sexta-feira, 2 de maio de 2014

As condições do Ironman Fortaleza




Como todos já devem saber, o Ironman ganhou um irmão mais novo aqui na América do Sul. O Ironman Fortaleza.

Apesar de todas as reclamações que eu tenho sobre a "marca" Ironman e a Latin Sports, algumas coisas me parecem mais atraentes nessa prova. 

A primeira delas é que não existe, pelo menos por enquanto, aquela coisa antipática de ter que ficar disputando cabeça a cabeça uma inscrição no dia da abertura, como ocorre em Florianópolis. Todo mundo de madrugada conectado no site para poder garantir "seu lugar ao sol". Não posso acreditar que sou só eu que se incomoda com isso. 

Não sei bem ao certo o porquê de no Ironman Fortaleza isso não estar acontecendo, mas tenho alguns palpites: é a primeira versão da prova e os atletas estão receosos de arriscar; ou, quando a prova foi anunciada, muitos já estavam inscritos no Ironman Florianópolis e resolveram ser mais cautelosos por razões de treinamento ou custos; ou, a dificuldade da prova ter espantado boa parte dos triatletas, principalmente os mais novatos. Talvez, seja um somatório de tudo isso.

A outra coisa que atrai é a época (pelo menos para mim). É melhor para a cabeça, começar a treinar com o clima um pouco mais frio e ir ficando mais quente conforme a prova vai chegando, motivando mais do que o inverso, como acontece para se treinar para Floripa. Nadar em água aberta começa a ficar um martírio. Até para sair da piscina à noite, tem que se agasalhar. Os ciclismos mais longos são feitos muitas vezes em climas frios, enfim.

A outra característica legal é a dificuldade da prova. E é esta "comparação" que estou me propondo a fazer neste post em relação à Floripa.


Não que Floripa seja fácil. Nenhum Ironman é. Acho estranho alguém falar que "Floripa é fácil", chegar lá e não fazer força. Ou então fala que "Floripa é fácil", chega lá e fica 180km no vácuo. Faça força, coloca a cara no vento e vai ver como é difícil rsrs. Entretanto, o Ironman Fortaleza tem algumas características que provavelmente farão o tempo da prova dilatar e muito, exigindo que os atletas estejam mentalmente mais preparados.

A primeira parte a se analisar é a natação. Quais são as dificuldades de Floripa? Tem ano que o mar do Jurerê se transforma e as ondas e correntezas são sofríveis, mas é raro. Além disso, tem a temperatura. Quem não gosta de água gelada, nada com os braços duros e sai um tanto hipotérmico. Em compensação, nadar de roupa de borracha é um alívio para quem tem uma natação mais deficiente. Os tempos ficam consideravelmente menores. Em Fortaleza, a água será quente. No entanto, as correntezas certamente serão mais fortes. Além disso, nadar 3800m sem roupa é algo que exige-se um treino diferente. 

Acredito que de forma geral, o wetsuit ajuda o atleta na casa de 5s a 10s a cada 100m, dependendo da natação dele. Quanto mais treinado, menos a roupa ajuda. Acredito que chutar um número de 5 minutos a mais na natação é algo justo nesse caso.

Na bike a brincadeira começa a ficar engraçada. A prova não será plana. Nem tão pouco terá uma altimetria elevada. Será parte plana e parte os famosos "rolling hills" moderados. Mas, o vento será algo simplesmente sem comparação ao que normalmente há em Florianópolis.

Fiz uma análise. Levantei o histórico de vento do ano de 2013 todo, mês a mês e, na sequência, tomei o mês das respectivas provas (Floripa, em maio e Fortaleza, em novembro) e fiz dia a dia. As duas figuras abaixo tem os resultados. (Clicar para ampliar)


Vento de Fortaleza
 No primeiro gráfico respectivo de cada cidade, mês a mês, é utilizada uma unidade de medida chamada Bft. Ela se refere à Escala de Beaufort. Reparem que em Floripa, no mês de maio 6% dos dias estão na casa de 4Bft e 45% na casa de 3Bft. O restante, é na casa de 2Bft ou menos.
Em Fortaleza, no mês de novembro, 73% do tempo foram ventos na escala de 5Bft e o restante na casa de 4Bft.

Para terem idéia:
-2 Bft: ventos de 6 a 11km/h
-3 Bft: ventos de 12 a 19km/h
-4 Bft: ventos de 20 a 28km/h
-5 Bft: ventos de 29 a 38km/h

Bem, para quem pedala, sabe o que é muito bem pegar um mísero vento de 10km/h. É aquele que já ficamos de saco cheio de lutar contra. Um vento de mais de 30km/h é capaz de tirar 10km/h de velocidade de um atleta que já está lento em um vento contra de 10km/h. E este também já tira uns 6km/h do atleta que estaria sem vento (analisando um atleta de 70kg, com bike e posição aero, no plano e colocando 200w nos pedais)

Reparem que se a prova tivesse ocorrido ano passado no dia 10/11, o vento estaria entre 29 e 33km/h na hora em que normalmente os atletas estão na bike! Em Floripa ano passado o vento variou de 2km/h a 9km/h, mas foi um ano atípico com um vento brando. Normalmente fica na casa de 10km/h a 14km/h. Ainda assim, é menos da metade da intensidade de Fortaleza.

