quinta-feira, 3 de outubro de 2013

A Matemática que nunca fecha com o discurso




Quando falamos de esporte e nutrição, a matemática está sempre presente. É a forma com a qual a ciência estabelece regras e protocolos que quantificam e qualificam tudo. É sabido que nem todos os seres humanos são iguais entre si como andróides, mas, cá entre nós, há muito mais semelhanças que diferenças entre nós, portanto, nada mais justo do que estabelecermos alguns padrões para que haja de alguma forma uma compreensão sobre estes dois temas.

Alguns destes números e padrões, no entanto, quando associados a alguns discursos, me intrigam. Não vou citar estudo algum neste post porque o que escrevo aqui é fruto de várias leituras em épocas diferentes que simplesmente guardei em minha mente. Seria um esforço demasiado para um simples texto despretensioso que tentará fazer o leitor pensar.

Vamos às calorias.

2000Kcal é normalmente um número usado como referência de gasto diário de um homem adulto. Para um atleta, com o metabolismo mais acelerado, este valor gira por volta de 2500Kcal em um dia em que ele não fez atividades físicas. De forma geral, e apenas a título de um padrão genérico, temos aqui aproximadamente o gasto calórico de atividades comuns de um triatleta:

- Natação - 50min - treino moderado/forte: 400/550kcal
- Bike - 50min - treino moderado/forte: 400/700kcal
- corrida - 50min - treino moderado/forte: 700/900kcal
- Musculação - 50min - treino moderado/forte: 180kcal/350kcal
- Funcionais - 50min: 250kcal (não li em lugar nenhum neste caso. Estimei)

Isto significa que um triatleta que faz dois esportes por dia mais uma musculação ou funcional (que é o meu caso), o gasto calórico esportivo vai ficar entre 1000kcal e 1600Kcal, dependendo da intensidade (e da empolgação rsrsrs). Não estou contando os treinos longos aqui, ou seja, ciclismo acima de 3 horas e corrida acima de 1h20. Um pedal de 5h, por exemplo, seguido de uma transição de 20min, que é um treino normal para quem está treinando para um Ironman, por exemplo, é um treino onde o atleta vai consumir 3000Kcal. Um longo de corrida de 2h na casa de 2000Kcal. Pelo menos de acordo com estes padrões e métricas matemáticas que a ciência esportiva nos mostra.

É normal um atleta amador treinar na casa de 15 a 20h semanais, dividido entre aquelas cinco modalidades ali de cima, onde temos "um longo" de cada esporte por semana. Em uma conta bem básica, um atleta nestas condições gastará entre 3500kcal e 5500Kcal por dia. Algo como 27500Kcal por semana. 

Estamos falando de um triatleta amador. Já perdi as contas de quantas vezes já li sobre atletas profissionais de ponta que treinam 35, 40, 45 horas semanais! Estes triatletas olímpicos e os top Ironmans mundiais treinam nestas faixas. Pelo menos é o que dizem. E é aí que começa a intriga.

Sou uma pessoa que come muito. Em quantidade, dificilmente me deparo com alguma pessoa que coma mais do que eu. E quando o faço, são aqueles caras enormes de mais de 1,90 com 110Kg. e mesmo assim não fico muito longe. Sem contar que ele normalmente para naquela refeição e eu vou comer depois de 3 horas novamente. Já fiz muitas vezes os cálculos de minha ingestão calórica e posso afirmar sem medo de errar, pelo menos referente à minha experiência com o meu metabolismo. É algo muito difícil consumir 4000Kcal por dia. Muito difícil mesmo. É aquele negócio de comer 1,2kg no almoço e três horas depois ter que comer mais um monte e três horas depois mais outro monte, enfim.

Fazendo outra conta de padaria, se eu que sou amador consumo entre 3500Kcal a 5500Kcal por dia, quanto consome um atleta que treina mais de 40 horas por semana? de 7000Kcal a 11000Kcal? Bem, se o corpo humano funcionar como simples cálculos matemáticos, sim. É isto mesmo. Vamos considerar que atletas muito bem treinados sejam mais eficientes no consumo calórico do que indivíduos destreinados. Isto é, para a mesma atividade e duração moderas, o atleta treinado consome menos calorias do que o destreinado. Por uma razão de eficiência metabólica ou até mesmo biomecânica. Ainda assim, duvido muito que esta eficiência se expresse em mais do que 20 ou 30% de consumo. Mas vamos ser "bonzinhos" e vamos considerar 20% de eficiência em atletas bem treinados. Teremos aí uma faixa de consumo calórico ainda muito alta, na casa de 6000kcal e 8500Kcal. Ainda que devam existir atletas que tenham uma eficiência muito maior do que esta, estes devem ser a exceção da exceção.

Eu sou capaz de apostar que se colocarmos em fila todos os triatletas olímpicos e todos os triatletas de ponta de Ironman para fazerem uma competição comigo de "quem come mais", eu provavelmente chegaria entre os cinco primeiros rsrsrs. Aí, eu penso: "se eu tenho dificuldade de consumir mais de 4000Kcal por dia, como esses caras fazem para consumir 8000Kcal? Quem já me viu comendo sabe do que estou falando. Fico imaginando um "frango" igual ao Alistair Brownlee ou um "chassi de grilo" igual ao Craig Alexsander "apostando corrida" comigo em um quilão rsrsrs. Os caras devem comer igual menina perto de mim rsrsrs.

