segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dia das Mães no Rei da Montanha: Relato






Mais uma prova de montanha. Desta
vez em uma data especial: no dia das mães.

O interessante é que minha mãe vai sempre assistir minhas provas de triathlon, mas nunca foi assitir uma prova de corrida. É uma experiência legal porque dá uma outra dimensão para a pessoa avaliar os esportes de endurance. O tipo de galera é outro, o clima é outro e os "grandes nomes" são outros. Corrida é corrida, como bem sabemos. É uma galera mais desencanada e mais bem humorada que a do triathlon. Acredito que seja um clima mais legal para levar família.

A minha sensação ao fim desta prova quanto à peroformance pessoal foi média. Não corri mal, mas confesso que saí com o gostinho de quero mais. Decididamente eu não estava devidamente treinado para esta prova. Não estava nem de perto treinado para o nível dos adversários ali. A impressão que eu tenho é que está havendo uma migração dos corredores de rua para a montanha e o nível destas provas vem subindo à cada edição. Não está raro encontrar atletas que costumavam ficar entre os três primeiros nas edições passadas e, de agora em diante, para conseguirem ficar entre os 10 ou 20 primeiros está uma tarefa árdua. Na largada, olhando para um lado e para o outro, é exatamente esta impressão que impera.

Além disso, depois das três provas que tive em março (GP Extreme de Triathlon, Ultramaratona Soloman e Igaratá 23k), fiquei um tanto demolido e tive que dar um tempo de treinamentos insanos, tanto de bike quanto de corrida devido a uma fadiga do músculo sóleo (panturrilha). Para piorar um pouco, entrei em uma fase de periodização de natação. Na semana passada nadei 25.000, algo que nunca tinha feito até então. Pedalei e corri uma vez só na semana e mesmo assim muito leve. Enfim, nas últimas 3 semanas, fiz uns 3 ou 4 treinos chave de corrida intensos e apenas um mais longo de 24k em montanha específico para esta prova. Nada suficiente para uma prova que se pretende fazer força do começo ao fim duelando com atletas desse nível.


"Acordei" 4hs da manhã. Coloquei entre aspas porque eu nunca "acordo" antes de prova. Simplesmente porque não durmo rsrsrs. Não tem nada a ver com a importância, dimensão da prova, mas sim com o senso de responsabilidade, não esquecer nada, essas coisas. Não sou assim apenas em vésperas de prova, mas em muitas outras circunstâncias que exigem preparo em minha vida. Se tiver algum psicólogo de plantão que me ajude com isso, entre em contato, por favor rsrs.

Passei na casa da minha mãe por volta de 5:45. Como sempre, ela já estava pronta e preparada. Esta, sem dúvida, é uma característica que puxei dela rsrs.

A parte boa de se participar de provas de corrida é que o nível de nervosismo comparado à uma prova de triathlon é quase nulo. Provas de triathlon tem muita coisa para se lembrar, muita coisa para se preocupar na logística inicial, o que acaba aumentando ainda mais a ansiedade. Provas de corrida não tem muito segredo. É uma roupa apropriada, alguma coisa de carbo e eletrólitos dependendo da duração e fim.

Falando em roupa apropriada, desta vez eu estava com dois itens diferentes. Uma meia de compressão que não costumo usar nunca, mas que devido ao impacto de provas de montanha e o estrago que me fizeram nas panturrilhas na última edição do Igaratá 23k, resolvi experimentar. Decisão de longe super acertada. Item básico agora de qualquer corrida desse tipo. O outro item foi o tênis. Como na Ultramaratona de Montanha Soloman de 53k e no Igaratá 23k eu fui com tênis de corrida de rua, baixinho e sofri demais com cascalho, pedras pontiagudas e descidas, saindo com o pé em frangalhos em ambas as provas, percebi que precisava de algo mais robusto. Comprei um Salomon Fellraiser. Fiz uma corrida leve aqui na semana passada de 40min pelas ruas de terra para me adaptar e fui para a prova esperando as mesmas circunstâncias. Até agora, estou avaliando se foi uma decisão acertada ou não. Antes da largada, não vi ninguém com tênis de trilha. Esta prova do Rei da Montanha de Sabaúna é uma etapa relativamente rápida para ser em montanha. Não que a altimetria não seja elevada. Ela é, mas não chega perto das outras duas provas que tive como experiência (o que para mim é péssimo, já que já reparei que quanto pior a altimetria, eu me dou melhor). Além disso, quase não tinha nenhum trecho de cascalhos ou pedras pontiagudas. Eram trechos convencionais de terra batida com alguns pedriscos e o Salomon era um tênis um tanto pesado para este tipo de circuito se comparado a tênis de menos de 200g que costumo usar. Em compensação, não sabia o que era usar um tênis confortável assim há muitos anos rsrsrs. Mesmo depois da prova, meu pé estava novo, minha panturrilha nova, meus quadris ótimos (mesmo hoje no dia seguinte da prova). Muito diferente do "caminhão" que me atropelou nas últimas duas provas. Não tenho a menor dúvida que muito disso teve a ver com o tênis que realmente é feito pra te preservar. Em provas com relevos mais acidentados e com maior distância, não tenho dúvidas que este tênis será mais do que necessário. Para provas de meia distância (até 21k) e com chão batido, sem pedregulhos, acho que tenis de corrida convencionais são mais apropriados.

