terça-feira, 19 de março de 2013

Pneus e as questões lógicas e metafísicas



Estou diante de um problema lógico e um problema metafísico.

Adoro treinar, adoro evoluir nos treinos e na nutrição ano após ano. Adoro saber que aos quase 37 anos de idade tenho forma física melhor que a imensa maioria dos garotos e ainda evoluo. Ao contrário da maioria dos triatletas, eu não gosto das competições e provas. Não gosto do nervosismo que as antecedem, não gosto de polimento, não gosto da nutrição anterior necessária, não gosto do clima de provas, não gosto da quantia de dinheiro gasto. A única coisa que realmente gosto nas competições é a sensação pós-prova de dever cumprido quando atinjo um objetivo planejado. Sinal de que evoluí como atleta.

Já percebi também que independentemente de ter provas no calendário, minha rotina de treinos é idêntica. Estou sempre treinando várias horas por semana, estou sempre fazendo treinos de velocidade, de endurance, de força, funcionais, sempre. Este é um estilo de vida que abraço e gosto. Com provas no calendário, as únicas coisas que mudam são alguns treinos chave, um polimento e algum planejamento alimentar nos dias que as antecedem. De resto, meu dia a dia com ou sem provas é exatamente o mesmo.

Para mim a prova não é uma luta de guerrilha daquela que tenho que à qualquer custo passar a fronteira inimiga, muito menos uma diversão que faço rindo como se fosse uma balada diurna. Uma prova é apenas uma data no calendário onde tenho que cumprir uma determinada distância no menor tempo possível. O fato de estar alinhado na largada com outros atletas é excelente, no entanto, para termos base de comparação.

Uma prova portanto, sob a minha ótica, tem apenas uma única e exclusiva função: uma data onde terei um determinado objetivo cumprido. Fora isso, uma prova não tem a menor função para mim. Sairei feliz se conseguir o objetivo e triste se não conseguir. Apenas isso.

Onde está o problema lógico então? Bem, é aqui que entram os pneus e seus malditos furos. O fato de um pneu furar em uma prova e eu ter que trocá-lo, simplesmente já não tenho o meu objetivo atingido. Não me faz o menor nexo lógico, portanto, tentar terminar uma prova nestas condições. Um DNF ou a conclusão de uma prova muitas colocações abaixo da planejada, para mim, não fazem a menor diferença. Minha sensação de missão não cumprida é exatamente a mesma. O problema lógico, portanto, que criei em minha cabeça é: pneu furado = objetivo não cumprido. Se quero ter meu objetivo cumprido, pneus não podem furar. E, de certa forma, isto aconteceu todas as vezes, isto é, todas as vezes que o pneu não furou, atingi o objetivo proposto.




Por isso chamei esta forma de pensar de "problema lógico". Apesar de para alguns não fazer sentido, ele está coerente com suas premissas iniciais. É a minha forma de ver o esporte. Concluir uma prova, isto é, passar a linha de chegada, sem o objetivo conquistado, para mim, é algo logicamente sem sentido porque as premissas simplesmente não se fecham.

Sob esta forma de pensar, portanto, um pneu furado para mim tem um peso infinitamente maior do que para qualquer outro atleta, já que aquele furo, naquela fração de segundo, por si só, já representou um "objetivo não cumprido". Talvez seja uma forma cruel de pensar, ou apenas uma forma diferente de pensar a mesma realidade.


Não quero que alguém concorde comigo aqui. Está na cara que isso não vai acontecer. Até porque tenho a certeza de que sou uma exceção com este tipo de pensamento.

Vamos à parte metafísica da coisa (rsrs.).

Um furo no pneu é algo completamente imprevisível. A não ser que vc olhe um monte de vidros ou pregos no chão e vá propositalmente em cima para "testar", é uma fatalidade. A primeira questão que me vem à cabeça é a questão de sorte e azar. Se o pneu furou, tive azar. Se não furou, tive sorte. Porque os pneus furam mais para uns que para outros, pode ser considerada, portanto, apenas uma questão de fortuidade. Se assim for, nada podemos fazer a não ser aceitar o nosso cruel destino pré-determinado e esperar que tenhamos sorte em outras partes de nossas vidas.

Uma outra questão metafísica interessante é justamente a questão da pré-detrminação. Se o seu pneu furou é porque aquilo já estava "escrito" e você precisava passar por aquilo para ter um aprendizado. Esta visão determinística da vida, quando falamos de um furo em um pneu, é até "legalzinha" para dar algum conforto, mas quando passamos para temas mais complexos como o Holocausto, a fome no mundo, a mortalidade infantil, guerras, etc, pensar que tudo isto ocorre porque "está escrito" me parece ser uma forma bem simplista de ver o mundo e, cá entre nós, interessa a muita gente que assim seja.

