terça-feira, 30 de abril de 2013

O brasileiro atrasado




Estes dias, eu fiz um treino indoor de bike e saí para correr aqui na rua em frente de casa. É uma rua onde tem vários cruzamentos. Não é muito movimentada, mas não é, tão pouco, calma. Tem um certo fluxo de veículos. Eu estou acostumado fazer este treino e correr ali, portanto, já sei que preciso ficar esperto nos cruzamentos. Qual é o padrão? Eu estou correndo. Vejo o carro e procuro olhar para a cara do motorista. Se ele não me viu, eu diminuo, desvio por trás do carro, enfim, o deixo passar. Normalmente, quando o motorista te vê, ele reduz, para e te deixa passar. Não foi o que aconteceu neste último treino. O cara me viu, eu já estava no início da travessia do cruzamento e ele acelerou. Fiquei à uma fração de segundo de um atropelamento. Fiquei puto, xinguei e no instinto, dei um murro no vidro traseiro. O motorista deu a volta no quarteirão, emparelhou comigo, que ainda não tinha acabado o treino, e ficou querendo argumentar, me xingando e dizendo que não era obrigado a parar porque eu estava correndo. 

Eu não acreditava muito no que estava ouvindo. Quando a asneira é muito grande, demoramos um tempo para processar, para ver se não é um sonho. Eu gritei que era óbvio que ele tinha que parar, afinal, o pedestre era eu! Depois de xingamentos para lá e para cá, o animal foi embora e meu batimento cardíaco estava nas alturas.

Este foi apenas um exemplo. Nada comparado ao que aconteceu no Rio de Janeiro com o triatleta Pedro Nikolay que foi atropelado por um ônibus e morreu hoje, 30/04. Não conheço o local, difícil dizer se foi culpa integral do motorista de ônibus, alguns dizem que o ônibus invadiu a faixa de ciclismo para fazer um retorno, outros que ele avançou o sinal vermelho, o motorista diz que não avançou, enfim. Eu particularmente tendo a acreditar que o motorista de ônibus foi culpado. Porque? Porque eu sou um observador inveterado do comportamento do brasileiro em várias esferas sociais e, quando falamos especificamente de esportes em geral, não consigo pensar em outra frase que não seja: "Como o brasileiro é um povo atrasado!"

Esqueçamos futebol por enquanto e, agora, o vôlei e o MMA que estão na moda. Para se praticar qualquer outro esporte neste país é uma verdadeira luta de foice. 

Duvido que os leitores deste blog, que costumam ser atletas, nunca tiveram problemas em colocar uma bermuda de elastano para correr sem que algum idiota completo não tire algum sarro. Até mesmo um tênis colorido. Não digo nem sarro de amigos, digo de animais que estão soltos na rua, que nem te conhecem! Duvido que nunca tomaram alguma fechada de veículos no trânsito. Duvido que nunca foram ameaçados por caminhoneiros que buzinam e tiram finas propositais nas estradas para assustar. Até catarrada eu já tomei. Lembram-se da época que tacaram tachinhas na USP para furar os pneus dos ciclistas e triatletas que lá treinavam? 

Os exemplos são muitos. Eu conseguiria ficar recaptulando vários e tenho certeza que o colega atleta leitor também. Estou sendo mais específico no que se refere à segurança pelas ruas. No entanto, se entrarmos nas questões de outras escolhas de vida que fazem parte do esporte como a nutrição, os exemplos de idiotice alheia se elevam à enézima potência.

Generalizar é sempre perigoso, mas, não consigo deixar de pensar em uma pergunta generalista. Porque o brasileiro é tão idiota? Digo, o brasileiro médio, aquele que está no modelinho trabalho-novela-churrasco-cerveja-BBB-futebol.

Este é um blog de esporte, portanto, tento me ater à este tema, mas, podemos ver estes comportamentos idiotas em muitos outros meios com muitos outros grupos. Basta apenas que o tal modelo não seja seguido para que o brasileiro comum, alienado e estúpido, sinta um verdadeiro tesão em desdenhar, zoar, xingar, agredir, discutir.

