terça-feira, 14 de maio de 2013

Suplementos alimentares são imprescindíveis?




Em fevereiro de 1992, aos 15 anos de idade, eu fiz minha matrícula em uma academia de musculação, na zona norte de São Paulo. Aquelas de bairro, com aqueles aparelhos rústicos, quando não, enferrujados. O público variava desde os "playboys" do bairro que gostavam de puxar ferro até uma galera bem simples. A parte legal? Era realmente um ambiente divertido de se treinar. Muitas risadas, muitos "pesos derrubados" e muitas amizades tive por ali. Mulher? As que entravam, apostávamos quanto tempo durariam. Três semanas eram as apostas máximas rsrsrrs. 

Naquela academia aparecia muito cara forte. Alguns bodybuilders de competição, inclusive. Eu estaria ali, treinando praticamente todos os dias, nos próximos 15 anos que se seguiriam. Neste período, trabalhei viajando e morando em outras cidades do Brasil, o que me fez encontrar outras academias. No entanto, eu sempre estava matriculado na academia orginial e quando eu estava em casa, era lá que eu treinava. Eu já era um "ativo fixo" da academia. Era o aluno mais antigo, fiquei por muitas vezes com a chave para treinar naqueles horários bizarros das 23hs a 1h, época em que eu trabalhava e estudava. O dono da academia tinha um certo carinho por mim, pois eu era o único "moleque" que tinha entrado novinho e estava lá até então.

Apesar de ter ficado 15 anos nesta academia, até 2007 para ser mais exato, nunca fiquei sem estar matriculado em alguma, mesmo depois que a abandonei. Estes dias estava fazendo uma contabilidade de quantas academias eu já treinei. Desde as matriculadas por maiores períodos até academias que eu paguei diárias ou semanas para treinar. A minha conta chegou a, nada mais, nada menos, que 28 academias! Que eu me lembre, pelo menos.

Nestes meus 21 anos e 3 meses de academia, e com 28 academias frequentadas por muito ou pouco tempo, eu posso afirmar que já vi de tudo. Na década de 90, drogas ilícitas para ganho de força e massa muscular já existiam aos montes. Os suplementos eram já bem difundidos, mas nada que se compare ao que é hoje. Eram basicamente as "massas", os pós de carboidratos e estava começando a moda dos tais "fat burnings". 

Eu sempre fui um cara que comeu muito. Daqueles que come muito mais do que todos que estão em volta. Com estes anos de academia, eu cheguei a ficar bem forte, o suficiente para falarem que eu tomava bomba em vários lugares, mesmo sem nunca  ter tomado um único suplemento se quer. Almoçava como um cavalo e jantava como um cavalo. Era essa minha "nutrição". Mesmo sem os tais mágicos suplementos, eu era mais forte, tanto em aparência como em força, do que uma grande parte da academia que se entupia dos mesmos. E olha que o que eu vi de gente entrar e sair de uma academia não está escrito. Quando aparecia algum cara realmente muito mais forte do que eu, era alguma droga mais "pesada" do que um simples suplemento.

E foi com esta mentalidade de academia de bairro, sendo mais forte que muitos dos "suplementados" comendo arroz, feijão, salada e carne, que eu encontrei o triathlon em 2008. Ali eu percebi que tomar pozinhos coloridos de carboidratos durante os treinos e algum pó proteico após o treino era uma prática quase sistemática. No começo, não liguei muito pra isso, mas conforme meus volumes, principalmente de bike, começaram a subir, eu percebi que alguma coisa eu tinha que ingerir. Comecei, obviamente, com os famigerados pós de carboidratos e géis.

Quando fiz minha inscrição no Ironman 2009, resolvi ir a uma nutricionista. Aquela sábia decisão me salvou, na verdade. Dali para frente eu aprendi a comer como atleta. Comer para treinar, não mais treinar para comer. Mas, não nego, também aprendi a suplementar. Minha performance, recuperação, disposição aumentaram absurdamente. Não apenas suplementos, mas complexos vitamínicos, ômega 3 e probióticos. Nesta toada eu fiquei durante os próximos três anos com sucesso no esporte.

