terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sou vegetariano restrito!





Há pouco mais de dois meses atrás, publiquei este post sobre os meus primeiros passos no vegetarianismo. A preocupação inicial era saúde e, com ela, a performance, tornando meu corpo mais alcalino, livre de doenças e uma máquina de recuperação de treinos.

Hoje, apesar do pouco tempo, já tive minhas experiências iniciais, tanto positivas quanto negativas, bem como aprendizado enorme sobre este tema do vegetarianismo. A idéia deste post é passar justamente estas primeiras impressões.


Primeiramente, gostaria de dizer que, apesar de inicialmente a idéia de me tornar vegetariano ter sido por questões pessoais de desempenho e saúde, confesso que abri os olhos para uma outra realidade da qual não tinha idéia da dimensão: a forma como toda nossa cultura e modelo de consumo alimentar estão baseados no sofrimento animal. Para mim, quando eu pensava em "animal" e "proteína", imaginava o filé de algo e algum derivado de leite, sabia que havia morte ou reclusão por trás daquilo, mas tinha uma visão um tanto infantil de todo este processo. Não conseguia enxergar animais como matéria-prima para uma linha de produção industrial ultra "eficiente" e doente (tão doente que alguns acham normal), como aço para a indústria automobilística. Para mim, pelo menos, tudo que li, vi e refleti, é muito chocante.

Descobri, neste contexto, que se você quiser realmente tirar tudo que é de origem animal da dieta, o trabalho é muito maior do que simplesmente tirar "o filé". Tudo tem leite, tudo tem ovo e quando não tem explícito nos ingredientes, tem "vestígios", pois o produto é processado em máquinas por onde outros itens "animais" também passam. O que veio na minha cabeça foi bem óbvio. Se a imensa maioria dos itens que pegamos nas prateleiras dos mercados tem algum componente de origem animal, em todos os mercados, em todas as cidades, estados e países ocidentalizados do mundo, então estamos realmente diante da sociedade que mais promove o sofrimento e morticínio animais que aqui já esteve.

Eu que sou um cara que sempre fico imaginando como seria uma sociedade evoluída, bem longe desta que estamos imersos, um item para mim seria sem dúvida imprescindível. A forma como esta sociedade trataria os animais. Uma sociedade evoluída decididamente não pode promover este tipo de cultura ridícula. Como, da mesma forma, tento sempre seguir a minha própria cartilha porque acredito que temos que ser a mudança que queremos ver no mundo, o vegetarianismo tomou uma dimensão bem maior do que triathlon, competição, tempos e recuperação. Simplesmente, acabou virando o certo a se fazer do ponto de vista ético.

A outra coisa que veio na carona do vegetarianismo foi a questão de tentar retirar o máximo possível de produtos industrializados e processados. Farinha branca, açúcar e sal refinados e conservantes, para ser mais exato. Há tantos estudos relacionando estes itens a tantas doenças que dispensam colocar as fontes aqui. Basta o leitor mesmo dar umas "googadas" de cinco minutos e eles vão chover em sua tela. Para estes ingredientes, no entanto, a não ser que tenhamos condições de comprar tudo em lojas naturais de orgânicos ou tenhamos vários metros quadrados de uma horta própria, temos que tentar fazer o melhor possível, pois atingir o perfeito torna-se algo quase inviável. Até um pão "integral" Wickbold tem farinha branca e de integral só tem o nome. Dentro de nossa casa até que não é difícil (pelo menos para quem mora sozinho), mas fora de nossa casa, em restaurantes e na casa de outras pessoas, tudo é industrializado, processado e branco. No entanto, se tratarmos como raras exceções, podemos seguir adiante. Abençoados sejam o Santa Pimenta e a casa da minha mãe! rs.

Vamos aos pontos negativos inicialmente:

- Alimentação fora de casa: como sempre, esta é uma tarefa difícil. Tirar derivados de animais e produtos processados te coloca em uma situação difícil à mesa. O saco de mentiras está sendo utilizado mais do que nunca. Em situações onde não há outra maneira, consumo os brancos, mas nunca derivados de animais. Algumas exceções tive que fazer com macarrão que leva ovos nos ingredientes. Esta é uma situação normalmente que ocorre em alguns finais de semana e o que eu faço é chegar na segunda-feira e tentar retornar a minha alimentação para a mais alcalina possível.

