sexta-feira, 6 de julho de 2012

O triatleta estereotipado



O triathlon é um esporte engraçado. Ele está cheio de percepções, cheio de impressões dos não praticantes.
Quando um atleta fala que é nadador para algum membro da sociedade não atlética, a pessoa logo o imagina naquelas aulinhas de natação, com pranchinhas e fazendo bolinhas, mesmo que o atleta seja um nadador de elite. A mesma coisa acontece com um corredor, um ciclista. Ambos podem estar entre os melhores do país, mas perante aos olhos do não-atleta, um não passa de uma pessoa que corre e o outro não passa de uma pessoa que pedala, como aqueles com barra forte nos acostamentos das praias rsrsrs.

Posso estar redondamente enganado, mas eu percebo que o nome "triatleta" tem um certo estereótipo de "superman". Em um primeiro instante, o não-atleta não entende direito e pergunta se você faz "teatro", mas quando ele descobre que é um esporte composto de nadar, pedalar e correr, ele se espanta, fica abismado! Os não-atletas que já ao menos ouviram falar do esporte já ficam impressionados logo de cara. 
Esses dias, ao falar que eu era um triatleta a um senhor de uns sessenta e poucos anos, ele levantou a manga da camisa e mostrou o "muque" dizendo, "até que eu não estou tão ruim" (rsrsrrsrs).


Nós, triatletas, sabemos, entretanto, muito bem que de supermans não temos nada. Aliás, normalmente estamos tão cansados, que para executar as tarefas mais simples do cotidiano estamos mais letárgicos que qualquer outra pessoa, inclusive o próprio não atleta aí de cima (rsrsrsrrs).

O triathlon é um esporte que exige muito, sem dúvidas. Não conheço outro esporte que seja necessário tanta logística, tantas horas de treino e tanta restrição (alimentar e outras) para praticá-lo,  mas venhamos e convenhamos, assim como qualquer esporte, existem formas e formas de praticá-lo. Contudo, o post aqui é realmente sobre as impressões das pessoas, principalmente, dos não-atletas, a nosso respeito.

O triatleta é o atleta mais cobrado pela sociedade que eu conheço. Ao falarmos que somos triatletas e o outro imaginar você voando pela cidade com a roupa do Superman, principalmente em situações à mesa, onde a restrição alimentar fica mais aparente, logo as perguntas "de cobrança" surgem:

- "Você vive disso?"
- "Você é patrocinado?"
- "Você é profissional?"

De forma geral, e isto serve para qualquer esporte, os não atletas não conseguem compreender a tamanha dedicação a algum esporte quando este não é remunerado ou trás algum benefício/status ao atleta. Acredito que isto não valha apenas para o esporte, inclusive. Qualquer atividade humana, que não tenha vínculo com retorno financeiro, é vista como supérfula, como segundo plano e dedicação demais é um tanto incompreendida. 

No caso do triathlon, eu percebo que isso fica muito mais aparente (talvez perca para um cara que escala o Everest ou que faz caça submarina no Ártico rsrsrrsrsrs). Acredito que seja justamente devido a esta síndrome de "Superman" sob a ótica do outro.

Existem vários tipos de triatletas. Os profissionais, que realmente ganham dinheiro com aquilo, são atletas a muitos e muitos anos e estão o tempo todo na mídia, nacional e internacional (ou pelo menos deveriam estar, já que no Brasil esporte na mídia significa futebol). Existe o triatleta amador, que, como o próprio nome diz, ama o esporte, mas sem ambições de colocações, classificações, patrocínios. Apenas amam o esporte, treinam bastante e estão sempre presentes nas provas. Existe, para completar, aquela faixa nebulosa, que eu chamo de amadores de elite, que não vivem daquilo, nem possuem o lastro esportivo de muitos anos dos atletas profissionais, nem, tão pouco, são apenas praticantes e amantes do esporte. São atletas preocupados com performances, pódios, classificações, patrocínios, etc, mas sabem que não vão viver efetivamente daquilo.

Para lidar com a sociedade, ser um triatleta profissional deve ser mais fácil. Aparecendo pela frente um não atleta com a síndrome de "Superman" (rsrsrs), ele simplesmente fala que é "PROFISSIONAL", e acabou o problema. Todas as restrições alimentares, todas as resignações são automaticamente perdoadas e compreendidas. Isto é apenas uma suposição minha, mas deve ser por aí. Para nós, amadores, a situação é mais complicada e engraçada muitas vezes. 

