sexta-feira, 16 de maio de 2014

Questões de sustentabilidade e o Whey Protein




Gosto de fazer algumas contas. Em muitos casos, elas nos elucidam algumas coisas que normalmente ficam mascaradas. Vou tentar fazer uma previsão aqui do Whey Protein. Para quem não sabe, nada mais é que a proteína do soro do leite, um subproduto da indústria do queijo, largamente utilizado em outras indústrias, inclusive na de suplementos, que é o foco deste post aqui.

Em um litro de leite de vaca, temos aproximadamente 35g de proteína. Desta quantidade, 80% é caseína e 20% é whey, ou seja, 7 gramas. A parte proteica do whey constitui aproximadamente 10% dos sólidos secos  beta-lactoglobulina (~65%), alpha-lactalbumina (~25%), bovine serum albumina (~8%) e immunoglobulinas (fonte: http://en.wikipedia.org/wiki/Whey_protein).

Portanto, pelo que entendi, um litro de leite de vaca possui 0.7 gramas de "material aproveitável" para se fazer o Whey Protein.

É bem comum vermos uma dose de whey (1 scoop) ter 25g de proteína. Fazendo uma conta básica aqui, são necessários 35.7 "materiais aproveitáveis" contidos em 35.7 litros de leite para se fazer uma dose de whey. Um whey de qualidade tem 80% de proteína, ou seja, esse mesmo scoop com 25g de proteína, tem, na verdade, 31g de pó. Um pote com 1.86kg , com a dose proteica de 25g (1 scoop), possui 60 doses.

Este mesmo pote, portanto, de 1.86kg, precisa de 2142 litros de leite para ser produzido.

Sou só eu que acho isso uma anomalia? 

É claro que estamos falando de um subproduto, isto é, temos já instalada uma indústria de laticínios gigantesca e muito do que sobra é utilizado por várias outras indústrias, incluindo-se aqui o soro do leite (whey). Ou seja, ninguém produz 2142 litros de leite para ser utilizado APENAS para se fazer um pote com 1.86kg de whey protein. É todo um processo e toda uma indústria, com várias etapas, processos e particularidades. Ainda assim, 2142 litros para apenas um pote do produto é um número substancial e mostra o quanto a indústria de suplementos proteicos baseados em whey protein fomenta ainda mais a insustentabilidade já existente na indústria do leite propriamente dita.

Se a indústria do leite, juntamente com a da carne, por si só, já é algo completamente insustentável do ponto de vista ambiental, o que dizer desta "carona" que a indústria e o modismo do Whey Protein representa?

Não estou nem entrando aqui no mérito se os tais suplementos proteicos são necessários ou não para as pessoas que o consomem (na imensa maioria das vezes, não). Estou apenas apontando uma insustentabilidade berrante que este produto representa, ainda que seu uso fosse realmente necessário.

O recado que eu quero deixar aqui é o seguinte: se você é uma pessoa que não se preocupa com a sustentabilidade do planeta, tudo bem. Este post aqui não é para você. Mas se é uma pessoa que se preocupa, e que de certa forma em outros aspectos de sua vida tenta contribuir, consumir whey protein é um contrassenso imensurável. É bom que tenha isto em mente quando comprar o seu próximo pote.


terça-feira, 13 de maio de 2014

E se o Bradley Wiggins fizesse Floripa?






Ontem, no tour da California, o medalista olímpico e vencedor do Tour de France 2012, Sr. Bradley Wiggins, fez 23min18'' no estágio de contra-relógio de 12.4 milhas (aproximadamente 20km). Isso dá uma média de 52.04km/h. Sem cogitar que já tinha feito uma etapa dura da prova no dia anterior.

Vou ter que fazer algumas suposições aqui. Não dá para ser 100% exato. As variáveis são muitas e eu não tenho todas elas. Mas quero chegar apenas a algum valor aproximado. 

Vamos supor que não havia vento, nem havia altimetria no contra-relógio de hoje. Vamos supor também que ele tenha uns 70kg. Para se fazer esse contra-relógio, ele colocou aproximadamente 480W nos pedais. Como foi uma prova curta, ele deve ter ficado boa parte do tempo acima de seu FTP, digamos, em Zona 5a. Acredito que seu FTP esteja na casa de 450W, portanto.

Vamos supor que o Bradley Wiggins fosse participar do Ironman Floripa agora no fim de maio. E vamos supor que ele soubesse correr e quisesse fazer um pedal forte, porém, ainda possível de se correr bem. Para profissionais desse nível, o IF (Intensity Factor) fica na casa de 0.8, isto é, 80% do esforço na etapa de ciclismo. Se Floripa tivesse um vento médio de 12km/h, que é o que normalmente acontece lá, esse senhor faria um pedal de 4h03 lá e teria um TSS (Esforço fisiológico real no corpo) de 259 pontos. Ou seja, ele faria este tempo e ainda ficaria dando risada para correr, já que não é incomum os profissionais atingirem um TSS na casa de 290 pontos. (Acima de 300 é quase certeza de andar na maratona). 

