sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

O Abismo entre Atletas




Devido ao recente caso de doping no triatleta brasileiro Ivan Albano e à publicação de sua carta de desculpas nas redes sociais, os fóruns bombaram com acusações e justificativas, contra e a favor do atleta.

Como sempre nestas questões que envolvem temas éticos difíceis, os diálogos se perdiam. Os famosos argumentos "é crime e deveria ser punido, mas não se ele for meu amigo", ou "não podemos opinar quando não conhecemos a situação" apareceram de monte. Cada vez mais fico tenso com a visão distorcida de ética, moral e justiça que algumas pessoas tem da sociedade, afinal, elas tem filhos e uma nova geração com esta mentalidade está em formação. Mais ou menos como o caso do Lance Armstrong  onde muitos ainda o apoiavam alegando que "era uma perseguição, já que outros se dopavam e estavam impune", como se esta fosse uma justificativa para absolvição de qualquer criminoso de qualquer crime.

Eu tentei, nestes fóruns, sair um pouco deste tema ético e entrar mais na questão da performance esportiva propriamente dita. O Ivan Albano é um triatleta experiente, com anos de prática esportiva competitiva, muitas colocações entre os TOP 10 do Ironman Brasil com tempos na casa das 8h50 aproximadamente. 

Como é sabido, existe uma questão que é incontestável no esporte: quanto mais próximo dos tempos reduzidos e dos limites do corpo humano, mais difícil tirarmos o mínimo. Uma pessoa que corre 5km para 30min está iniciando no esporte. Com um treinamento adequado, alguma perda de peso, rapidamente fará para 25min. Para reduzir mais 5min, isto é, correr a 4min/km e cravar 20min, o treino será bem mais exaustivo do que os 5 minutos anteriores. Não é à toa, portanto, que, com esta lógica, os profissionais fiquem brigando na casa dos segundos. Um faz os mesmos 5km para 14m15s e o outro faz para 14m45s, por exemplo. Olhando aqui no texto, parece uma diferença de tempo mínima, mas se estivermos na linha de chegada observando os atletas, estes 30 segundos são uma eternidade, um verdadeiro abismo entre ambos. O segundo atleta terá muito sangue, suor e lágrimas para conseguir tirar este tempo, isto, se um dia conseguir.

Esta lógica acontece em qualquer esporte e no triathlon não seria diferente. Um atleta que possui um meio Ironman para 5h não demorará muito para conseguir tirar 10min de seu tempo. Já um atleta na casa das 4h30 terá muito mais trabalho. Sendo assim, o abismo que existe entre um atleta de 5h para um de 4h30 é muito menor do que o que existe entre um de 4h30 para um de 4h. Chega uma hora que "brigar com os minutos" fica uma tarefa absurdamente árdua.

Voltando ao caso do Ivan Albano, a dúvida era bem simples, portanto. Se eu tenho um atleta com anos e anos de prática esportiva como ele, com um Ironman na casa de 8h50, e mesmo com todo o treinamento e a dedicação, se dopou, o que eu posso esperar de caras que tem Ironman sub 8h ou 8h baixo? O abismo destes 40 ou 50 minutos é imensamente maior do que o encontrado entre um atleta com Ironman de 10h em relação a um de 10h40. Sendo assim, o que justificaria tal diferença? Não estamos falando de um atleta que começou ontem, se dopou e fez 8h50. Estamos falando do Ivan Albano! E se eu for mais longe e tomar o Colucci, o Santiago, Sturla, Ezequiel, Galindez, todos nomes fortíssimos do triathlon local com Ironmans na casa das 8h20, ainda assim, teremos um "abismo" para um atleta que tem um Ironman para 8h05. Esta não é uma diferença que "uns educativos de corrida a mais resolvem" ou "mais um treino de bike semanal dá conta". É realmente um abismo. 

É seguindo esta linha de raciocínio que minha cabeça dava um nó. Ou o Ivan Albano é ruim demais, pois mesmo dopado e com tanto treino ainda fica a mais de 30 minutos dos primeiros colocados, ou todo mundo se dopa e eu aqui dando uma de inocente, ou existe realmente alguma diferença nos treinamentos e no meio em que todos estes atletas de ponta estão imersos, principalmente os de fora do país. Obviamente, tento de todas as formas achar justificativas para acreditar que a terceira hipótese é a verdadeira. Sempre escuto que a "estrutura" lá de fora é melhor, mas o que viria a ser esta "estrutura" afinal"? Pistas de atletismo com materiais melhores evitarão este abismo? Piscinas com espelhos no fundo evitarão este abismo? Alguma aparelhagem? A questão toda era saber, portanto, o que era esta "estrutura".

