quarta-feira, 24 de abril de 2013

A exposição dos infratores




Não é difícil notar que tudo que é individual e privado está tomando uma dimensão como nunca antes vista. Aquilo que é público, coletivo, está se retraindo. Um verdadeiro processo de definhamento.

Tenho minhas opiniões sobre os porquês deste processo. Vivemos cada vez mais em uma sociedade individualista, onde o outro é apenas "um" outro, não um membro da comunidade onde também tem um papel no geral coletivo. Por mais que seja óbvio para mim e para muitos sociólogos e antropólogos que o ser humano é um "animal social", que não consegue viver isolado de uma comunidade qualquer, o conceito de comunidade hoje me parece estar fluindo para um "punhado de individuais em suas bolhas".  O meio exerce um poder de influência sobre os indivíduos muito maior do que as pessoas costumam se atentar ou se preocupar. Qualquer característica individual que uma pessoa tenha, é por conta da genética, da vontade própria, do livre arbítrio individual, de seu estilo de vida, de suas escolhas pessoais. Nunca é devido a alguma influência do meio, do ambiente, da sociedade ou da comunidade que está imersa.  Basta uma pesquisa mínima, na verdade, para constatar que esta forma totalmente individualizada de encarar a complexa natureza humana é um verdadeiro absurdo.

Este individualismo está totalmente enraizado no modelo sócio-econômico vigente. Muitos pensadores que abordam o surgimento do capitalismo, do livre mercado, da concorrência, da propriedade privada, na verdade, falam sobre isso. Apenas desconfio que eles não imaginavam que chegaríamos a tal ponto.

Porque estou entrando nesta questão? O que isto tem a ver com triathlon e com o título do post "A exposição de um infrator"? Bem, o esporte nada mais é do que uma das facetas sociais onde estes sentimentos e opniões individualistas se afloram. O exemplo mais nítido é quando falamos de questões éticas dentro do esporte. Recentemente, por exemplo, nas discussões sobre a ilegalidade do vácuo, que sempre aquecem as redes sociais após alguma prova importante do país, muitas foram as acusações e, principalmente, as exposições dos infratores. Fotos, vídeos, testemunhos, comentários inflamados, tudo isso serviu de combustível para as acoloradas discussões sobre a validade ou não destas exposições.

Os opositores às exposições dos infratores costumam alegar que não cabe a nós, atletas e membros da comunidade esportiva em geral, expor tais pessoas. Este seria um papel único e exclusivo da organização da prova. Foram mais longe, inclusive. Muitos alegavam que se temos que expor tais infratores de regras esportivas, teríamos que, em outros âmbitos sociais, expor pessoas falando ao celular ao dirigir, bebendo antes de dirigir, traindo a namorada(o), colocando o carro em vaga de deficiente, furando uma fila, afinal, todos estes exemplos caracterizam uma infração e "quem aqui nunca passou por nenhuma situação de infração, que atire a primeira pedra". Este era o principal argumento, pelo menos. Este era o alicerce ético sobre o qual os opositores se apoiavam.

As discussões normalmente são tão calorosas neste tema que em alguns momentos eu juro que percebi que os infratores estavam se saindo como os "injustiçados" e os "expositores" os culpados por "expor a vida alheia". Um absurdo completo, ao meu ver.

Sendo assim, qual argumento lógico e ético eu tenho para ser um defensor ferrenho da exposição de infratores, tanto no esporte como em qualquer outro âmbito social e coletivo? Porque afinal sou à favor destas exposições como meio de se coibir uma prática ilegal?

Bem, a primeira coisa, e retomando um pouco do que escrevi acima, existe o âmbito coletivo ou público e existe o âmbito estritamente individual. Acho que ninguém aqui está tentando justificar a exposição de algo totalmente privado e particular, não é mesmo? Sou um defensor ferrenho, da mesma forma, dos direitos individuais, obviamente, desde que eles realmente sejam individuais. Entretanto, é exatamente neste mérito de questão que acredito estar acontecendo toda esta inversão, esta confusão de valores. A impressão que tenho é que o individual está tão em alta, tão em evidência, que o coletivo morreu. Foi esmagado. Assassinaram completamente os conceitos de coletivo, de grupo, de público. 

