sexta-feira, 12 de abril de 2013

Você enfrenta a "muralha"?




Olá,

Faz bastante tempo que percebo algumas "muralhas" que temos que transpor em treinamentos de triathlon de longa distância. Me refiro aqui aquele momento onde, depois de um tempo prolongado realizando um determinado esforço, a sensação e a percepção de sofrimento aumenta de uma hora para outra.

É claro que para um atleta destreinado ou para um sedentário, esta "muralha" não tarda a chegar. Com alguns poucos minutos e lá está ela. Aquela sensação de que precisamos negociar com nosso psicológico o tempo todo para conseguirmos concluir a atividade. No entanto, estou me referindo à triatletas que estejam em boa forma física.

Quando ficamos algum tempo sem realizar muitos treinos de endurance mais longos, logo quando começamos a subir os volumes semanais, percebemos que a "muralha" chega mais rápido do que estávamos acostumados em outras épocas. O endurance é algo que se perde relativamente rápido. No entanto, as semanas vão passando, o corpo vai se adaptando e vamos empurrando a "muralha" para frente. Até aí, nenhuma novidade.

O objetivo deste post aqui é falar sobre aquela "muralha" que simplesmente não é empurrada mais. Podemos estar na melhor forma física de nossas vidas, podemos estar mais cansados ou mais descansados, podemos estar em qualquer fase da periodização, entretanto, depois daquele número de horas/minutos, a "muralha" chega. O diálogo com o psicológico e o sofimento físico e mental chegam juntos com ela.

Para citar o meu exemplo e não ficarmos no vazio. Sempre tenho treinos longos e de velocidade, independentemente da prova que eu tenho pela frente. Apenas foco mais na intensidade quando tenho provas de intensidade e mais nos longos quando tenho provas longas, mas, reconheço os benefícios que todos estes treinos tem do ponto de vista fisiológico, portanto, procuro manter uma rotina sistemática que os englobe. Sendo assim, eu nunca estou "apenas" rápido ou apenas "resistente", mas estou sempre em um estado de equilíbrio entre ambos. Da mesma forma, eu nunca estou fora de forma. Nunca estou gordo, nunca estou com a nutrição desbalanceada. É claro que eu tenho ciclos, periodizações, épocas que estou mais e menos condicionado para um ou outro tipo de estímulo, mas nunca estou na estaca zero de nada. Sendo assim, porque raios estas "muralhas" simplesmente não são quebradas?

De forma geral, minha "muralha" para a corrida é na casa de 1h45, para o ciclismo na casa de 4h e na natação na casa de 1h. E o mais incrível, INDEPENDENTEMENTE DE RITMO!

Quando estou me referindo a esta muralha, não estou dizendo que eu desabo. Apenas estou dizendo que deste tempo em diante, simplesmente aquele movimento mecânico, aquela respiração e aquela percepção de esforço que estava gostosa e administrável, simplesmente passa para o "modo" sofrimento. Consigo até aumentar o pacing daí pra frente muitas vezes, mas é da sensação de fadiga que me refiro. 

A eficiência biomecânica cai, a sensação de cansaço na respiração chega e o fator "cabeça" tem que começar a te influenciar mais. É claro que se for um treino de intensidade, fico longe desta quantidade de tempo. É humanamente impossível ficarmos em cima de limiar de lactato por tanto tempo. Por isso acredito que esta fadiga não tem nada a ver com acúmulo de lactato, já que posso estar em um pacing muito aquém do meu limiar e ainda assim, a tal "muralha" chega. 

Vale notar que é uma fadiga particular de um esporte específico. Se faço um treino de transição bike/corrida, por exemplo, posso atingir a "muralha" na bike, mas na hora de sair para correr, estou levinho e voando. Este é um fato curioso que me leva a crer que, provavelmente, esta fadiga está associada ao sistema nervoso central devido ao número de horas realizando um mesmo gesto motor. Ou, por outro lado, ao acúmulo de algum metabólito tóxico particular da musculatura daquele esporte específico. Ou ambos.  Mas porque cargas dágua entra temporada e sai temporada, estes valores não mudam? Eu não consigo ampliá-los? Meu corpo deveria ficar mais eficiente ao passar do tempo, mas não é o que ocorre.

Já tentei mudar a biomecânica, já tentei mudar o tipo de nutrição - inclusive, na época que eu tomava suplementos, era exatamente como hoje que vou à base de bananinha, melado, tâmaras, sal marinho, limão, etc - já tentei mudar para todos os ritmos possíveis. Tanto faz eu realizar um longo de corrida a 5:15/km ou a 4:15/km. Depois da casa do 1h45, a sensação é exatamente a mesma. Na bike, a mesma coisa. Tanto faz eu realizar jogo de alteração de cadências, tanto faz ser em cadência alta ou baixa, tanto faz ser no rolo, em superfície plana ou com altimetria acentuada. São muitos "tanto faz", na verdade rsrsrs.

Isto me leva para algumas hipóteses:

- Tenho um limite fisiológico individual intransponível. Já vi atletas falarem que não sentem esta "muralha", mas quando chega uma prova ou em algum treino, você percebe que o cara desaba exatamente em tempos similares. Então, tem uma diferença entre o atleta falar que não tem e ele não ter a consciência corporal de sentir que tem.

- Estes são limites fisiológicos gerais do ser humano. Esta é uma suposição bem "chutada", já que temos atletas de ultramaratonas, de ultramans e diversos outros esportes de ultra endurance. Eu custo a acreditar que um atleta desse chega à muralha com 4 horas de pedal, por exemplo, e depois administra a dor e a cabeça por mais 5 ou 6 horas.

- Minha técnica não é apurada suficientemente e ela me permite executar os devidos movimentos apenas até tais tempos, nada mais.

- Sou um tanto restrito em treinamentos que variam para triathlons olímpicos à ironmans. E esta última, principalmente, os treinos mais longos de corrida costumam variar na casa de 2h/2:30h e os de bike na casa das 4/6hs. Será que se eu treinasse para uma ultramaratona de 150km, correndo 250km de volume semanal, eu "empurraria" esta muralha mais para frente? Será que se eu treinasse para um Race Across America, com volumes semanais de 400/600km semanais, eu empurraria estas minhas 4 horas de muralha de bike para algo como 8 horas? Será que se eu nadasse 20.000m por semana e ficasse mais tempo na água que não fossem os famigerados 50 minutos dos horários de academia, eu quebraria tal "muralha"?

Aos fisiologistas, treinadores e atletas de ultra endurance de plantão, opiniões são muito bem vindas rsrsrs.

Enquanto a "muralha" não é quebrada, o negócio é treinar a cabeça e o sofrimento.

SOLOMAN!