Apenas para efeito de comparação, um atleta em Floripa, com um vento médio de 6km/h (vento de 12km/h, mas dividi por 2 porque metade do tempo ele está a favor, metade contra), 70kg em bike TT, posição aero e sem pegar vácuo, imprimindo 200w nos pedais, teria uma prova na casa de 5h20. Se pegarmos exatamente as mesmas condições em um vento médio de 15km/h (metade de 30km/h), teríamos 6h17 de prova! Fico imaginando quando este mesmo atleta estiver contra o vento constante de, por exemplo, 33km/h, durante toda uma perna do ciclismo, a uma velocidade de 20.2km/h com os mesmos 200w, o que se passará na cabeça dele durante aquelas horas... Não há dúvidas que saber se dosar no pacing e saber se controlar psicologicamente será a diferença nessa prova.

Na corrida, temos dois inimigos. Mais uma vez, o vento, e o calor. O primeiro não influencia a corrida como o ciclismo, mas influencia. E, dependendo do vento, não é pouco não. Este artigo, mostra que a resistência do vento em um corredor se coloca em uma função ao quadrado. Isto é, o desgaste de se correr contra um vento de 10km/h não é o dobro de se correr a um vento de 5km/h, mas quatro vezes pior! Se pegarmos o mesmo exemplo da bike acima (12km/h para Floripa e 30km/h para Fortaleza), teremos um vento proporcionalmente 6,25x pior. Pelo menos na parte que corremos na orla. Isto sem contar que em Floripa, nunca corremos na orla, mas na avenida principal de Jurerê, em Canasvieiras e por dentro do bairro. A ação do vento diminui consideravelmente. Até onde eu sei, boa parte do circuito de corrida será na orla em Fortaleza.

Apenas a título de ilustração, seguindo o artigo mensurado acima, um vento razoável, a aproximadamente na mesma velocidade de que o atleta está correndo (vamos supor 12km/h de vento e 5min/km o pacing do atleta), fará com que este mesmo atleta corra a 5:08min/km com o vento contra, mas só ajudará a metade, quando ele estiver à favor, isto é, 4:56min/km. Uma perda geral de 4s por km em uma prova hipotética homogênea com metade do tempo o vento contra e metade à favor. Mas não estamos falando de um vento de 12km/h, mas de um de 30km/h! Neste caso, se não me engano nas contas, o mesmo atleta que estaria correndo a 5min/km vai correr a 5:50min/km! E na volta, 4:35min/km. Isso mesmo! O vento só ajuda metade quando está a favor em relação ao que ele atrapalha quando está contra! Vamos supor que 30km da prova da maratona seja feita na orla, com idas e voltas, sofrendo toda a ação do vento, e o restante por dentro da cidade, com o vento sendo amparado pelos prédios. Ainda assim, este mesmo atleta que faria uma maratona a 3h30 com o ritmo de 5min/km, faria, com o mesmo esforço para 3h40!

É claro que eu não estou contando os ventos que são laterais, que não estão nem nos atrasando, nem nos empurrando. Talvez este seja a predominância do vento, inclusive. O mundo aqui fora é diferente de um laboratório com variáveis controladas. Mas, serve como estimativa.

A parte legal disso é que um atleta que corre a 1 metro do corredor da frente, tem um ganho de 80% na resistência do ar e de 6% de seu consumo de oxigênio! Talvez, Fortaleza seja a prova onde os comentários pós prova sejam referentes ao vácuo NA CORRIDA! rsrsrs.

O calor será outro fator impactante. Enquanto Florianópolis a temperatura fica na casa média diurna de 20o no mês de maio, Fortaleza temos 29o. E, com o vento, provavelmente este calor será mascarado, dando a falsa sensação de que está "tudo bem" enquanto o atleta se desidrata. Apesar do calor, não duvido que o vento seja um fator ainda pior na corrida do que a própria temperatura.

Fazendo uma estimativa bem "chutada", acredito que os tempos em Fortaleza se dilatarão entre 1h e 1h30 em relação à Florianópolis e o índice de desistências será muito maior. Não sei o que acontecerá no ciclismo em relação ao vácuo. Se ele já é injusto com 12km/h, imaginem a 30km/h. Aquele famoso "vácuo legalizado" de distância permitida de 10m terá uma influência muito maior do que no Ironman de Floripa. O primeiro de um suposto pelotão terá ainda maior dificuldade de se livrar dos sangue-sugas, pois a potência exigida nos pedais precisará ser absurdamente maior. Se a organização não estiver alerta com uma fiscalização decente, presenciaremos mais um show de horror. Vamos torcer para que isso não aconteça.

Esta prova tem tudo para se tornar um marco no triathlon brasileiro. Vai depender da Latin Sports, dos atletas e dos cidadãos de Fortaleza não ofuscar o seu brilho.