A "verdade" do mundo triatlético era que sem suplementos, não dava para fazer o esporte, pois este, demandava demais. Eu mesmo acreditei nisso durante esse tempo. Mas, como tudo, acabei questionando este mito. A pergunta, na verdade, era bem simples. "Se eu tiver uma nutrição e uma filosofia de treinamento o mais perfeitos possível, ainda assim precisarei lançar mão de suplementos?". Eu achava que a minha nutrição era perfeita naquela época, então, se com suplementos eu já ficava esbagaçado, imagine sem. Só que eu comecei a perceber que nosso conceito geral de "boa nutrição" estava tão longe do ideal, que uma pessoa que "come bem", de acordo com a opinião média da sociedade, na verdade, come muito mal.

Na época que eu comecei a me questionar sobre isso foi exatamente quando comecei a entender como funcionava a nossa indústria de alimentos e todos os interesses e lobbies que estavam por trás. O mais irônico é que eu, um cara que tinha tantos anos de experiência em grandes corporações, conhecendo todas as complicadas relações humanas e os interesses que as moviam, não tracei um paralelo com a indústria de alimentos, em um primeiro momento. Eu tinha aquela crença de que "não era possível que fariam isso com o que o povo ingere", a de que "os órgãos reguladores nos protegeriam de quaisquer práticas questionáveis", aquela de que era tudo "cientificamente provado". Como se a humanidade estivesse em um patamar de benevolência e de evolução social altíssimo.

Para se fazer triathlon os suplementos eram necessários? Eu tinha anos e anos de treinamento de musculação com todo mundo falando para mim que era necessário também e eu não tomava, porque no triathlon seria diferente? Eu lia em vários rótulos de suplementos o "cientificamente provado" na mesma semana em que eu via um programa da TV dizendo que os cientistas agora "descobriram que chocolate faz bem" ou que "mais uma propriedade benéfica do tomate foi descoberta" e eu pensava: "Os caras não entendem nem de chocolate e tomate direito e lançam um produto, com um monte de composto químico, sob a alegação que é cientificamente provado"? Eu lia "componentes naturais" da mesma forma nos rótulos, depois lia os ingredientes e ficava tentando imaginar se algum daqueles nomes esquisitos haviam sido extraídos de uma maçã, de uma cenoura, cereal ou de alguma alga. E mesmo que fosse, porque a "dose recomendada", que se resumia a um scoop ou alguma cápsula, consistia no mesmo que comer alguns quilogramas de algum alimento? Tudo isso era "natural"? Comecei a questionar o que significava a palavra "natural", aliás.

Já vi muita gente me afirmar que "se haviam sido liberados pelo FDA americano, então era seguro". O mesmo FDA, por acaso, cujos principais lobistas e diretores possuíam rabo preso com a Monsanto e sabe-se lá com quais outras empresas. Por acaso o FDA é americano, aquele país onde podemos comprar fuzis em qualquer balcão apresentando a carteira de motorista? Ah sei... 

Que existem cientistas de alimentos bem intencionados por trás de toda esta indústria, eu não tenho a menor dúvida. Mas, as duas perguntas que nunca calam em minha cabeça são: 
- Ainda que eles sejam bem intensionados, os métodos científicos e protocolos utilizados são realmente eficazes e suficientes para nos mostrar que estes produtos não possuem efeitos indesejados na saúde humana? A imensa maioria deles é realmente competente para exercer uma função tão delicada?
- Ainda que eles sejam bem intensionados e competentes, eles possuirão força para lidar com os grandes lobbies e interesses corporativos, cujos únicos protocolos que interessam são o lucro e o crescimento sem fim?