Eu nunca fui daqueles que pagam pau para outros países com economias e IDH mais desenvolvidos. Sempre achei que na hora de promover desgraças colossais, eles são muito mais experts do que nós, os tupiniquins aqui. Mas confesso que ultimamente tenho olhado com mais carinho a possibilidade de um dia deixar o Brasil. Alguns dizem que estamos em um processo de desenvolvimento, mas eu receio que talvez estejamos caminhando para o "Brasileiro do Futuro" descrito neste blog. É um tanto triste conviver dia após dia ao lado de tanta gente alienada e ignorante. Gente que rema pra trás o nosso barco do desenvolvimento social.

Este post foi mais um desabafo que já estava querendo fazer a algum tempo aqui no blog. Obrigado por lerem.

Ulisses




6 comentários:

  1. Emocionante e verdadeiro. Obrigada por postar.
    Beijão,
    Fernanda

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  2. Obrigado por suas palavras... e o que mudou da época da invasão pela colonização? Talvez o asfalto, os prédios, algumas "novas tecnologias"... mas a cultura... cultura?

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  3. Qualquer semelhança deste relato , com alguns de nós atletas , Não é mera semelhança!. Situações que vivemos cotidianamente.

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  4. Depois que me mudei para o bairro da Aclimação e comecei a treinar nas ruas próximas, passei por algumas situações semelhantes, algumas até engraçadas... Um dia passando correndo por um ponto de ônibus da Heitor Peixoto , um engraçadinho para se sobressair para as demais pessoas pergountou : E aí ... tá indo pra S. Silvestre ??? E eu respondi : Não , to indo pra tua casa ! e continuei minha corrida , mas deu para ouvir as risadas que o pessoal do ponto deu.... Em outra ocasião, na mesma rua , estava usando uma bermuda elástica comprida (que fiquei alguns meses sem coragem de usar...., mas aquela manhã estava muito fria, emfim....) , ao passar por um grupo de adolescentes indo pra escola, ouvi aquela velha piadinha..... E aí ... onde vc comprou esta bermuda tinha pra homem ? Não deu pra saber qual dos moleques falou, mas olhei para trás e respondi : Esta é modelo masculino , o problema é que ela chama a atenção de boiolas , conforme vocês devem ter notado....

    O pior de treinar nesta rua (é uma subida muito legal para chegar ao PQ da Aclimação), são os cruzamentos com rotatórias, ninguém pára pra vc atravessar.... O pior ponto é o cruzamento da Heitor com a Lacerda Franco onde mesmo na faixa de pedestres , chego a ficar vários minutos aguardando o fluxo pra poder atravessar, realmente os motoristas aceleram para não terem que parar naquele ponto... Cheguei a discutir com um deles que se deu ao trabalho de parar para me xingar porque eu realmente pensei que ele tivesse me dado passagem....
    Estou pensando em uma dia desses sair pra treinar com uma gopro pra registrar o comportamento dos motoristas nesta região.... Enfim... valeu mais uma vez pela postagem, em especial pela definição do modelo " trabalho-novela-churrasco-cerveja-BBB-futebol " , ficou faltando apenas as opções musicais que prefiro não mencionar os nomes....

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    1. Como eu disse no post, os exemplos são muitos. Quem treina na rua todos os dias passa por algum sempre...é uma merda...

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  5. Treino em uma cidade pequena do interior de Minas. A sensação agora que chama atenção da galera é quando uso os cintos de hidratação nos treinos longos...Já escutei de tudo!
    Aqui vejo que as pessoas ainda tem um resquício de gentileza. Uso a mesma técnica de olhar no motorista para ver se ele me enxergou, e geralmente eles dão passagem e aguardam eu atravessar... Mas nos treinos de estrada vira e mexe sinto o ventinho das "finas" que os carros tiram...Qual é a graça disso??
    Parabéns pelo post!
    Melissa
    http://triuaitlo.blogspot.com.br

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