Chegamos no distrito de Sabaúna com duas horas de antecedência. Precisava pegar o kit, não sabia como ia ser. O distrito é quase uma vila. Bem simpático por sinal. O clima da prova estava dos melhores, asistimos algumas largadas do "Reizinho da Montanha", a prova da criançada. Bem legal.

























Depois de algum tempo ali percebi que a cor do número de cada corredor representava a prova que ele iria fazer. Havia a prova de 3k, 7k, 14k e 21k. A de 21k era a numeração amarela. Aí, enquanto eu circulava e aquecia, já dava para saber com mais facilidade quem seriam realmente os atletas dos 21k

A primeira largada era dos 21 e 14k. Em algum lugar no meio do caminho o pessoal do 14k tomaria outro rumo e em algum outro momento, o pessoal do 21k encontraria novamente o pessoal do 14k (ou dos 7km, até agora não entendi).

Era para ter três pontos de hidratação. No km5, no km10 e no km14. Em princípio, mais do que suficiente. Estava levando um carboidrato e a idéia era tomar ou no km10 ou no km14, dependendo da situação ali.

Dada a largada, o já esperado. Galera largando muito forte. Como tinha o pessoal de 14k ali também, eu não queria me confundir e me basear no pacing de gente que iria correr 7km a menos do que eu. O Anselmo Espingarda, que eu havia encontrado ali na largada, era uma referência, já que ele conhecia aquela prova melhor do que eu e na última prova de Igaratá corremos boa parte do circuito juntos, com boa parte do circuito ele na minha frente. Só que logo no primeiro km da prova eu percebi que conforme eu continuava no ritmo dele, muita gente nos passava. Eu não sabia ao certo qual era a sua estratégia. Não sabia se ele estava ali aquele dia só para curtir e não fazer força ou se ele queria se poupar para chegar mais inteiro e correr melhor no fim. Esta dúvida momentânea me deixou um tanto na dúvida na hora e resolvi apertar logo no começo. Já tinha um grupo grande de atletas que estava mais a frente e eu não queria perdê-los de vista. Nas primeiras subidas, já comecei a deixar alguns para trás. Um bloco que estava à frente, que eu ainda tinha no meu raio de visão, começou a se dispersar e a prova ficou um tanto "linear", ou seja, os corredores começaram a correr sozinhos espaçados um do outro por uns 30 metros. Como uma fila indiana. O problema é que eu não sabia quem estava na prova dos 14k e quem estava na prova dos 21k. Esta é uma sensação ruim. Não sabermos exatamente quem são nossos adversários. A sorte (ou azar) é que tinha um cara na minha frente que eu sabia que era do 21k que corria muito bem. E ele acabou sendo a minha referência. Ele não abria de mim, nem tão pouco eu me aproximava. Mas, percebi que indo no ritmo dele, estávamos correndo ligeiramente mais rápido do que os atletas que estavam à frente, nos aproximando, e nos distanciando dos atletas que vinham de trás. Não poderia ser melhor.

No km5 a idéia já era tomar uma água. Primeira gafe da competição da prova. Eles esqueceram que a prova tem centenas de pessoas, mas existe um grupo da frente que também precisa de água. Simplesmente os staffs responsáveis pela água haviam acabado de chegar ao posto. Ou seja, passamos por lá e eles ainda nem haviam aberto as caixas com os copinhos d'água. Lamentável. Mas, nada que também fosse nos parar. Estávamos bem hidratados. Pelo menos até o km 10....mas, adivinhem...no km10, pelo que pude perceber, também era um lugar onde parte dos atletas ia para a direita (21k) e parte reto (não sei bem se o pessoal do 14k ou do 7k, só via placa do 21km indicando pra direita). Existia sim um pessoal com água ali, mas totalmente mal posicionados. Só percebi que tinha passado por um posto dágua porque vi uns copinhos no chão. Era um ponto de confusão na prova. Essa galera organizadora de prova precisa entender que quando os atletas estão correndo, sobra oxigênio nos pulmões, mas falta no cérebro. A coisa precisa ser fácil o suficiente para que apenas dois neurônios que estão ativos naquele momento sejam capazes de tomar decisões.

Durante a prova percebi claramente que eu estava subindo bem, descendo bem (uma novidade até então) e correndo mal nos planos. Estou analisando ainda o porquê disso, mas eu atribuiria esta "culpa" a falta de treino específico e ao tênis novo que eu não estava adaptado.