Foi dentro desta abordagem que duas pessoas me responderam sobre o tal "abismo" que me dei por convencido. O Anderson Bassi, treinador e atleta de São Paulo, e o Marlos Rodrigues Domingues, professor universitário, treinador e atleta de Pelotas, Rio Grande do Sul.

Anderson: é algo simples e ao mesmo tempo complexo. Primeiro é necessário abundancia estrutural, ou seja, pistas, piscinas, velódromos etc, espalhados por todos os bairros, segurança e muita facilidade para pratica esportiva, seja ela qual for a modalidade, com isso qualquer criança terá chances de vivenciar diversos esportes e desenvolver suas potencialidades. Profissionais? Nós temos excelentes profissionais e digo isso com toda certeza. Mas por que eles não aparecem? Por que não tem chance? Porque nossa política, nossa cultura, é de indicação, ou seja, não é o mérito quem seleciona e por isso alguns ficam na sombra, com isso a maioria acaba saindo do país para ter um pouco mais de prosperidade. Na maioria das vezes nossos atletas são culturalmente defasados, com pouco conhecimento literário, acadêmico e a ignorância os leva aos erros, uma das soluções para esse problema seriam escolas melhores, pois a informação é a melhor arma contra a ignorância. Tudo está ligado ao acesso, equipamento não pode se inacessível, tem que ser barato, bem como inscrever-se em competições. São fatores combinados que formam um excelente atleta, também existe a política do “encharco” (quantidade), que também é usada no treinamento, por exemplo: você tem 30 atletas, treina o mais forte e duro, aquele que sobreviver será o melhor, o representante, eu acho esse tipo de trabalho absurdo, ultraje, ignorante e repulsivo, mas adotado pelas potencias esportivas e também usado por aqui, infelizmente. No Brasil o amadorismo predomina em todos os setores e esse se reflete no esporte, mesmo assim, alguém terá que perder para que alguém possa ganhar. O mais lindo da competição são as incertezas, ou seja, em uma largada tudo pode acontecer, o bom trabalho deve ser feito, mas isso não garante resultado algum, nem os anabolizantes. E esse abismo que você fala é justamente todos esses fatores combinados, mas em minha opinião o maior fator de todos é a destreza desportiva, ou seja, a questão não é quanto, mas como.



Marlos: Ulisses, eu fui recentemente para a Austrália, até fiz uns posts no meu blog sobre o que vi por lá, inclusive coisas esportivas. Cara, pra mim o grande abismo é a quantidade de gente que pratica o esporte. Não tem como termos grandes atletas por aqui enquanto não tivermos uma grande quantidade de atletas. E treinadores bons não são fruto apenas de estudo, mas um treinador torna-se bom quando passa por diversas experiências ao longo de muitos anos. Sabe como se tem experiência de treinador no alto rendimento? Treinando vários atletas de alto rendimento. Sabe o que precisa pra ter vários atletas de alto rendimento? Ter milhares de crianças que sejam ativas desde os 5-6 anos de idade para que deles possamos extrair alguns talentos. Existe um número cabalístico que afirma que, de cada 100 mil praticantes de um esporte, 1 poderá chegar a ser medalhista olímpico. A coisa inicia na base e vai afunilando com o passar dos anos. Nos USA, aos 16 anos - ser atleta competente em algum esporte significa uma vaga na universidade. No Brasil aos 16 anos - para se chegar a uma boa universidade é preciso abandonar a carreira esportiva e estudar porque a estrutura de ensino te obriga a escolher. O apoio ao esporte no Brasil é inverso: no exterior se entende que, para que o sujeito apresente um bom rendimento, ele precisa ser apoiado até chegar lá. No Brasil, experimenta pedir algum patrocínio/apoio sem já ter vencido diversas provas. Custo do esporte: não temos locais públicos para prática esportiva, natação para maior parte da população é para milionários. Material esportivo no Brasil é muito caro. Tudo aqui é dificultado, da base ao alto nível. Quando surge um "talento" ele é um alien e só descobrimos os talentos na vida adulta, e aí, o que fazer com ele? Quem vai treiná-lo? Pode ser um excelente treinador, experiente, mas ele tem experiência com atletas de nível olímpico? Claro que não, nunca viu um na frente. Aí o cara se vê obrigado a ir pro exterior, cai num mundo estranho, muda de hábitos, é afetado psicologicamente, sente falta de casa e vai treinar com um grupo de alto nível que treina como atletas de alto nível desde que tinham 12 anos, e o brasileiro está ali, no meio deles agora e o que pro brasileiro é novidade, pros gringos é rotina há mais 10 anos.

Na Austrália eu participei de um evento beneficente que era uma pedalada de 90km. Juntou 10 mil pessoas, entre elas: senhoras levando cachorro na cestinha, turmas de colégio com seus professores de educação física, avós, filhos e netos, cegos em bikes tandem... Experimenta um evento desses no Brasil. Vão aparecer 50 malucos, só ciclistas, 2 serão atropelados na BR. Por que? Porque aqui quem pedala é maluco beleza ou atleta, o ciclismo não pertence ao senso comum. Como descobrirmos ciclistas na população se não existem praticantes? E como descobrir um talento jovem se no nosso país só podemos nos "aventurar" numa prova de estrada lá pelos 20 anos?

