quarta-feira, 23 de abril de 2014

Os shurikens e o Ironman




Lá pelos meus 13 ou 14 anos eu era um "game-maníaco". Era daqueles moleques que enquanto não acertava tal golpe, ou não chegasse ao final, ou não fizesse algo em tanto tempo nos jogos, não sossegava.

Um belo dia, tive um Mega Drive. A molecada hoje nem sabe o que é isso. Sou da época do Atari, na verdade, mas, quando a SEGA lançou o Mega Drive (e a Nintendo, seu maior concorrente, o Super Nintendo), foi um divisor de águas. Foi o primeiro video game 16-bits que os brasileiros tiveram acesso em larga escala. Os jogos eram sensacionais. Recordar é viver...

O primeiro jogo que eu tive foi o "The Revenge of Shinobi". Ele já vinha do Master System, mas teve uma versão ultra melhorada no seu irmão mais novo, o Mega Drive. Não podia ser diferente. Viciei completamente no jogo. Você era o ninja e seu objetivo era ir passando fases. Tinha para isso uma espada, uma faca, alguns super-poderes que só podiam ser utilizados em momentos especiais pois eram contados e, como não podia deixar de ser, os shurikens. Aquelas estrelas afiadas que os ninjas tem. (Na verdade, eram mini faquinhas, mas, na época eu chamava de shurikens, então, vou manter por pura nostalgia)

Bem, comecei a aprender a jogar. A faca e a espada eu podia usar o quanto eu quisesse. Os super-poderes eram limitados. Não me lembro o número de cada um, mas era um número bem baixo. E tinha nada mais, nada menos que 99 shurikens. O jogo era em duas dimensões, isto é, o ninja andava para direita e para a esquerda e pulava para cima e para baixo. Quando apertávamos o botão pular duas vezes ele, além de pular, dava um mortal bem alto. Quando vinham os inimigos mais fáceis, umas espadadas já eram suficientes para exterminá-lo, mas quando vinham muitos, ou mesmo quando vinham os temidos chefes de fase, aqueles que normalmente ficamos semanas e semanas para conseguir passar, os shurikens eram imprescindíveis. 

O jogo era perfeito. Gráficos incríveis para a época, dificuldade máxima, dezenas de fases com uma criatividade absurda. Realmente ele exigia muito do jogador.

Os shurikens...ahhh, os malditos shurikens. Começávamos com míseros 99 shurikens e, de vez em quando, raramente, vinham alguns pelo caminho para nos abastecer, o que não dava nem para o cheiro. Não era raro estar indo bem, mas ao acabar os shurikens, em alguma fase cheia de inimigos, simplesmente morrermos por falta de opção. Impossibilidade de passar mesmo. E lá vamos nós para o início da tortuosa fase novamente. Um tanto frustrante muitas vezes.

E assim foram meses e meses até um momento em que eu simplesmente viciei a tal ponto no jogo que eu conseguia chegar na fase final, no último chefão, com horas e horas jogando, começando do início do jogo, com aqueles poucos super-poderes cirurgicamente usados pelo caminho, e aqueles 99 shurikens. Mas e quem disse que eu conseguia matar o último chefe?

Foram muitas semanas tentando passar o tal de Zeed, o mestre final. Era uma tortura chegar até ali e não conseguir "zerar" o jogo. Na minha escola não tinha ninguém que jogava, então, eu não tinha para quem perguntar sobre alguma "manha" que provavelmente eu não conseguia descobrir. Chegava lá e tomava pau. Simples assim. Chegou uma hora que me dei por vencido. Fiquei um tanto frustrado, mas tinha acabado com as minhas forças psicológicas. Não aguentava mais. Me senti um lixo.

Mais ou menos na mesma época, abriu uma loja de games na zona norte de São Paulo, onde eu morava. A Pró-Games. Era a Disneylândia da molecada "game-maníaca" da época. Eu ia lá toda semana ver as novidades, assitir a molecada jogar os lançamentos da época, enfim, coisa de moleque. É claro que comecei a fazer amizade no lugar, trocávamos ideias sobre jogos e tal. Um belo dia, eu disse no meio de uma roda que tinha perdido alguns meses jogando "The Revenge os Shinobi", que achava o jogo difícil e que não tinha conseguido passar o último chefe. A molecada começou a tirar sarro de mim. Falavam que o jogo era fácil, que todo mundo ali tinha completado e que o último chefe era mole. Eu não podia acreditar no que eu estava ouvindo. Ou eu era muito incompetente e burro ou eles estavam falando de outro jogo. Não era possível.

Um belo dia eu fui lá e estava uma galerinha ali jogando o "Shinobi" em um dos Mega Drives que eles tinham. Um deles me reconheceu e falou "olha aí o cara que não conseguiu terminar o "Shinobi". Eu disse, "então, deixa eu ver como que vocês fazem". E comecei a olhar um deles jogando. Perto do vício que eu havia me tornado, o cara jogava bem meia boca, mas eu comecei a perceber que ele só usava shurikens. Shuriken pra lá, shuriken pra cá e realmente tudo ficava um tanto fácil. Foi aí que eu percebi que os tais 99 shurikens que ficavam na tela simplesmente tinham se transformado em 999 e não decresciam quando ele os utilizava. Eu disse "ué, mas que porra de shurikens são esses que não acabam?" 

