segunda-feira, 17 de março de 2014

Ultramaratona de Montanha SOLOMAN - Concluída





Aqui no site do SOLOMAN está contando um pouquinho da Ultra de Montanha realizada neste último domingo dia 16/03: http://www.soloman.com.br/2014/03/a-ultramaratona-de-montanha-soloman-foi.html

Mas, preciso dar a minha visão pessoal da prova aqui no meu Blog. 

Estou demolido e feliz ao mesmo tempo. Nunca havia feito se quer uma maratona de rua completa, a não ser de três Ironmans que eu fiz. Muito menos uma Ultra. Muito menos uma Ultra de montanha. Tudo bem que esta não era daquelas Ultras de mais de 100km, mas dentro destes 53km tinham dificuldades para ninguém botar defeito. Apesar de eu não ter experiência com este tipo de prova, a galera que lá estava tem e, segundo relatos, o lance foi sinistro mesmo. Ela não tinha "single tracks" nem descidas técnicas, mas a altimetria de 2140 metros, as pedras que colocaram nas ruas de terra para evitar erosão das chuvas que arrebentavam com os pés para quem estava com tênis com solados mais finos e o calor, simplesmente a fizeram a "graça" da prova rsrsrs.

Por volta de 8:30 da manhã, encontrando todo mundo. Legal encontrar fisicamente (não virtualmente) uma galera da Força Vegana que não falhou. Novas amizades também, pessoas que se apresentaram para fazer a prova e vieram para o desafio. Bem legal isso.

Nove horas, a largada. Com direito a contagem regressiva e tudo, 19 atletas largaram rsrsrs. Sabia que tinha caras que corriam bem, como o Marcos Faria, o Cesar Momesso e o Murilo Oliveri e sabia que tinham caras bem mais experientes do que eu neste tipo de prova como o Anderson Ribeiro e o pessoal da Força Vegana que tá super habituado nessa pegada. Fora que tinha outras pessoas que eu não conhecia. Na verdade, meu objetivo era um só: "Vou me testar ao máximo. Quero me testar para ver até onde eu vou fazendo a maior força que consigo." Era isso que tinha em mente.



Estava treinando apenas corridas curtas e tinha feito "longos" ridiculamente curtos esse ano de 16, 18 e 19km. Nem 20km eu bati. E a maioria deles em esteira. Eu sou um cara que não consegue fazer muita quilometragem semanal de corrida. Ela me destrói. Então, foi um tanto proposital isso. Queria saber se eu conseguiria manter meu endurance de corrida também com a bike e a natação, sem ter que fazer ultra rodagens de corrida. No entanto, estava partindo para o desconhecido. Desencanei e assumi a liderança logo no começo. Tipo "não quero nem saber. Vamo que vamo e se tiver que quebrar, eu ando até o fim".

No começo, o pessoal da Força Vegana, principalmente o Rafa e o Diego, estavam comigo. Nas primeiras subidas eu me descolei do grupo, mas ouvia passadas atrás de mim ainda. Olhei pra trás, e era o Cesinha. Eu e ele corremos juntos por quase metade da prova. Ora ele alguns metros à minha frente, ora eu.

Perguntei sobre o Marquinhos e ele falou "Cara, ele está sossegado, acho que vai ficar de boa lá atrás". Eu disse: "Ahã, o Marquinhos? Competitivo do jeito que ele é, vai ficar ali atrás? ahahah vai achando isso que daqui a pouco o viado tá passando a gente aqui". Ele riu.

Depois de passar a magnífica Pedra do Coração e descer o morro até a Cachoeira do Barrocão, parei para comprar água na barraquinha. Falei "Cesinha, você não vai comprar água? Se quiser, pode ir indo cara, eu vou me reabastecer aqui". Ele foi subir a pirambeira da Pedra do Coração novamente. Eu demorei 4 minutos para abastecer a mochila de hidratação e comecei a subir. Deu uns dois minutos, quem passa correndo pela descida??? Marquinhos....rsrsrs...e gritando "Faca na Caveiraaa" ahahah. Eu fiz um cálculo e pensei. "Bem, já corri 20km, faltam 33km e ele está mais ou menos a 6 minutos atrás". Fui "caçar" o Cesinha. Nisso, encontrei o resto do pessoal descendo. 

