveras, daremos menos trabalho..?

    Creio que estatisticamente, o maior efeito de se destruir seja adiantar a merda que é o fim da vida, dos 96 ou 86 que seja, para os 66 ou 56, mas estatisticamente, a vasta maioria das mortes (excluindo acidentes), segue o caminho LENTO E DECRÉPITO, inclusive, paradoxalmente, graças à medicina rs!

    Em algumas culturas orientais como na Mongólia, interiorzão da China, Tibet, Butão, enfim, aquele meião ali, o véio quando começa a "dar pau no sistema" dá tchau pra família e pra aldeia, faz a última ceia, pega o seu cajado e a sua sacola, e sobe o morro até encontrar uma caverna lá se ajeita à espera do chamado... Em outras culturas, incluindo a tupiniquim, o negócio é fazer batante filho, pra se garantir no futuro e na velhice...

    Sigo a linha do Paulo Sak em relação a meus véios, mesmo porque, a história dos meus avós de do meu pai também é de guerra e fome. Mas em relação à nossa vez, penso que se for pra radicalizar em termos de não querer dar trabalho pra família no futuro, basta não fazer uma rs! Abs!

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    1. Fala George, concordo em muito do que falou, mas discordo quando diz esta questão da longevidade relacionada ao padrão de vida. Eu não tenho base científica de nada, apenas as muitas coisas que leio e minha percepção empírica. Sou muito observador quando temos a tônica neste assunto e sou da opinião de que a longevidade tem mais a ver com questões genéticas do que propriamente com estilo de vida. Este último está mais relacionado à qualidade que o indivíduo terá nos últimos anos de sua vida. É exatamente por eu pensar assim que eu escrevi este post, na verdade. Uma pessoa pode ter hábitos de vida destrutivos e morrer com mais de 90 anos. Do mesmo jeito que uma pessoa que se preserva pode morrer por volta dos 70. A questão é o como serão os últimos anos destas pessoas. Veja que nunca quiz, da mesma forma, recriminar o estilo de vida de nossos pais por desconhecimento ou por informações erradas do passado. Nesta questão, este desconhecimento, ao meu ver, não caracteriza culpa. Mas, hoje em dia, com as informações que temos e as opiniões hedonistas do tipo "viver o aqui e agora" é que realmente vejo o problema e, se é que podemos assim chamar, de "culpa". Mas, como sempre, é só uma opinião.

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  5. Agreed. Deixemos de lado então o aspecto dieta saudável + exercícios = aumento da longevidade, já que sem sombra de dúvidas a genética desempenha de fato um papel DESGRAÇADO nisso tudo. Digo DESGRAÇADO porque da mesma forma a MALDITA genética que tanto nos agracia por um lado, também nos ENRABA por outro e daí entramos no âmbito das quantidades e proporções e todas as pesquisas que são feitas e os artigos científicos que são publicados e as 'conclusões' e contradições que vão aparecendo a cada nova década...

    Sabemos de uma série de exercícios que melhoram nossas capacidades vitais e também de substâncias extremamente nocivas das quais devemos nos distanciar ao máximo para que no longo prazo, quando chegarmos aos nossos últimos anos, sejam eles aos 60 ou aos 100, soframos menos com os inevitáveis problemas da depreciação natural da carcaça e do motor. Entretanto, muitos problemas que aparecem conforme envelhecemos são também de cunho genético, como o maldito cancer ou a maldita demência, para citar dos dos males mais comuns...

    De qualquer modo, acho que o grande problema que talvez até colabore para a promoção dos estilos de vida abusados, é o fato de que a vasta maioria das pessoas ao final de suas vidas, aos 60 ou aos 90 sofrerá e dará trabalho... São poucos os que tem a sorte de "acordar morto", mas acho que entendo o que vc quer dizer... talvez tenhamos que esperar ver o que ocorre com a nossa geração, mas o que vejo na terceira ou quarta idade é muito velhinho que foi saudável a vida toda passar uns 10 anos cheio de problemas que muitas vezes vão sendo resolvidos antes de aparecerem outros justamente por eles serem saudáveis, ao passo que um sujeito menos saudável não aguentaria tantos trancos... Dúvida cruel!

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    1. É cara...por isso disse que meu texto não é científico, apenas opinião, especulação, etc. Realmente é bem difícil. Existe, é claro, uma linha que divide o que são hábitos saudáveis de hábitos destrutivos. O grande problema, ao meu ver, ainda esbarra na "grossura" dessa linha rsrsrs... Qualquer idiota sabe diferenciar quando uma pessoa é extremamente saudável e outra é extremamente destrutiva. Quando falamos de extremos, as coisas ficam mais fáceis de serem identificadas. Uma pessoa totalmente destrutiva não vai ter problemas na velhice, vai ter problemas depois dos 35, já que não consegue correr, jogar bola, já vai ter que tomar remédio, estará sempre doente, enfim...Sem contar a questão de estética, auto-estima, humor, estresse e outros fatores psicológicos. O problema fica, portanto, no "meio-termo", que acredito ser grande parte da população. Ali, realmente é bem difícil dizer como será a qualidade de vida da pessoa nos próximos anos. As variáveis são muitas.

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