- Ridicularização: Como tudo que sai do status quo e do modelo de sociedade pré-estabelecido, o vegetariano passa por ridicularização. Desde aquelas sem fundamento que insistem em dizer que você ficará anêmico e magro, até à homossexualidade. Como eu sou um cara que há muito tempo percebi que seguir o padrão é justamente o que me deixa infeliz, uma coisa a mais outra a menos, estou tirando de letra.

- Fibras = banheiro: O fato é bem simples. Proteína vegetal sem fibras, vinda diretamente da natureza, não existe. Existem os industrializados, proteína de soja ou de arroz, mas cá entre nós, qual era o objetivo inical de tudo isso mesmo? Me tornar o mais saudável e alcalino possível. Substituir um "pozinho colorido" de whey por um outro vegetariano não vai me deixar mais perto do ideal. Sendo assim, lanço mão de alguns itens como proteína de soja ou leite de soja industrializados em alguns momentos, mas procuro sempre tirar proteínas de grãos, cereais e sementes. Sendo assim, preciso entender meu corpo como nunca para saber quais as quantidades e horários que posso comer para salvar meu treino de intensidade de corrida. Quando o treino é de natação ou bike, não sinto a menor diferença neste sentido, mas a corrida, principalmente a de intensidade, cheguei a estragar vários treinos com vontade de ir ao banheiro. O que eu fiz de errado? A quantidade de fibras e o volume de comida que eu ingeri no dia anterior. Estou cada vez mais, no entanto, entendendo todo este encaixe e isto vem diminuindo. Não tem jeito, se eu quero salvar meu treino de intensidade de corrida, no dia anterior, preciso me preocupar com a alimentação, ingerindo itens saudáveis e alcalinos, mas sem passar de uma quantidade que sei que me prejudicará. É um balanço entre ingerir a quantidade certa de proteína sem exagerar para não passar a quantidade de fibras ou a quantidade de comida propriamente dita.

- Força: Minha força caiu um pouco, nos exercícios onde este fundamento é necessário. Musculação, sprints de 200m, sprints de 25m na piscina, etc. Talvez, pela falta de creatina.

Vamos aos pontos positivos dos quais estou muito feliz. Li em vários lugares que demoraria algumas semanas até eu passar por um processo de desintoxicação. Acredito que acabei de sair desta fase e realmente senti a diferença deste período. Hoje, me sinto bem melhor do que me sentia no começo desta empreitada. Tudo indica que realmente existe esta adaptação:

- Recuperação: Está excelente. Não tomo mais nenhum suplemento, a não ser meus complexos vitamínicos e ômega 3. Me sinto cansado após os treinos normalmente, mas no segundo treino do dia, já estou bem. No dia seguinte, já levanto ótimo e pronto para treinar. O "suplemento pós-treino" simplesmente perdeu o sentido totalmente. Como tenho uma alimentação extremamente saudável, repleta de nutrientes e antioxidantes, além de alcalina, a única coisa que preciso no meu pós-treino é um carboidrato de alto índice glicêmico. Rapadura ou mel é o que uso normalmente, mas pode ser qualquer um.

- A alimentação acompanha o treino: Antes, eu comia exatamente igual nos dias em que treinava mais ou menos. A diferença ficava com os suplementos e alimentação durante treinos. Hoje, treino mais, como mais, treino menos, como menos. Esta é a regra. Como procuro nunca colocar calorias vazias dos "brancos" para dentro, tudo que ingiro tem uma enormidade de nutrientes, portanto, mesmo que seja um dia que eu treine pouco e coma pouco, aquela quantidade é suficiente para me dar todos os nutrientes que preciso e para me manter bem para a semana. Não preciso ficar me preocupando se eu ingeri ferro, proteína ou carboidrato suficientes. Simplesmente ingeri o suficiente e estou sempre com os estoques proteicos, glicêmicos, vitamínicos e minerais em dia. Parei de fazer contas e confio na qualidade da aliementação.

- Qualidade de sono: sempre tive problemas com isso, hoje diminuiu muito.