Ainda na estrada da Pedra do Coração, em alguma subida ali, colei no Cesinha de novo e ficamos juntos ainda um bom tempo. Viramos à direita em direção à Pedra Grande. A parte sinistra mesmo ainda estava por vir, apesar de já estarmos cansados. Na primeira pirambeira que apareceu, a musculatura do meu tornozelo começou a dar cãimbra. Eu estava me hidratando absurdamente bem, essa era uma das minhas metas a serem testadas inclusive. Bebendo realmente muito mais do que normalmente bebo. Mas, acho que ainda estava faltando algum eletrólito. Eu estava com seis cápsulas de sódio, portássio e outros minerais. Falei para o Cesinha "cara, vou tomar um treco desse aqui senão vou caimbrar". Ele já me solta "tem sobrando aí?" rsrsrs aquilo me mostrou que eu não era o único já meio detonado rsrs. Dei a cápsula pra ele e continuamos. Dali pra frente, eu abri. A altimetria era demais e aparentemente eu estava ganhando tempo subindo. Mesmo andando em várias subidas estilo "parede", eu andava forte. Muito forte. Não chegava a ser uma corrida, nem uma caminhada. Uma andada firme, que fazia o batimento ficar alto. Sentia que era uma velocidade boa para o tipo de terreno. Cheguei a tirar o tênis porque havia algo me incomodando, rsrsrs, era uma bolha gigantesca no mindinho. Desencanei e continuei. Fui com esses tênis de corrida, com solado baixinho, e já com vários buracos na parte do "midfoot" rsrsrs. Quando chegava a parte de pedras pontudas, parecia que estava correndo sobre brasa.

Foi nessa pegada que eu fui subindo a Pedra Grande. Ali, queria muito ver um cara subir correndo forte, depois de ter corrido já 30km...queria muito ver e filmar uma coisa assim. Eu admito, não consigo. Caminhar era necessário. Enchi mais uma vez a mochila na nascente ali na subida da pedra. Água maravilhosa e geladinha, aliás. Perdi mais uns três minutos ali. Foi quando chegou um motoqueiro e me disse: "Você é o cara que está na prova?" eu respondi que sim e ele me disse "a mulherada está ali na Pedra e vim pegar água pra elas que elas estão sem". Não acreditei, pois a Kika, Eliete, Bárbara e a Carol haviam subido a pedra pela trilha as 9hs da manhã, quando largamos, o que elas estavam fazendo lá 12:30? Fiquei feliz pra caramba. Dá uma ânimo. Quando cheguei lá, puta recepção rsrsrs




Eu estava adrenalisado. Queria cumprimentar a Kika, bater uma foto e sair o mais rápido possível porque eu sabia que o Cesinha e o Marquinhos estavam vindo. Nessas horas, é incrível, como percebemos que somos competitivos. E parece que é mais legal ainda competir com os amigos rsrsrsrs. Na verdade, eu acho que existe aquele lance interno de admiração pelo outro atleta-amigo e na mente a coisa que fica mais latente é: "Vamos ver se eu consigo ganhar dele, se eu conseguir, vou ficar feliz demais, afinal, ele é referência". Não digo que é uma competição pura. Mas uma mistura de competitividade e respeito.

Saindo da Pedra, agora o caminho era mais "alegre". Tinha ainda muitas subidas, mas a altimetria era, agora, a nosso favor. Faltavam 20km ainda, mas desta vez com mais descendência, o que dá um ânimo. Os problema, na verdade, seriam outros dois. Como eu estaria depois da quarta hora de corrida? Nunca tinha feito isso. Como estaria a musculatura da minha perna com taaaanta descida? Será que eu não ia chegar no km 48, por exemplo e ser obrigado a andar por que minha musculatura e articulações tinham explodido? Não sabia dizer. Tive que confiar que minha musculatura era forte o suficiente.

Logo no começo da descida, vejo o Cesinha andando (em um lugar óbvio de se andar) e o Marquinhos correndo ultrapassando. Eu pensei "esse viado só pode estar fazendo jogo psicológico, não é possível" rsrsrs. Falei "vai até a pedra que a mulherada está lá". Daí por diante, a corrida foi tensa. Eu não tinha mais o Cesinha como referência e na minha cabeça eu estava quebrando e o Marquinhos crescendo. Eu sei que ele desce bem e os próximos quilômetros eram descendo. Apesar de eu estar uns sete ou oito minutos na frente, naquele trajeto este era um tempo despresível se eu quebrasse totalmente.