Neste momento, fez-se um silêncio. Todo mundo olhou pra mim, inclusive o cara que estava jogando, que até "pausou" o jogo. Todos olhando pra mim com cara de espanto. Parecia cena de filme. Foi quando um dos caras soltou "Você chegou até o último mestre com 99 shurikens???" Eu disse "cheguei sim, mas não consigo passar de jeito nenhum". Outro cara falou "cara, acho que você é o melhor jogador de Shinobi do planeta" e deu risada. Foi quando eles me revelaram que tinha uma "manha" que fazíamos no começo do jogo, uma sequência de botões em um determinado momento, que "desbloqueava" os shurikens infinitos! Isso mesmo, shurikens infinitos! Na hora, eu falei "Puta merda, aí, é fácil mesmo. Acabo esse jogo aí com os olhos fechados e uma mão só..."

Bem, onde quero chegar? Semana passada, eu publiquei ESTE POST sobre algumas especulações do uso de doping no triathlon amador. Foi, de longe, o post mais acessado do meu blog em tão pouco tempo, o que me causou um certo espanto. Ontem, postaram um ESTUDO feito pela Specialized em túnel de vento sobre as vantagens e economia do vácuo no ciclismo. Para resumir, 50% de ganho para um ciclista que anda logo atrás de outro e 20% de ganho para um ciclista que anda à uma distância de três bikes do outro, que é mais ou menos o que a distância legal (entre 7 e 10m) representa nas provas de triathlon de vácuo proibido. Esta é uma informação importante que mostra que mesmo dentro da distância legal, os ganhos são expressivos. Sem chutes e especulações, mas com um teste em túnel de vento. É claro que, sem contar o papo do doping, quando falamos de distância legal, é legal é pronto. Ninguém está trapaceando. Se é moral, eu não sei. Acho que isso abre uma outra discussão, já que o triathlon deveria ser uma prova individual de contra-relógio. Estamos falando de um jogo lícito sim, no entanto, estou cada vez mais percebendo que esta não é uma variável dinâmica da prova, de momento, mas utilizada sistematicamente como uma estratégia desde a hora da largada na água. Ou seja, nadar junto com um grupo para que no ciclismo este jogo de ganha-ganha seja utilizado. Trocando em miúdos, ao invés de se tornar um ultra ciclista de triathlon, aprenda a nadar na esteira. É esta a mensagem? Me contem aí, por favor.

Especulando ainda mais, seguindo a mesma linha do meu último post sobre o doping, isso deve explicar PARTE dos pedais fenomenais que sempre vemos nas provas de longa distância, profissionais e amadores, lícitos ou ilícitos. Ninguém está falando que não há treino e que não há melhora. Nem vou responder estes comentários ridículos. O que estou dizendo é que DENTRE TODAS AS VARIÁVEIS, sim, este jogo de se pegar um "vácuo lícito" existe. E se ele é lícito, não entendo porque simplesmente os que o fazem não falam "sim, usei esta estratégia na prova". Porque simplesmente não falam? Porque não é moral? Se é lícito, deveria ser abertamente discutido como o atacante de futebol que diz que usou a linha do impedimento para penetrar na defesa adversária, simples assim. Porque esse jogo de "esconde-esconde"? Qual é o problema em falar que isso ocorre sistematicamente e que faz parte da estratégia? Lá fora, falar sobre isso parece ser mais natural, mas aqui, parece que existe um certo receio. Não sei exatamente o porquê. 

O que eu posso dizer é que eu NUNCA usei tal artifício como estratégia de prova. Porque? Não sei ao certo. Talvez porque eu não me sinta bem fazendo. Mesmo sendo lícito, existe algo que me diz para não adotar como prática estratégica. Quando estou a tal distância, tenho aquela impressão de que estou fazendo "merda" e tento me livrar. É claro que existem situações que realmente precisamos ficar em tal posição de 10 metros, mas por uma questão da dinâmica da prova, do momento, não como uma estratégia adotada e calculada, que é o que estou começando a me dar conta que é o que ocorre na prática. Me respondam aí, estou jogando sem shurikens?

Uma outra coisa que eu reparo é que em vésperas de Ironman, vejo vários caras fortes como bodybuilders, corados, aparentemente saudáveis e revigorados. (sem contar que estamos também em vésperas de Ultraman...). A pergunta que não quer calar é: como, com os volumes de treino dessa fase, essa galera consegue ficar com tais físicos de Apolo? Eu não sou um cara fraquinho. Tenho 22 anos de musculação no lombo e já fui muito mais forte do que hoje. Mas, o triathlon simplesmente me definha, fazendo a dieta que for, suplementando o que for, com qualquer tipo de treino, mais intensos ou mais longos. Mesmo sem treinar para Ironmans. Treinando até para provas mais curtas, o esporte já me modela para um cara mais magro. Sem contar olheiras, cansaço, fadiga. Vejo muitos e muitos que ficam como eu (a maioria, na verdade, diga-se de passagem), mas vejo outros tantos que parecem ficar mais fortes, vigorosos e corados com os treinos híper-catabólicos requeridos pelos esportes de endurance. Me digam aí, qual a combinação para eu conseguir estes shurikens?

Somando todas estas minhas observações no triathlon, tudo que eu leio, estudo, treino, me alimento e testo, não tenho como não pensar no "The Revenge of Shinobi". As vezes tenho a nítida impressão que comecei a jogar e ninguém me ensinou o "truque" para se ter ifinitos shurikens...