- Aspecto geral: olheiras sempre tive depois de treinos longos ou noites mal dormidas. Ainda tenho, mas diminuiu absurdamente. Elas decididamente vão embora mais rápido. Meu aspecto geral melhorou nitidamente, daquela forma que até a mãe percebe (rsrsrrs). A pele está com aspecto muito melhor, inclusive. Simplesmente não uso mais desodorante, para terem ideia. Sempre fui um cara que depois de algumas horas, aquele cheirinho aparecia. Hoje, posso ficar o dia inteiro. Até depois do treino não tenho mais cheiro.

- Rendimento: Com exceção da força, todos os indicadores fisiológicos restantes estão melhores. Percebi que meu nível de "sofrimento" aumentou demais. Batimentos cardíacos inimagináveis, hoje são normais nos treinos de intensidade. Acredito que meu VO2Máx e minha tolerância à lactato deve ter sofrido uma melhora significativa. Meu corpo ficou mais eficiente também, em condicionamento aeróbico, já que consigo manter um batimento cardíaco baixo mesmo em intensidades maiores do que antes. Em treinos longos de endurance aeróbico, antes, eu precisava comer algum carboidrato e tomar água com uma certa frequência. Hoje, cheguei a fazer treinos de mais de 20km de corrida sem tomar um gole d'água ou carbo, impensável até um tempo atrás. No pedal longo, como algo após duas horas, não porque preciso, mas por receio apenas. A minha eficiência em consumir gorduras e preservar água parece ter aumentado. Difícil dizer, entretanto, se isto teve algo a ver com o vegetarianismo ou com o treinamento em si apenas, mas o fato é que senti tais melhoras apenas agora, após esta empreitada vegetariana.

- Controle do peso: Achei que ia ser bem difícil, pois eu estava com dificuldades em isolar os macronutrientes (carboidratos, gorduras e proteínas), que eu tanto calculava, em alimentos de origem vegetal. Ao que tudo indica, no entanto, o ser humano evoluiu consumindo os alimentos exatamente da forma como a natureza os dispõe. Resolvi parar um pouco de fazer contas e pensar mais na quantidade total, se estou satisfeito ou não estou, ouvir o corpo. Simples assim. Toda proteína vegetal possui gordura. No entanto, é aquela boa, que auxilia em uma série de processos de nosso corpo. Apesar de ambas as gorduras, a saturada encontrada nas carnes, e as insaturadas encontradas nos vegetais, terem a mesma quantidade de calorias por grama, ao que me parece, as gorduras vegetais podem ser ingeridas em maior quantidade, pelo menos para quem treina desse jeito. Castanhas, nozes, amêndoas, abacate, azeite, são gordurosos e calóricos, mas diferentemente de antes, onde eu os fracionava bastante, hoje, não chego a comer à vontade, mas como com muito menos culpa e sem pudores. Estou seco do mesmo jeito. Ao que tudo indica, meu corpo adquiriu uma eficiência maior em queimar gorduras.

De forma geral, estou bem feliz, tanto do ponto de vista atlético como ético. Tenho a impressão que meu corpo está sempre equilibrado, do ponto de vista hormonal, proteico, vitamínico, etc. Sinto que ele está funcionando como um relógio como nunca. Vou continuar reportando outras alterações que eu notar em minha vida.


2 comentários:

  1. Seguindo sua evolução.... ja pensei milhares de vezes de parar de comer carne... simplesmente entro no mercado e não consigo nem olhar nas prateleiras repletas de carne bovina, suína dentre outras, não por dó, mais sim por sentir uma certa aversão aquilo.... continuarei seguindo os seus posts para ver sua evolução... e cuidado com doações de sangue, que diminuem drasticamente o nível de ferro do corpo... ainda mais nessa sua nova fase da vida...

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    1. Valeu Marlus.
      Na verdade, eu ando percebedo que ser vegetariano é mais fácil do que a cultura popular imagina. Sei lá a quem interessa nos deixar alienados achando que é um bicho de sete cabeças. Precisamos é de informação para não fazer cagada. Os vegetarianos que ficam com a saúde comprometida são aqueles que comiam arroz, batata e carne e simplesmente tiram a carne rsrsrsrs. A partir do momento que tirou algo da dieta, precisa colocar substitutos e precisa entender como fazer isso. Se fizer tudo direito e cair na rotina, não tem porque você não ser mais saudável do que um onívoro

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