Existe uma diferença brutal entre se expor a cor da calcinha que uma menina está usando na internet e algo que diz respeito a um público, a algum coletivo, principalmente quando se trata de uma infração que não diz respeito apenas à individualidade do infrator.

Vamos retirar o "replay" de um gol de mão porque estamos expondo o infrator e quem deveria arbitrar isso é única e exclusivamente o juíz? Vamos tirar as câmeras de segurança todas, ou proibir o uso de celulares com câmera para filmar delitos, porque estamos expondo os infratores e este é um trabalho estritamente da polícia? Vamos acabar com a exposição na mídia de esquemas de corrupção porque estamos expondo os corruptos? Poderíamos acabar também com os cineastas independentes que expõem em seus documentários uma série de atrocidades cometidas em todos os cantos. Será que a exposição de infratores, em qualquer âmbito, não é uma poderosa arma para uma vida coletiva mais harmoniosa? Ou será que o coletivo está tão frágil, tão derrotado, que ele perde espaço até mesmo para um suposto direito individual do infrator de não ser exposto, ainda que não seja lá tão individual assim? Se a exposição de infrações não fosse uma ferramenta poderosa e válida em um âmbito social, elas não seriam consideradas provas em um julgamento, não é mesmo? Muito menos os processos  jurídicos seriam públicos.



O fato é que, dadas quaisquer leis, quaisquer regras ou quaisquer códigos de ética, suas existências só tem fundamento para a harmonia de um coletivo. Pudéramos nós estarmos em uma sociedade sem eles e ainda assim ser harmoniosa, mas, ela ainda vai demorar a chegar. Por enquanto, tais códigos morais são mais do que necessários. No entanto, o que são estas leis todas sem uma fiscalização? Nada, na verdade. Uma lei que não tem uma fiscalização não precisa existir. Só que as fiscalizações são falhas. Em todos os níveis. E quem pode complementar tais fiscalizações? Nada mais justo que A PRÓPRIA SOCIEDADE, o coletivo, os interessados, os injustiçados e os que de alguma forma se sentem lesados com alguma infração, direta ou indiretamente. Uma infração, por si só, tem apenas sentido se ocorrer em um meio COLETIVO! Ela por si só, do ponto de vista lógico, não diz respeito apenas ao infrator. O coletivo então morreu de uma tal forma que até a infração que ocorreu imersa em um grupo "diz respeito apenas ao infrator"? "Cada um sabe da sua vida" é um argumento válido para algo que tem impacto no coletivo?

A exposição é apenas mais uma arma para se coibir infrações. Assim como são as fiscalizações. Eu diria até que são complementares quando uma delas é insuficiente. Onde ficam então as exposições dos que falam em celular, dos que dirigem embriagados, dos que traem, dos que furam fila e do sem fim de infrações cotidianas? Bem, aqui a lógica me parece ser bem simples. Elas serão expostas ou não, fiscalizadas ou não, de acordo com o que o COLETIVO julgar ser prioritário e prejudicial.

As leis para motoristas embriagados não estão mais rígidas? A mídia hora ou outra não expõe tais infratores? Pois bem, é a sociedade, o coletivo dizendo "basta" para tal infração através da exposição e de endurecimento da lei. A sociedade finalmente enxergou que um motorista dirigir bêbado não é algo que diz respeito somente à ele. Se você tem filhos que brincam na rua e todo dia uma pessoa passa dirigindo ao celular, trazendo algum tipo de risco, filme-a! Denuncie-a! Não precisa esperar pelo DSV. Um vídeo de um cara dirigindo ao celular exposto pode servir para um seguro não pagar seu veículo em caso de colisão ou ser determinante no processo caso haja uma vítima. Um vídeo do namorado entrando com outra no motel é, da mesma forma, uma exposição que pode mudar a vida da vítima traída. E assim por diante.

A sociedade e o COLETIVO definirão sempre o grau de relevância, e, consequentemente, de exposição, de uma infração de acordo com sua dimensão e seu impacto em um determinado contexto. De forma nenhuma, o argumento de que "todos nós cometemos algum tipo de infração" pode ser utilizado para se definir o que um determinado COLETIVO entende como impróprio.

Termino este post com uma frase de Martir Luther King: "“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”



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