A falta de fé também é um argumento que já me foi passado (rsrsrs). "Ulisses, você precisa crer em algo! Se não estas coisas vão continuar acontecendo!" Quase como um apelo ao medo e ao terror. O engraçado é que tenho muito mais passagens felizes e de sucesso em minha vida que de fracasso, mesmo não "crendo" em nada (no sentido que as pessoas normalmente utilizam este verbo). Só que aí as coisas se invertem. As coisas "abençoadas" da minha vida acontecem porque "tem alguém orando por mim" e as fracassadas porque eu "não acredito em nada" rsrsrsrs. O importante neste tipo de argumento é não deixar uma brecha discursiva, não efetivamente resolver o problema.

A inveja é a outra coisa que escuto muito. Que ela existe, não tenho a menor dúvida. Agora, se ela exerce uma função direta no curso de nossas vidas, são outros quinhentos. Para cada exemplo de fracasso que vejo onde a inveja pode ser utilizada como principal causa, tenho outras dezenas de contra-exemplos onde existe a inveja, mas só há sucesso pela pessoa invejada. Só lembramos que somos invejados em situações de fracasso. Quando estamos em uma situação de sucesso, a inveja é a última coisa que passa em nossas cabeças, no entanto, acreditem, ela está ali. Acreditar se ela exerce alguma força desconhecida é, portanto, apenas uma prosa no âmbito especulativo.

Quando meu pneu furou no Ironman 2012, sofri muitas críticas por só ter levado dois "Pitstops", o que para mim era a única coisa que fazia sentido. Os maiores argumentos foram: "mas se você troca o pneu, ainda assim tem chance de pegar a vaga pra Kona". É a tal forma de encarar a prova como uma "luta de guerrilha". O engraçado é que quem fala isso já parte do pressuposto de que o meu maior objetivo ali era a vaga para Kona. É aí que entra o meu "problema lógico". Meu objetivo ali era "concluir o percurso no menor tempo possível", conforme falei anteiormente, e não necessariamente pegar uma vaga para Kona. Se aquilo me desse a vaga, ótimo. Caso contrário, é bem possível que eu nem pagasse os US$750,00 pela vaga, pois meu objetivo NÃO havia sido cumprido. Ir para Kona sem o objetivo cumprido? Faz sentido lógico? Bem, analisando as minhas premissas de como enxergo o esporte e as provas, não.

Quanto ao problema metafísico, fiquei expert em todas as crenças humanas depois daquele furo em Jurerê rsrsrsrrs. Minha vida podia estar indo de vento em popa em todos os sentidos, mas devido àquele furo, eu era invejado, aconteceu porque eu não tinha "fé no coração", tive azar, enfim. Para mim, aquele furo aconteceu porque tive a infelicidade do acaso de ter pego um olho de gato em uma curva que era mais resistente do que a borracha do meu pneu tubular. Simples não? Não o troquei porque ali, naquele momento, perder 10, 15, 20min trocando um pneu era a minha lóogica do "objetivo não atingido" já entrando em cena. 

Neste final de semana aconteceu novamente. Desta vez no Campeonato Brasileiro de Longa Distância em Fortaleza. Uma prova que eu tinha todas as chances do mundo de ficar entre os três primeiros da categoria e entre os dez geral. Uma prova técnica e difícil. Mas, estava lá novamente o fantasma do pneu furado. A diferença é que desta vez muitos atletas estavam na mesma situação porque havia vidro na pista. Uma chuva muito forte também atrapalhou a visão de vidros e buracos, enfim. Depois de duas tentativas com os já famigerados "Pitstops", novamente estou eu com minha "lógica do objetivo não atingido". Para provar que esta minha lógica é real, depois de uns 15min do acontecido, já voltando a pé para a transição, que ainda estava bem longe, avisto dois outros atletas com pneus furados também na pista. O furo havia sido no meu pneu da frente. Um dos atletas, que tinha o furo na roda de trás, que também era uma Zipp 808, me falou "cara, me empresta a sua roda para eu continuar?". Eu olhei a roda dele, ele me falou o nome, o número e o hotel onde ele estava, e troquei na hora, apesar de ser algo ilegal, era um risco dele. Depois de tudo ocorrido, já horas depois na minha pousada, o cara aparece lá para destrocar as rodas. Ele havia sido desclassificado porque um fiscal nos viu trocando rodas, mas mesmo assim, ele estava super feliz de ter concluído a prova ainda "na frente de alguns amigos". Alguém poderia me perguntar. "Porque você simplesmente não fez o mesmo com a sua roda da frente com outro atleta?" Bem, simplesmente porque para mim, o "objetivo não atingido" já havia se consumado e não haveria linha de chegada ou colocação que me alegraria naquele momento. Minha lógica de encarar provas é muito diferente do outro atleta que mesmo desclassificado e mesmo com um tempo e uma colocação ultra dilatada, estava feliz por cruzar a linha de chegada e estar na frente de alguns amigos. Ele provavelmente não entenderia a minha lógica. Nem eu, tão pouco, entendo a dele. Isto nos torna apenas pessoas que pensam diferente.