Então, vamos supor que ele pense como o Luke McKenzie pensou em Kona ano passado, isto é, "vou fazer uma força animal na bike porque tem muito corredor bom" e coloque um IF de 0.83 (que foi o que o Luke colocou em Kona). O Sr. Wiggins faria o pedal de Floripa para 3h58 e ainda estaria apto a correr com um TSS de 273.

Agora, vamos supor que ele pense "eu nem vou correr, vou quebrar o recorde do circuito de bike aqui pra ficar pra história e depois eu capoto". Aí, provavelmente ele iria coloca um IF de mais de 0.9. Mas, vamos supor que ele coloque 0.9. Bem, ele faria o pedal de Floripa para 3h48 e morreria na T2 com um TSS de 307.

3h48!!!!

Bem, aqui dá para perceber nitidamente que a diferença entre os ciclistas profissionais e os triatletas é exatamente a mesma entre os mesmos triatletas e quenianos de maratona de 2h04. Apenas para terem uma base, caras como Galindez, Santiago, devem ter na casa de 370/380W de FTP. Todos nós conhecemos o ciclismo deles e eu aposto que mesmo que eles não corressem depois, dificilmente eles conseguiriam fazer um ciclismo abaixo de 4h10 ali.

Incrível esse tal Sr. Wiggins.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dia das Mães no Rei da Montanha: Relato






Mais uma prova de montanha. Desta
vez em uma data especial: no dia das mães.

O interessante é que minha mãe vai sempre assistir minhas provas de triathlon, mas nunca foi assitir uma prova de corrida. É uma experiência legal porque dá uma outra dimensão para a pessoa avaliar os esportes de endurance. O tipo de galera é outro, o clima é outro e os "grandes nomes" são outros. Corrida é corrida, como bem sabemos. É uma galera mais desencanada e mais bem humorada que a do triathlon. Acredito que seja um clima mais legal para levar família.

A minha sensação ao fim desta prova quanto à peroformance pessoal foi média. Não corri mal, mas confesso que saí com o gostinho de quero mais. Decididamente eu não estava devidamente treinado para esta prova. Não estava nem de perto treinado para o nível dos adversários ali. A impressão que eu tenho é que está havendo uma migração dos corredores de rua para a montanha e o nível destas provas vem subindo à cada edição. Não está raro encontrar atletas que costumavam ficar entre os três primeiros nas edições passadas e, de agora em diante, para conseguirem ficar entre os 10 ou 20 primeiros está uma tarefa árdua. Na largada, olhando para um lado e para o outro, é exatamente esta impressão que impera.

Além disso, depois das três provas que tive em março (GP Extreme de Triathlon, Ultramaratona Soloman e Igaratá 23k), fiquei um tanto demolido e tive que dar um tempo de treinamentos insanos, tanto de bike quanto de corrida devido a uma fadiga do músculo sóleo (panturrilha). Para piorar um pouco, entrei em uma fase de periodização de natação. Na semana passada nadei 25.000, algo que nunca tinha feito até então. Pedalei e corri uma vez só na semana e mesmo assim muito leve. Enfim, nas últimas 3 semanas, fiz uns 3 ou 4 treinos chave de corrida intensos e apenas um mais longo de 24k em montanha específico para esta prova. Nada suficiente para uma prova que se pretende fazer força do começo ao fim duelando com atletas desse nível.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

As condições do Ironman Fortaleza




Como todos já devem saber, o Ironman ganhou um irmão mais novo aqui na América do Sul. O Ironman Fortaleza.

Apesar de todas as reclamações que eu tenho sobre a "marca" Ironman e a Latin Sports, algumas coisas me parecem mais atraentes nessa prova. 

A primeira delas é que não existe, pelo menos por enquanto, aquela coisa antipática de ter que ficar disputando cabeça a cabeça uma inscrição no dia da abertura, como ocorre em Florianópolis. Todo mundo de madrugada conectado no site para poder garantir "seu lugar ao sol". Não posso acreditar que sou só eu que se incomoda com isso. 

Não sei bem ao certo o porquê de no Ironman Fortaleza isso não estar acontecendo, mas tenho alguns palpites: é a primeira versão da prova e os atletas estão receosos de arriscar; ou, quando a prova foi anunciada, muitos já estavam inscritos no Ironman Florianópolis e resolveram ser mais cautelosos por razões de treinamento ou custos; ou, a dificuldade da prova ter espantado boa parte dos triatletas, principalmente os mais novatos. Talvez, seja um somatório de tudo isso.

A outra coisa que atrai é a época (pelo menos para mim). É melhor para a cabeça, começar a treinar com o clima um pouco mais frio e ir ficando mais quente conforme a prova vai chegando, motivando mais do que o inverso, como acontece para se treinar para Floripa. Nadar em água aberta começa a ficar um martírio. Até para sair da piscina à noite, tem que se agasalhar. Os ciclismos mais longos são feitos muitas vezes em climas frios, enfim.

A outra característica legal é a dificuldade da prova. E é esta "comparação" que estou me propondo a fazer neste post em relação à Floripa.