terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O início de 2014 - a ressaca






Bem, ó último post que eu fiz foi antes do Ironman Fortaleza em novembro. Acho que estou devendo escrever algo. Gosto do meu blog, apesar de achar que a exposição tem sido demasiada. Mas, o que posso fazer? Gosto de escrever aqui.

Ironman Fortaleza? Bem, quebrei. Fisicamente e mentalemente. Não há muito o que falar. Eu estava razoavelmente treinado. Nadando mal, pedalando e correndo bem. Não estava super treinado, nem pouco treinado. Estava, para resumir em uma palavra, bem. Estava com uma tendinite no tendão de aquiles, que me matava de dor fora de treinos, mas não doia quando estava quente. Então, não foi ela que teve algo a ver com isso. Desconfio que fui pra essa prova com um início de sinusite. Como nunca tive, nem sabia como era. Depois da prova, ela atacou bravo e tive que me tratar com antibióticos. Só que os sintomas já estavam aparecendo na fase de pico do treinamento. Aquilo me atrapalhou? Bem, soa como desculpa esfarrapada, mas acho que exerceu uma certa influência. Foi ela dfinitivamente que me tirou da prova? Não, não foi.

O que me tirou da prova foi uma falta de motivação absurda que eu já estava carregando há muitas semanas antes de prova e dentro dela. Como já disse no post anterior, eu não gosto de treinar para Ironman. Realmente não gosto. Não gosto de treinar em intensidades moderadas por horas e horas a fio. Tenho que, antes de mais nada, ser sincero comigo mesmo. Seguir o "script" já estava sendo um martírio. Existe sim o "eu adoro treinar", como muitos que me conhecem sabem, mas ela vai até a página três. (Sim, sim...página dois é pouco rsrsrs). Este blog, inclusive, é uma fonte de motivação pra mim. Discutir sobre triathlon nas redes sociais é uma fonte de motivação para mim. Mas mesmo assim, temos que sair e treinar...

O meu primeiro semestre de 2014 foi bom. Três provas de corrida de montanha com resultados sensacionais, um GP Extreme com 1o lugar na categoria, mesmo que quebrado, enfim. Estava longe de estar mal. Só que este negócio de ter que se inscrever em uma prova de Ironman com muitos meses de antecedência é muito complicado. Não sabemos como estaremos de saúde, motivação, problemas pessoais e uma série de outros fatores que permeiam a vida comum. Se eu pudesse prever o futuro e saber como estaria minha cabeça em setembro/outubro de 2014, eu certamente não teria feito a inscrição na prova. 

Eu adoraria fazer a inscrição para um Ironman com dois meses de antecedência. Estamos treinando consistentemente? Estamos motivados? A rotina está encaixada? Estamos tendo prazer em treinar? A saúde está ok? Estamos fortes, com baixo percentual de gordura, bem humorados, hormônios em dia? Estamos com grana? Nada de imprevisto financeiro aconteceu? Vai lá e faz a inscrição!!! Fora isso, esta antecedência toda, que para muitos serve de estímulo, para mim é uma fonte de estresse.

Quanto à prova, eis o breve relato: a natação foi traumática. Muito porque eu não estava treinado para aquilo e muito porque eu não consegui nadar antes de prova para pegar as referências de direção, me localizar naquele mar agitado, enfim. Me perdi, me fadiguei demais, saí da água exausto.

Pedalei bem. Dentro do que havia treinado. Mas, se eu pudesse voltar no tempo, teria pedalado mais fraco. Fiz pelo menos uns 4 treinos chave com a potência de prova, no calor daqui do interior de SP, mas, por algum motivo, 2+2 não foram 4 nesta prova. O calor era diferente, a natação anterior havia me destruído, a minha cabeça queria desistir o tempo todo. Me hidratei muito, cheguei a fazer um xixi clarinho lá pelo km 120, enfim. Mas, como não poderia deixar de ser diferente, a potência caiu bastante nos últimos 30km. Estava segurando uma média próxima a 230w de NP. Com 68kg que eu estava nessa prova e 1,75 de altura, certamente eu estava entre os melhores pedais amadores da prova. Mesmo dando uma quebrada, comecei a segurar algo como 210w nos últimos kms. Chguei na T2 e meu relógio marcava 4h59 de pedal. Naquele circuito, naquele vento, com uma prova justa, sem vácuo, foi excelente. Só que...