A resposta óbvia que vem na cabeça de todos é: suplementos.

Ok, pois bem, esta resposta realmente deve estar correta mesmo. Mas é agora que começo a justificar o título do post: "A Matemática que nunca fecha com o discurso".

A palavra "simplicidade" parece estar na moda entre os triatletas de elite. Eles são muito assediados por atletas amadores e pela mídia em geral com perguntas que tentam descobrir seus "segredos" de treinamento e nutricionais. É muito comum a palavra "simplicidade" aparecer nestas horas. Não é raro escutar algo como "uma alimentação balanceada e algum suplemento proteico pós-treino".

Hummmm....

A primeira pergunta que vem à minha cabeça é: o que tem de simples em se consumir 6000/8000kcal? Principalmente para caras sequinhos que provavelmente não aguentam comer um prato de 1kg no quilão? Simplicidade? Ainda que a resposta seja "o suplemento proteico no pós-treino", temos ainda um grande problema. Uma dose de pós-treino de um R4 Enduox, por exemplo, que é um dos suplementos mais famosos, tem 280Kcal. Ainda que o atleta tome quatro destas doses por dia para quatro sessões de treinos diários, teremos algo como 1120Kcal. Ainda faltam de 5000kcal a 7000kcal para abastecer o atleta.

Peguei apenas um critério para esta avaliação. As calorias. Poderíamos pegar outros micronutrientes como vitamina C, vitamina E, vitaminas do complexo B, zinco, cobre, ferro, etc. Sem contar as exigências de quantidades enormes de antioxidantes necessários para se eliminar radicais livres e estresse oxidativo de treinamentos desta proporção.

Se ainda pegarmos outro exemplo interessante, ainda dentro da ingestão calórica, os macronutrientes carboidratos, proteínas e gorduras, a intriga continua.

Existem vários tipos de dieta. Cada uma delas apresenta uma relação de percentagem de consumo diário entre estes três macronutrientes. Existem as dietas que exigem mais carboidratos (70%/15%/15), existem as dietas que se preocupam mais com a ingestão de gorduras (60%/25%/15%), existem as dietas tipo "paleo diet" que tentam limitar a ingestão de carbo e dão preferência para gorduras e proteínas (40%/30%/30%). Eu particularmente gosto muito da relação 60%/20%/20%. Nem sempre consigo fazer, já que como vegano minha ingestão proteica é normalmente menor, mas ela fica em uma média entre todas estas dietas, provê os carboidratos necessários para nosso estoque e reposição energéticos e possui uma boa ingestão de gorduras e proteínas para manutenção hormonal e construção muscular. De qualquer forma, qualquer dieta destas, a ingestão proteica diária varia entre 15% e 30%.

Voltemos, portanto, às calorias dos atletas de elite.

20% de 8000Kcal são 1600Kcal. Se cada grama de proteína possui 4Kcal, estamos falando de 400 gramas de proteína!

Existe praticamente um consenso científico-nutricional que estabelece a ingestão proteica como sendo 0.6g/kg corporal para sedentários, 0,6-0,8g/kg corporal para praticantes de alguma atividade física, 0,8-1,2g/kg corporal para atletas de endurance, 1,2-1,8g/kg corporal para atletas de força ou atletas que queiram ganhar massa muscular. Enfim, um atleta de endurance de alto nível de 70kg deveria consumir na casa de 85g de proteína por dia. Se levarmos em conta as questões de absorção etc, vamos supor que sejam 100g de proteína por dia. Ainda que fossem 140g para um atleta de força. Ainda assim, estaríamos MUITO longe dos tais 400g de proteína. Além disso, a não ser que estes atletas sejam esquimós que só comem peixes e focas, para se consumir 400g de proteína por dia, digamos que este indivíduo precisaria comer tanto que ele não seria um atleta de endurance de tão pesado que ficaria. Talvez, bodybuilders de competição comam esta quantidade, mesmo assim se entupindo de esteroides anabolizantes para conseguirem maior absorção.

Portanto, como estes atletas conseguem se adequar em algumas destas dietas?

Novamente a pergunta: simplicidade? Onde ela está, alguém pode me explicar?

Tenho aqui comigo algumas possibilidades lógicas:

1- Ou os atletas de elite tem uma eficiência tal que conseguem treinar 8-10hs por dia e consumirem 3000Kcal, o que eu acho um tanto bizarro.
2- Ou a ciência esportiva e nutricional nas quais me baseei para coletar todos estes números está furada de alto a baixo.
3- Ou os atletas consomem verdadeiras toneladas de suplementos diários dos mais variados tipos e sabe-se lá porque reduzem tudo isso na palavra "simplicidade" quando estão sendo entrevistados.
4- Ou os atletas não treinam 40 horas semanais e estas informações só aparecem na mídia e nos dscursos para criar um certo ar de impressionismo.

Como o primeiro item, que pode até ser possível, mas eu duvido que seja a regra, chego a uma conclusão:

ALGUÉM ESTÁ MENTINDO!