Nutrição esportiva. Canso de ser questionado: indicas alguém como nutricionista para mim? Resposta: não. Conheço a fulana que fez uma especialização em nutrição esportiva, mas nunca trabalhou com atletas. Por que? Porque não existem atletas no Brasil, como a coitada vai adquirir experiência?

Eu trabalho com pós-graduação na área de desempenho esportivo e atividade física e saúde, sou coordenador de um mestrado. Problema mais frequente na área de desempenho. O mestrando quer pesquisar efeito de treinamento X, do suplemento Y sobre o rendimento... Ok, precisamos de um grupo de pelo menos XX atletas.... Não tem, abandona, muda de assunto a tua pesquisa. Aí falo com um colega que foi fazer pós-doutorado na Nova Zelândia. Ao lado da universidade tinha uma sede de Mountain bikers e ele pegou o cadastro dos caras dispostos a participar de pesquisas: 600 ciclistas que treinam regularmente e competem. Aonde tu acha que a pesquisa vai evoluir, aqui ou lá?

No momento eu convivo com um menino de 12 anos que parece ser um talento. Ele nada bem (1500m em torno de 20'), pedala direitinho (faz média acima de 30km/h em 20km) e corre bem (faz rústica de 5km com pace de 4'05"). Ele parece uma aberração no Brasil. Quantas crianças de 12 anos nadam e treinam natação??? E gente de 12 anos andando em bike de estrada, quantas tu conheces? Eu não conheço outra criança no meu estado (RS) que tenha o talento dele. Se fosse na Austrália, ele seria "mais um" . Aqui ele é o cara. Se esse "cara" falhar por uma série de motivos (físicos, familiares, psicológicos...) quem será o talento com chance de virar um atleta? Para conseguir um Colucci eu precisaria de 20-30 crianças com esse nível de talento. Para conseguir um Craig Alexander eu precisaria de 500 crianças assim. E além de descobrir esse pessoal, eles precisariam estar apoiados por toda uma estrutura em todos os fatores que descrevi acima.



Bem, me considerei satisfeito com as respostas e a conclusão a que chego é simples: as variáveis que definem tal abismo são inúmeras e muitas delas, para não dizer a maioria, estão contidas na cultura esportiva de determinada região. O talento individual do atleta ou mesmo a possibilidade do uso de substâncias ilícitas são variáveis importantes, claro, mas ainda são pequenas dentro de um contexto do meio a que são expostos. 

Muitos Craig Alexsanders, Maccas, Jacobs, Xaviers estão espalhados pelas ruas brasileiras, mas sem a devida cultura esportiva disseminada no DNA das políticas públicas e no universo de valores das pessoas, sempre serão seres humanos geneticamente surpreendentes sem nunca saberem disso.


3 comentários:

  1. Fantástico cara. Tem muito sentido. Abs e feliz 2013

    ResponderExcluir
  2. Otimo... E só pra complementar ... A respeito de uma das infinitas vertentes que esse assunto tomou... Como seria possivel termos um aumento na quantidade de atletas sem que apareçam alguns "ridículos''??faz parte do pacote..... Tem que aparecer 10 Curados pra achar 1Ulisses... Kkkkkkk.. O importante é ter prazer.... Depois agente vai aprendendo.... Vendo que wet suit é só pra natação.... E não pra corrida.... Rsrs.....

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fala Curado...acho que não foi bem isso que o Ciro quis dizer lá no fórum. Nem eu, na verdade. Existe uma diferença muito grande entre "novatos" que se empolgam com o esporte e treinam, se interessam, pesquisam e vão atrás para se melhorarem sempre e os que descobriram no esporte uma forma de "se exibir" se vangloriando que terminam uma prova comendo feijuca e cerveja. Vira quase uma zombação. Esta "banalização do sério" está tomando proporções em todas as esferas de nossa sociedade. O mundo do fantástico, o teatro da vida real, a zorra total fora da tela. A banalização do esforço e resignação estão dando espaço à curtição a qualquer custo e o pior, se utilizando do argumento do "respeito à diversidade" ou então "cada um tem o direito de ser feliz" essas coisas. Estão confundindo respeito à diversidade, felicidade com ridicularização e com transformar a vida em um teatro de aberrações. Te garanto que entre 100 pseudo-atletas desse tipo que descrevi acima não vão encontrar nenhum Ulisses, muito menos um Ciro e muito menos um Colucci. É zombação por zombação. Simples assim. Sem comprometimento algum.

      Excluir