segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Guardar pesos faz parte do treino!





No dia 09 de fevereiro de 1992, me matriculei em uma academia de musculação. Destas de bairro, baratas, com os pesos enferrujados, mas com uma galera pra lá de engraçada e descontraída. Era desde alguns "boys" do bairro, até a galera mais humilde, mas era uma eterna zoeira. E a galera treinava sério!

Eu, com meus 15 anos de idade, não entendia nada de puxar ferro, mas logo nos primeiros dias tomei uma "carcada" do Marcão, o dono da academia, que na época tinha uns 40 anos e era fortão, tipo halterofilista: "Guardar pesos faz parte do treino!". Eu tinha deixado dois pesinhos ali jogados.

Pensei "o negão vai me espancar agora" rsrsrsrrs, mas era o famoso "cão que late, mas não morde". Uma figuraça o Marcão, aliás. 

Depois deste dia, nunca mais fiz uma série se quer sem guardar os pesos. Podia ser um peso de 1kg ou de 50kg, eu sempre desmontava e guardava. Percebi que naquela academia da zona norte de São Paulo, simples, isto era uma regra, na qual, obviamente, existiam exceções. O Marcão sempre ficava puto (rsrsrs), mas era um peso ali, outro aqui que ele mesmo guardava antes de fechar a academia. As vezes até eu ajudava.

Permaneci nesta academia por 15 anos mais ou menos, mas neste período, não foi a única academia que frequentei. Como trabalhei bastante tempo viajando, onde quer que eu fosse passar mais do que 3 dias, dava um jeito de arrumar uma academia. Foi assim em Brasília, em Curitiba, no Rio, em Porto Alegre, em Vitória e em vários lugares do interior de São Paulo e dos EUA que eu estive. Sem contar as academias que eu descolava muitas vezes em São Paulo mesmo porque eu estava fazendo algum curso extra curricular e não daria tempo de chegar até a zona norte; ou ainda  academias que eu descolava na praia, quando estava de férias passando alguns dias. Perdi literalmente as contas de quantas academias eu conheci e frequentei neste período.

Em 2007 saí da minha primeira academia, com muita tristeza, porque me mudei de bairro em São Paulo. Obviamente, a primeira coisa que fiz foi me matricular em outra academia, desta vez na zona oeste. Em paralelo, até 2008 pelo menos, sempre indo para alguma outra academia de alguma cidade que eu estava. A imensa maioria destas academias eram simples, do estilo da minha primeira academia, mas de vez em quando eu estava em alguma um pouco mais sofisticada, mas nada que chegasse próximo das academias híper elitizadas. Eu percebi, no entanto, que estas academias todas tinham algo em comum: a imensa maioria dos alunos guardavam os pesos e halteres após suas séries. As exceções, obviamente, sempre existiam, mas, eram apenas exceções.

Em 2008, mudando de emprego e com o benefício de me pagarem a academia, finalmente entrei em uma academia mais elitizada na zona sul de São Paulo. Até porque estava começando a fazer triathlon e precisava de uma piscina e uma estrutura boa. Até mesmo nesta academia mais chique, as pessoas guardavam seus halteres, sempre com algumas exceções.

Quando saí de São Paulo em 2010 e me mudei para Atibaia, me matriculei na melhor academia da cidade. Razões um tanto óbvias: piscina bacana, boas esteiras e aparelhos de musculação de primeira. É realmente o que preciso. 

Tudo bonito até aqui, mas, uma coisa foi extremamente surpreendente para mim. No ano que eu bati 20 anos de academia (20 anos e 6 meses, para ser mais exato), e já tendo passado por um número que me foge da imaginação de outras academias, esta é a ÚNICA academia que eu conheci onde EU SOU O ÚNICO MANÉ QUE GUARDA PESOS!!!!!!!!!!! 

A mulherada não guarda, os iniciantes não guardam, os fortões não guardam, os jovens não guardam, os velhos não guardam. A impressão REAL que tenho é que eu sou o ÚNICO que guarda realmente. Um trabalho torturante para os professores que precisam ficar organizando e guardando centenas de quilos de pesos no fim da noite. Sem contar dos alunos, como eu (que deve até existir e eu não saiba) que SEMRPE que precisa de um peso precisa ficar caçando pela academia ou tendo que desmontar um monte de anilhas que algum animal anterior deixou de "presente" para conseguir fazer sua série.

Bem, não sei se alguém que treina lá está lendo isso e pensando "ahahahahha que mané!". Não me importo e continuarei guardando os pesos. Porque eu meu acho um mané? Não, porque eu acredito muito que o respeito ao espaço do outro, nos mínimos detalhes de nosso cotidiano, é o que pode fazer a diferença quando falamos em um aspecto mais amplo da sociedade. Aquela tal história de não fazer para o outro o que não deseja para você, que certamente já ouviram. O faço simplesmente porque é o certo a se fazer. 

Marcão, faz anos que não o vejo! Talvez na sua inocência daquele dia de 1992 você nem tenha reparado, mas me deu uma aula de conduta social! Infelizmente, mesmo o povo mais elitizado de Atibaia não aprendeu isso. Talvez precisem sujar um pouco mais as mãos de ferrugem, treinar com roupas rasgadas e cheias de graxa, com gente da periferia, como era nos meus tempos por aí, para não se sentirem mais importantes do que o próximo aluno que precisará dos halteres. Dá-lhe Marcão! 



3 comentários:

  1. É triste, parece que quanto mais dinheiro e mais mimo, mas deprimente a pessoa vai ficando =/

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  2. Não consigo imaginar uma academia onde não se guardam os pesos...

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  3. Pois é.... também não imaginava... até conhecer a minha rsrsrs.

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