Ao sair para correr, já senti que a coisa ia ser feia. Muito cansado mesmo, tentando encontrar o ritmo e tentando a todo custo me refrescar. Peguei sacos de gelo, coloquei no macaquinho. É muito, mas MUITO frustrante tentar emplacar um ritmo logo no início da corrida de um Ironman e não conseguir. Nunca mais, inclusive, corro com GPS em uma prova onde o desconhecido é o fator principal. Não tenho dúvidas de que se eu tivesse pedalado a uns 10w a menos e tivesse controlado o início da corrida apenas na percepção de esforço, teria corrido muito melhor. Arrisquei. Devia ter sido mais conservador. Faz parte do aprendizado.

Nessas horas, o número de vezes que se passa a pergunta "o que estou fazendo aqui?" na cabeça não está escrito. Até chegar uma hora que realmente eu desisti de sofrer. Estava cansado, bem cansado, destruído, mas daria para ter terminado aos trancos e barrancos, como muitos fizeram. Minha cabeça simplesmente não permitiu. No km 9, simplesmente parei de correr. Caminhei 5kms até onde estava a minha mulher, na chegada, e ali desisti de vez. Neste imenso tempo de caminhada, muitas reflexões invadiram minha cabeça e minha alma. 

Alguma coisa, nos esportes de endurance, deve nos mover. Ou algo maior do que nós mesmos, ou mesmo alguma coisa ligada ao próprio ego. Mas, percebi que nada mais me movia. Aquela famosa questão de tentar encontrar algum sentido naquilo tudo e não encontrar. Por mais que cavocasse e tentasse me convencer de algo. Durante um tempo pensei que aquela fosse uma sensação momentânea, que estava invadindo a minha cabeça apenas naquela breve ocasião. Mas não foi. Diferente de outras vezes, ter parado ali e andado, desisitido de mim mesmo, foi um alívio! Realmente tenho dificuldades de explicar a sensação. Não tinha vontade de chorar, de ficar infeliz. Tinha vontade de apenas parar em um quiosque com minha mulher e tomar uma cerveja rindo de alguma coisa idiota. Uma sensação de que eu estava precisando de um tempo como atleta e que aquele tempo não podia esperar mais 3 horas de corrida. Tinha que ser AGORA! Ponto. Foi quase uma sensação de libertação.

E assim estou até agora. Uma sensação que já dura mais de dois meses e não estou vendo ela ir embora tão cedo.

Neste final de ano, curti, saí, bebi. Como não fazia há anos. Como estou tentando me curar da tendinite, não posso correr. Mas me mantive nadando meia-boca, pedalando meia-boca e musculando como gente grande. Puxei ferro como não fazia há anos. Em menos de dois meses eu já estava com 73kg entre músculo e banha, minha cara estava OUTRA. Sem olheiras, disposto, bem humorado, energético. Muito, mas muito mais feliz do que estava nos meses que antecederam o Ironman. Aliás, uma sensação que não sentia a tempos. Sorridente, piadista, humorado. Tudo me leva a crer, portanto, que o triathlon é um esporte altamente destrutivo e que precisa de muito critério para treiná-lo. Principalmente para quando já vamos chegando aos 40 anos e quando não tomamos GH nem testosterona, como fazem muitos. Aí, a coisa fica "fáci".

Me sinto vivo. Bem, feliz e saudável. Já havia me acostumado com a fadiga, a falta de humor, as dores e à falta de energia como se fossem coisas "normais". Não são.

A sensação que eu tenho agora é de querer ir pra academia muscular e fazer aula de spining com zero pretensão. Fazer uma dieta excelente, como sempre, beber umas cervejas no final de semana. Isto seria suficiente para me manter feliz, pelo menos por enquanto. No entanto, não creio que conseuirei ficar muito tempo longe das provas e dos treinamentos mais severos. Talvez fique um bom tempo longe das distâncias Ironman. Explorar outras distâncias, outras provas menores que possamos fazer inscrição no dia anterior e irmos sem gastar dinheiro com hotel, avião, etc. 

A etapa que estou agora é de "voltar a ser feliz no esporte".

Mesmo assim, gostaria de agradecer à três apoiadores que fazem a diferença: o Santa Pimenta, na figura do Marcelo Espinha, O My Place Office, na pessoa do André Chusyd, e ao melhor fisioterapeuta do Brasil, Carlos Roberto Mó. Sem essa galera aí, ser atleta seria muito mais difícil. 

Ulisses