Estes dias vi em um filme, muito bom por sinal, o Food Matters. Em uma passagem, um médico explica que para um medicamento qualquer ser aprovado e ser vendido nos EUA, basta que ele tenha tido êxito em dois testes. Dois míseros testes!!! Como se eles representassem a vasta complexidade da fisiologia humana e o ambiente em que vivemos! Isto serve para medicamentos que são prescritos por médicos para curar doenças específicas. Fico imaginando suplementos que estão a rodo disponíveis nas prateleiras de forma indiscriminada.

Estou tentanto me ater à eficácia e a possíveis danos que suplementos podem nos causar com seus componentes ativos mais abundantes. Mas e se entrarmos no mérito dos aromatizantes, adoçantes, espessantes, umectantes, conservantes, emulsionantes e outros "antes" emprestados de outros setores da indústria alimentícia? Como são as pesquisas e os "cientificamente provados" desses caras? 

Aliás, este termo "cientificamente provado" parece estar sendo utlizado como chancela para toda e qualquer "verdade" que se deseja mostrar. Principalmente quando o negócio é vender algum produto. Dependendo da metodologia empregada, eu posso "provar" muitas verdades. Acho que é esta a análise crítica que devemos fazer antes de acreditar que algo é verdade porque é "cientificamente provado".

Um amigo meu, o Vagner Bessa, certa vez me disse que eu "acreditava" na ciência quando me interessava e "não acreditava" quando não interessava. E que eu tinha que assumir uma postura dicotômica, isto é, ou acredito, ou não acredito. Bem, a ciência por si só não é algo passível de ser acreditada ou não. Ela não passa de um método. O que eu acredito ou desacredito não é a ciência em si, mas em suas conclusões como fatos da natureza. O fato de algo ser "cientificamente provado" não o torna verdade. A ciência está cheia de verdades e mentiras. O que vai fazer com que as conclusões obtidas variem para um lado ou para o outro é um conjunto de variáveis: premissas e hipóteses consistentes, idoneidade e competência do pesquisador, idoneidade e interesse de quem financia a pesquisa, testes consistentes, exaustivos e conclusivos, enfim. Para que assumamos que a ciência provou que algo é "verdade", muito trabalho deve ter sido feito. Ele foi feito para aquele produto que coloca "comprovado cientificamente" no rótulo e cujos lobistas agilizaram o mais rápido possível seu processo de aprovação perante aos órgãos reguladores? Qualquer resposta a esta questão não é uma resposta científica, mas uma crença. Eu acredito que não, o leitor, acredite no que a consciência e inteligência mandarem.

Ainda neste contexto, existe uma diferença enorme em se comer, por exemplo, aveia, a extrairmos em processo industrial, algum componente da aveia, sintetizarmos em laboratório isoladamente, realizarmos dois testes, colocarmos um rótulo "cientificamente provado" e colocarmos à venda. Assumirmos que determinado componente encontrado no formato natural em algum alimento é o mesmo que sintetizá-lo isoladamente é um absurdo lógico, já que a bioquímica da fisiologia humana é muito complexa, os alimentos possuem propriedades que desconhecemos completamente e, sendo assim, as variáveis são muitas para chegarmos a tais conclusões de forma tão simplista. Provavelmente, a maioria destas variáveis não são analisadas ou se quer levadas em consideração nos diminutos testes científicos e métodos utilizados.

Particularmente, eu acredito que a indústria de alimentos como um todo, incluindo-se aqui os suplementos, possui dois grandes problemas: o primeiro, como já citei anteriormente, a possibilidade REAL de que tudo que consideram "verdades científicas" serem uma mentira deslavada. O segundo se refere à idoneidade de suas conclusões que são sempre baseadas em algum interesse ou lobby corporativos.

A revista Mundotri, na edição do mês passado, na reportagem do "Antidoping", apontou que em um estudo financiado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), que reuniu "634 suplementos de 215 fornecedores de 13 países, 94 deles tinham percursores de hormônios não declarados em seus rótulos e que poderiam gerar casos positivos para doping". Dentre eles, 24,5% tinham percursores de testosterona e de nandrolona. 21,1% tinham esteróides anabolizantes androgênicos. O estudo está AQUI neste link. Ele é de 2001, imaginem se fosse hoje!