Comecei a ficar preocupado com a hidratação. Pensei "e se no km14 não tiver nenhum posto? vou sobreviver?" Eu estava com carbo, mas este era o que menos me preocupava. Tinha jantado bem e tomado um bom café da manhã. Tomado dois Gatorades antes da largada, enfim, carbo eu tinha. Mas hidratação é algo que quebra em qualquer prova. Por sorte, estava lá a hidratação. Diminui drasticamente o ritmo a ponto de quase andar para conseguir tomar um copinho de 200ml inteiro. Desencanei do carbo, vi que não iria me fazer falta. Aqueles 200ml foi o único líquido que coloquei para dentro do corpo durante a prova. A sorte é que estava uma temperatura amena então, não posso dizer que isso foi crucial. Mas se tivesse mais de 30o, certamente isso ia ser algo determinante.

A dinâmica da prova ainda estava a mesma. Eu me baseando no atleta da frente, me distanciando cada vez mais dos de trás e chegando nos da frente, até que um atleta de camisa amarela fosforescente começou a ficar mais próximo. Neste momento, reencontramos o pessoal que estava fazendo a prova de 14km ou de 7km. Não sei ao certo. Só sei que o circuito que tinha poucos atletas no raio de visão ficou lotado de repente. Isso dificultou um pouco a identificação dos atletas que estavam "no jogo". Lá pelo km18, eu passei um atleta que estava reclamando: "Porra, onde era para entrar no km14?". Realmente, ali eu me dei conta. Eu vi em vários momentos placas de "21km" para que o pessoal desta prova seguisse com o caminho. Realmente, não tinha como errar. Mas, não vi em nenhum momento o ponto onde tinha que entrar para quem estava fazendo a prova do 14km. O que me leva a crer que tinha um monte de atleta do 14km que passou a entrada e estava fazendo o percurso do 21km. Lamentável.

O atleta da frente simplesmente resolveu apertar o ritmo no final e abriu. E eu comecei a me aproximar do atleta de camisa fosforescente que eu via no meu raio de visão a prova toda, mas bem mais à frente. Quando já entramos no paralelepípedo, faltando menos de 500m para o final, emparelhei com ele e vi que era o Diego, da Força Vegana. Dei a mão pra ele e disse: "Vamo chegar junto nessa porra". Começamos a correr forte e ele com mais perna do que eu chegou uns 5 segundos à minha frente! Tinha que ter essa emoção no final, se não seria muito chato rsrsrs. Tá correndo o moleque rsrsrs.

Fui lá, dei um abraço de dia das mães e fui me recompor. Estava completamente desidratado.



Depois de reomposto, encontrei o pessoal da Força Vegana! Legal encontrar pessoas que só conhecemos pela Internet. Ficamos um tempo conversando ali, mas minha mãe estava lá em pé, aguardando a premiação, então fui lá com ela.

Eu não sabia como seria a premiação. A prova estava confusa, sem sabermos ao certo quem ali estava na prova de 21k e quem estava na prova de 14k, ou mesmo na prova de 7km. Então, eu não tinha ideia se daria para beliscar um pódio. Quando eu vi o pódio geral dos 14k, não entendi nada. Acho que todos que estavam ali em cima eu tinha passado durante o momento inicial da prova. Será que eram atletas que estavam no 14k e acertaram o caminho enquanto outros que estavam na frente deles erraram? Não posso afirmar isso, mas não duvido que tenha acontecido. Quem eram então aquele monte de atletas que estava a minha frente? Será que eu tinha corrido mal e 50 atletas do 21km tinham chegado na minha frente? Ou será que a dinâmica destas três provas foi tão confusa que acabou dando uma impressão estranha para quem estava correndo ali? Eu cheguei na frente de caras bons como o próprio Espingarda e outros, então, difícil acreditar que muitos atletas do 21km tinham chegado na minha frente. Quando foi chamado o pódio geral formado pelos 5 primeiros atletas, eu vi que realmente aquela prova tinha tido muita gafe em algum ponto. Sem contar o Zé Virgílio e o Navarro, que fizeram um show à parte, os outros três eu vi na prova e não estavam tão longe assim. Então, eu sabia que eu estava ali entre os 10 primeiros. e daria para beliscar um pódio. E foi o que aconteceu. 

O Luciano, que pegou primeiro na categoria 30-39, corre muito e é uma figura de humor rsrs. Parabéns a ele. Fiquei em segundo e o Espingarda em terceiro na categoria. Ainda não tenho o resultado oficial da prova, então não sei o resultado geral.

O Diego da Força Vegana também pegou segundo em sua categoria. O idiota aqui não parou o relógio depois que cruzei a linha de chegada, então, não sei quanto tempo eu fiz. Mas tenho uma foto que minha mãe tirou que mostra 1h31 no placar. Deve ter sido isso.



No final de tudo, o que dizer? Curti a prova e o dia. Saímos de lá, fomos para Mogi das Cruzes almoçar em um restaurante vegetariano chamado Vegê, muito bom por sinal. Comi muito rsrs. Passamos em Guararema na volta para ver a cidade e passei o resto da tarde com minha mãe comendo e tomando um vinho para comemorar o Dia das Mães. Sem dúvida, um dia especial e diferente.

Não poderia deixar de agradecê-la pelo momento e também o meu eterno apoiador, o Santa Pimenta. Mais um trofeuzinho para a estante!

Força Vegana!