quarta-feira, 1 de maio de 2013

A ditadura do gostoso



Qualquer ser vivo precisa se alimentar para conseguir os nutrientes necessários para sobreviver. No entanto, acredito que o ser humano seja o único que se alimente por prazer. E isto não é de hoje.

Basta notar que qualquer interação social tem como pano de fundo alguma mesa farta de comida. Quer seja em uma festa, quer seja na pizza após o cinema, ou mesmo no tira gosto que acompanha a cerveja. A comida está indiscutivelmente ligada não só à reposição nutricional, mas a um momento de lazer.

A filosofia que vincula a sensação do prazer imediato com a busca de felicidade parece ser a mais aceita na nossa sociedade contemporânea. Aqui vamos mais longe do que um simples prato de comida saborosa. O homem moderno sente prazer ao volante, sente prazer ao pular de pára-quedas, sente prazer ao comprar. E tudo isto completa um pacote chamado "felicidade". Os filósofos dão suas versões ao conceito de felicidade há 2.500 anos, mas eu acredito que o que mais se aplicaria, o que melhor caberia no dicionário atual, seria: "Felicidade: um somatório de vários prazeres imediatos."

Reparem que de forma geral, estes tais prazeres imediatos são, no geral, destrutivos. Quer seja para o próprio indivíduo que o sente, quer seja para a sociedade ou o meio ambiente que o circunda. Um cara que instala um som de milhares de watts em seu carro e desfila pelas ruas está sentindo o ápice do orgasmo ao volante. É uma mistura de prazer sexual com exercício de poder sobre o outro. Mas, ele está sendo "feliz", sob esta ótica.

Não sei para que lado esta noção um tanto obtusa de felicidade vai nos levar, na verdade, mas gostaria de focar um pouco mais na questão nutricional.

Quando observamos a maior parte da indústria de alimentos percebemos que os esforços não estão concentrados em proporcionar alimentos ricos do ponto de vista nutricional, mas gostosos. É um verdadeiro festival de agressões ao organismo empacotados em uma embalagem visualmente elegante. O objetivo único e exclusivo? Ser gostoso! Agradar nossas papilas gustativas! O "esquema" foi sendo tão bem costurado e arquitetado que hoje, o simples fato de uma pessoa se recusar a comer tais itens, a faz sofrer bullyng, afinal, esta pessoa não sabe o que é "ser feliz".

A desinformação é muita. É impossível julgar uma pessoa sem conhecimento nutricional algum sobre suas escolhas realmente. Para ela, o que vale é escolher seu prato pela quantidade de prazer que ele te proporcionará e confiar cegamente que a indústria responsável pelo tal é completamente idônea e está preocupada com a sua saúde. No entanto, o mais impressionante é observar que mesmo pessoas que já estejam munidas com as informações nutricionais sobre o sem fim de alimentos prejudiciais, ainda assim, optam por consumi-los. A justificativa é incrivelmente e universalmente a mesma: o prazer. E em última instância, a felicidade. Estes conceitos vêem normalmente mascarados sob os argumentos de que "todo mundo morre um dia" ou de que alguém "conhece uma pessoa que se cuidava muito e morreu atropelada". O prazer parece ser realmente o fim em si próprio. A razão para a existência.

Quem sou eu para julgar as escolhas dos outros, não é mesmo? Não é isso que sempre dizem? Que não devemos julgar as escolhas alheias? Os problemas, no entanto, são dois. O primeiro é que os que optam por outro caminho alimentar são abundantemente julgados. Mas, ao mesmo tempo, não podem julgar. Então, digamos que o jogo não está justo e equilibrado. O segundo é que muitas das escolhas que parcem ser estritamente individuais, na verdade, são coletivas e aqui há uma miopia generalizada abusrda. Comer no McDonalds, por exemplo, não é apenas uma escolha alimentar para sentir prazer ao degustar o BigMac, mas é sustentar uma rede de restaurantes que possui inúmeros casos de desrespeito às leis trabalhistas e ambientais, principalmente quando falamos de produtos de origem transgênica. Digamos que é um prazerzinho imediato que tem um efeito cascata sócio-ambiental gigantesco.

O McDonalds, foi apenas um exemplo, mas poderíamos citar uma infinidade de outras empresas e processos que são cascateados a partir da ditadura do gostoso: os "esquemas" da Monsanto, a indústria leiteira, a indústria da carne e sua máquina de insustentabilidade, o monopólio da Unilever e da Cargil, a "fórmula secreta" da Coca-Cola, enfim. Então, quando olhamos uma fila de prateleiras no mercado, cheias de produtos gostosos, ou um cardápio de um restaurante, a sua decisão não impacta somente você, mas o futuro da sociedade que você e seus filhos estão imersos. Além disso, não pense nem por um segundo que você está exercendo o mais puro livre arbítrio quando finalmente escolhe uma caixinha. Aquela sua decisão final tem origens em uma manipulação midiática em massa. Aquilo foi gravado em seu subconsciente antecipadamente. Você foi programado como um robô de carne e osso e está se sentindo "o último biscoito do pacote" por ter tomado tal decisão.

Para uma comida ser gostosa, pelo menos na culinária ocidentalizada tradicional, temos que ter os seguintes itens:
- Excesso de sódio
- Excesso de gordura saturada (e muitas vezes, hidrogenada e trans)
- Excesso de glicemia

Estes três itens apenas (juntamente com os aditivos químicos) estão enraizados nas causas da maioria das doenças: diabetes, problemas cardíacos diversos, cânceres, problemas intestinais, problemas estomacais, obesidade e a lista continua. Até problemas neurológicos e psicológicos. Mas, eles tem um lado bom! SÃO UMA DELÍCIA!

Desafio o leitor a fazer uma experiência. Pegue uma pessoa qualquer, que não se preocupe com alimentação. Escolha qualquer comida nas prateleiras do mercado ou prepare em casa. Esta comida deverá ter no mínimo dois dos três itens citados acima. Sou capaz de apostar que mesmo sem colocar muitas ervas, sem carpichar muito, a pessoa achará uma delícia. 

O paladar da pessoa está tão condicionado, que ela simplesmente não consegue mais sentir o sabor natural dos alimentos. Não basta comer um grão-de-bico, é necessário colocar um monte de sal. Não basta preparar um macarrão, precisamos colocar um molho branco ou quatro queijos. Suas papilas gustativas não conseguem mais identificar sabores em alimentos em seus estados mais brutos e naturais.

Costumo chamar tal fenômeno de "Ditadura do Gostoso". Poderíamos variar também para o "Controle pelo Gostoso", já que de forma geral, as empresas que estão por trás de tais sabores normalmente são as mesmas que detém recordes em rastros de destruição sócio-ambiental. O objetivo? O controle. O monopólio de toda uma população. É quase um BigBrother alimentar.

Para concluir o post, que certamente terá muitas críticas, convido o leitor que está com suas papilas gustativas condicionadas por estas indústrias a começarem um processo de reeducação do paladar. Acreditem, este processo não demora muito. As papilas gustativas conseguem se adaptar muito facilmente! Além disso, cá entre nós...vamos falar baixinho aqui... o cérebro deveria ser mais forte que uma papila, não?

Ulisses


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