Infelizmente, não falam quais produtos ou fornecedores, o que seria um verdadeiro serviço para identificarmos algumas empresas que estão tentando ganhar da concorrência "comprovando cientificamente" seus produtos, se é que entendem o meu sarcasmo.

Não é difícil também encontrarmos profissionais ligados à indústria de alimentos que defendem à ferro e fogo suas "descobertas" e que juram que as intensões são das melhores. Bem, eu como profissional da área de informática que fui, durante muito tempo jurava que as tecnologias que eu vendia eram as "melhores possíveis" e também acreditava que a intensão das empresas que trabalhei eram "das melhores", quase filantrópicas rsrsrsrs. Médicos acreditam que estão totalmente certos quando prescrevem algum medicamento para algum paciente antes mesmo de entenderem sua rotina alimentar, por exemplo. Tenho absoluta certeza que um engenheiro de automóveis acha que aquele projeto é o que há de melhor na inteligência humana. A mesma certeza eu tenho que um ambientalista discordaria dele. 

Depois que aprendemos um pouco mais como as coisas funcionam, percebemos que o mundo não é como nos contam, infelizmente.

Hoje, para não dizer que abandonei os suplementos, tenho um complexo vitamínico e uma proteína isolada de soja não transgênica que só uso em casos especiais, por exemplo, quando viajo, fico longe de minha alimentação convencional e "caseira", ou quando estou em épocas onde a sequência de treinos é muito forte e eu não aguento simplesmente comer 4kg de comida por dia. Mas, eu não me engano. Eu sei que as "verdades científicas" que estão ali podem não ser tão verdade assim. Escuto meu corpo. Tento não deixar o efeito placebo me dominar.

Se sinto alguma diferença de performance da época que eu tomava suplementos? Bem, tudo foi um processo. Primeiro, retirei os suplementos de endurance à base de carboidratos para utilizar bananinha, rapadura, melado de cana, mel, etc. Depois, retirei o suplemento proteico de pós-treino. Depois, retirei a glutamina que tomava à noite, depois os BCAAs, depois o ômega 3. O único que mantive um tempo foram os complexos vitamínicos, dos quais eram manipulados e eram os que eu menos via algum problema. Tudo isso foi acontecendo conforme eu melhorava minha nutrição ainda mais e me tornava vegano. Digamos que conforme eu descobria o poder dos alimentos, eu retirava os suplementos. O que posso dizer é que treino da mesma forma que sempre treinei, evoluo da forma que sempre evoluí. De forma geral, ainda me sinto melhor.

Sou contra os suplementos? Na verdade, eu sou contra a forma como TODA a indústria de alimentos está arquitetada na sociedade atual. Monoculturas de milho, soja e trigo como predominância, alimentos percorrendo grandes distâncias, ficando armazenados durante muito tempo para chegarem as respectivas bocas, a imensa maioria de nossos recursos ambientais sendo utilizados para alimentar gado, transgênicos sendo vendidos como a solução para a fome no mundo, propagandas de comidas industrializadas com baixo valor nutricional, vendidas aos montes e responsáveis pelas três doenças que mais matam, enfarto, câncer e diabetes, pesticidas sendo despejados à rodo nas plantações do agronegócio, enfim. Tenho minhas razões para acreditar que a indústria de alimentos está errada do começo ao fim. Neste contexto tenebroso, estão lá, como uma ponta no iceberg, os suplementos. Se eles são ruins ou bons por si só? Acho que esta não é a pergunta correta. Acho que eles são apenas mais um reflexo de uma indústria doente, bem doente.

Enquanto esta indústria está doente, que tal trocar o seu pozinho colorido por uma feira de produtos orgânicos?

Ulisses


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