Fiz o que deu e de cinco em cinco minutos eu olhava para trás esprando ver um macaquinho amarelo se aproximando. Eu ia passar um rodo rsrsrsrs. Incrivelmente, no entanto, até o km44 eu estava bem inteiro e conseguindo correr bem. Se a ultra tivesse acabado ali, eu me daria por satisfeito. Como que eu tinha conseguido fazer aquilo com tão pouco treino longo de corrida? O fato é que dali pra frente, a "cobra fumou". Andando em TODAS as subidas, correndo nos planos e descidas foi a estratégia que dava pra fazer. Até aí, sem novidades. O problema era que eu caminhava agora em TODAS as subidas mesmo. TODAS. Até aquelas menos íngrimes. Andava forte, mas andava, não corria. E na hora de correr, não conseguia emplacar um pacing descente. Eu estava travando. E olhando o tempo todo pra trás para ver se alguém chegava. Teve uma hora, faltando 5km para o fim que eu olhei para trás e dava para ver um bom pedaço do circuito até o horizonte e não vi ninguém. Foi ali que eu percebi que seria muito difícil aparecer um "the flash" que me passasse rsrsrs. Eu imaginei naquele momento que o Marquinhos também não tem muita expriência nesse tipo de circuito e de certo estava tão quebrado quanto eu. A mesma coisa o Cesinha. Então pensei. "Se eu continuar correndo pra frente, em qualquer que seja o pacing, por mais ridículo que seja, vai ser impossível alguém me pegar agora". E realmente foi o que aconteceu. Quando pisei no asfalto, faltando 2km, foi um alívio. Não aguentava mais correr em terra e pedras. Meu pé estava em frangalhos. Quando avistei a padaria do Pouso Livre de Atibaia, foi uma sensação similar a de se fazer o primeiro Ironman. Gritei. gritei muito. Vibrei. A galera que estava por ali não entendeu nada, afinal, era um SOLOMAN. Não tinha pórtico, infra, locutor nem nada. FODA-SE! Gritei. No relógio, marcavam 5h44m, o atual recorde do circuito.

No Soloman, não costumamos falar classificações, posições, pódios, nem nada disso. Mas, este foi um resultado expressivo pra mim e vou falar, pelo menos aqui no meu blog. Foi um desafio pessoal e tanto para simplesmente cair no limbo de esquecimento. Espero que esta ultra vire uma prova calendário para outros amantes do esporte de endurance e quero que estes atletas tenham um desafio a ser batido: 5h44min. Assim como temos as 10h28 do ultra atleta vegano Daniel Meyer no SOLOMAN 226 de 2013.

Quando olho pra dentro da padoca, vejo o Pedro Lutti e o Murilo Oliveri. Fui lá falar com eles. Quis entender o que aconteceu, achei que tivessem desistido. E eles olhando para mim com cara de "o que esse porra tá fazendo aqui gritando, vibrando chegando?" rsrsrsr. Eles, infelizmente erraram o caminho. Na entrada da Pedra do Coração, na volta, eram para ter ido para a Pedra Grande, mas, viraram a esquerda e voltarm. Só que ali, realmente é bem confuso para quem não conhece. Eles correram 40km. Eles tinham achado que quem havia chegado na frente deles tinha ido embora rsrsrs. Quando eles me viram chegando, não entenderam nada rsrsrs. Ficaram um tanto frustrados porque a idéia realmente não era aquela. Era ter realmente feito o circuito completo. Vão ter outras oportunidades, galera, relaxem rsrsrs.

Pouco tempo depois chegam Cesinha e Marquinhos. O resto da galera foi chegando e nós ali, quebrados, detonados dentro da padoca tomando suco de laranja com coca-cola (aliás, é o único momento que eu tomo esse produto ridículo rsrsrs).

Gostaria de agardecer o restaurante Santa Pimenta pela iniciativa de apoiar esta Ultramaratona. Atibaia é uma cidade excelente para se praticar tais modalidades, mas, incrivelmente, ninguém tem essa visão por aqui. Então, quando aparece um restaurante como o Santa Pimenta, temos que prestigiar.

Mais um desafio completado e a parte que me deixa mais feliz. Foi o primeiro evento deste tipo em Atibaia.
Fomos os pioneiros! Quem mais se habilita?