Existem situações onde temos que desconversar, há outras onde falamos algo do tipo "eu sou viciado em esportes, o triathlon me caiu como uma luva", apenas para falar qualquer coisa, e fica tudo certo. No caso dos amadores que estão sempre brigando pelas primeiras posições nas categorias, alguns pódios, algumas colocações bacanas podem nos servir como desculpas. Você falar que apenas pratica um esporte difícil e exigente como o triathlon é uma coisa, você falar que pegou 1o, 2o, 3o, 7o, etc na competição "Troféu Joinha de Triathlon Sbrãbous", já o coloca em um patamar diferente da conversa e o não-atleta passa a compreender mais aquela dedicação, ainda que ele nem tenha noção da relevância daquela prova.

A questão toda é: porque desta cobrança, ainda que subliminar e indireta? Por muitas vezes já me peguei pensando que isso era apenas viagem da minha cabeça, mas sinceramente, eu não acredito. Acredito realmente que as pessoas, de forma geral, precisam ouvir que aquela dedicação do outro tem algum fim financeiro ou de status, até por uma questão dela mesma se questionar: "porque este cara se dedica para algo, arranja tempo para fazê-lo, e eu não?". Soa como se a pessoa queira encontrar uma auto-justificativa para si mesma. Daí, talvez venha a eterna pergunta "Você vive disso?". Se você mente, como já fiz algumas vezes para acabar logo com o papo, e diz que sim, pronto, na cabeça dela deve passar algo como: "Ah! bom, ele vive disso, ufa! está explicado". Eu juro que percebo um certo alívio no semblante da pessoa.

Tudo isso é bem curioso e me pego, muitas vezes, quase dando uma de psicólogo para entender de onde vem aquelas percepções e aqueles rótulos e estereótipos. Se eu falo que não vou poder ir a um compromisso porque tenho que trabalhar, me ferrar no escritório até de madrugada, estou automaticamente perdoado e tudo é compreendido. Não vejo muitas pessoas falando: "Que isso cara, vai enfartar! saia dessa loucura, isso não leva a nada!". Mas quando nos justificamos dizendo que vamos treinar, a coisa complica. O triatleta profissional tem a resposta na ponta da língua e sabe que será perdoado, afinal, o treino dele é a mesma coisa do que o outro cidadão ir para o escritório, perante aos olhos do não atleta. Mas e para o amador? 

Muito difícil chegar em uma hora como essa e dizer "eu vou treinar porque eu quero, vou participar de uma prova". Dependendo do compromisso que a pessoa está te convidando (e você recusando), aquilo pode soar como ofensa, ela pode não se considerar importante para você, enfim. Em muitas vezes, me pego mentindo, dizendo que tenho outro compromisso, ou dando uma valorizada a mais no meu passe e na competição da qual estou me preparando, dizendo que faz parte do campeonato brasileiro, dizendo que é para pegar alguma classificação para não sei onde, enfim. De forma geral, as pessoas precisam desses rótulos para te perdoar. O simples ato de treinar por pura e simples dedicação, não é muito bem visto, como já reparei muitas vezes.

Obviamente, que depois de lerem esse texto, alguns dirão para não esquentar a cabeça com isso, para desencanar. Eu não esquento a cabeça rsrsrsrrs. Apenas gosto de perceber a atitude das pessoas sob algumas circunstâncias e me questionar de onde vem aquilo. Aprendemos muito com estas observações, inclusive para outras circunstâncias quaisquer.

Tudo muito curioso, mas, VAMOS TREINAR! rsrsrsrrsrs

Ulisses


2 comentários:

  1. Esse nadapedalacorre dá muitas histórias.

    Por mais que eu pronuncie triathlon, tem um vizinho, que acha que faço um "teatro esportivo" hehe ou circo pois o cara sempre está fantasiado. Ou pior quando estou indo/chegando do trabalho (vou de bike) de camisa e calça, sempre me pergunta, - treinando hein??

    É só comédia...

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  2. E o pior é quando você explica que nadapedalacorre e diz as distancias e o ser pensante pergunta: para que??

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