Qual a lição que tiro disso tudo? Preciso rever minha "lógica do objetivo não cumprido"? Preciso dar mais atenção às questões metafísicas que permeiam a prova? Bem, pelo menos neste momento da minha vida, nem uma coisa, nem outra. Vou tentar simplesmente dar uma solução lógica ao meu problema: preciso fazer com que os pneus não se furem mais! Mato os dois coelhos com uma paulada só.

Para isso, estou analisando uma infinidade de alternativas das quais compartilharei com os leitores do blog mais à frente. Mas uma coisa é fato. Não entro em uma competição novamente enquanto tal problema não tiver sido solucionado ou, pelo menos, se minimizado ao máximo.




4 comentários:

  1. Fala Ulisses !

    Bro, vou dar minha opinião... não é pra mudar a sua não, ok ?! :-).
    Só a minha opinião no sentido de contribuir... Sou um dos que li a sua história no iron de 2012 e fiquei inconformado... um cara com aquele preparo, com aquela condição, não ter competido de fato devido a um pneu...

    Bom, vamos lá :-).

    Pneus estão no limbo entre aquilo que podemos e não podemos controlar. Podemos botar um bom, de qualidade, usar só novo em prova, usar câmera boa, não passar de propósito em porcarias no chão, andar com precaução.

    Mas tem uma série de outros fatores que não dá pra controlar. O bicho pode ter um defeito de fabricação. Pode haver um acidente, você pode passar na posto de hidratação e enfiar um caco plástico de gatorade e atravessar o pneu, como aconteceu com um amigo que tinha tubular com selante e acabou todo melecado e tendo que esperar o irmão que também estava na prova passar pra jogar outro tubular. Pode ter um arame daqueles miseráveis na pista, pode passar num prego difícil de ver e o infeliz pode fazer a proeza de entrar no pneu.

    O teu objetivo é bem claro, concluir no menor tempo possível. Só que isso não é um número, é um objetivo que implica em que tudo seja feito da melhor forma possível e encaixado da forma mais eficiente possível. Definir um número faria com que você tivesse que parar a 2 km da maratona por ver que o tempo já estourou ? Não, né :-)) ? Não se tem controle absoluto sobre tudo: o mar pode resolver virar e o seu tempo fácil, normal e previsto pode aumentar 5 min. Esse cansaço fica pra bike, que pode ter um vento infernal e minar as forças que sobrariam pra corrida, onde vai que sai um sol do capeta e por algum descuido sua alimentação cai dos bolsos... acho que pneus rebeldes se encaixam nessa lista :-)

    Ou seja, o objetivo é muito claro em si, mas a forma de atingi-lo, não. O meu (não que eu queira que seja o seu, claro :-)) objetivo ideal é completar a prova no menor tempo possível para a minha condição no dia, para a condição da natureza e dentro do que a prova apresentar. Ou seja, fazer o meu melhor possível, e se eu tiver a sensação que fiz isso, objetivo alcançado. Se eu terminar, por melhor que seja o tempo, como em 2010, mas sentindo que fiz alguma cagada, não forcei o que poderia, fico puto ;-).

    Sei lá, só umas ideias....

    Abração

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    1. Cara, obrigado pela preocupação. Na verdade, o meu objetivo "fazer no menor tempo possivel" não significa um determinado tempo. Acho que é isso que entendeu errado. Interperies da natureza que afetam a todoa, para mim, beleza. Aliás, adoro quando tem altimtria foda, vento escroto, calor, enfim. Normalmente me dou bem em provas osso assim. Sou resiliente. O tempo fica dilatado, mas minha colocação na prova fica boa, que é isso que me importa. Agora, pneu? Bicho, sem chance. Aquela sensação de "puxa, peguei oitavo, mas se não fosse esses 8min aqui teria pego terceiro", pra mim não dá. É muito, mas muito mais broxante do que simplesmente abandonar a prova. A minha sensação de missão nao cumprida é exatamente a mesma e ainda estou inteiro para treinar o dia seguinte, sem precisar passar por um processo de recuperação. Realmente, talvez eu reveja estes meus conceitos em um dia em que colocações, pódios, não me fizerem a menor diferença. Não sou um triatleta completo, aqueles que fazem os 3 esportes bem. Estes, conseguem realmente trocar um pneu e ainda estarem bem colocados. Para mim, com natação fraca e pedal forte, minha prova é o pedal o mais insano possível e uma corrida consistente depois. Sem isso, não tenho chances no triathlon. Um pneu furado simplesmente acaba com tudo.

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