segunda-feira, 15 de junho de 2015

SOU CONTRA O EXAME DE ANTI-DOPING






Calma! O título é apenas para chamar a atenção para uma conclusão a que cheguei depois de alguma reflexão.


Explico.

Para quem é amante do esporte e, principalmente, compete em um, é relativamente comum termos "atletas referência". São aqueles atletas que tem uma performance semelhante à nossa, um pouco pior, um pouco melhor e que, ao longo dos anos vamos "marcando" para avaliarmos nossa própria performance e evolução. É bem sabido que tempo de conclusão em provas de endurance não querem dizer muita coisa muitas vezes, pois muitos são os fatores que podem interferir: clima e relevo sendo os mais expressivos (em uma prova justa onde não houve vácuo).

Portanto, termos atletas referência nos fazem ter uma real dimensão de quão fácil ou quão difícil foi a prova. Até mesmo em provas que não estamos, queremos saber como aproximadamente nos sairíamos se lá estivéssemos. Estes atletas referências não necessariamente precisam ser da mesma categoria, nem tão pouco do mesmo sexo. Nem necessariamente precisam ser de performances idênticas ou precisamos conhecer pessoalmente. Podem ser relativamente inferiores ou superiores. O que importa é que eles são uma "referência", para pouco mais, pouco menos ou muito parecido.

Neste contexto, fica fácil entender como eu acabo sendo um crítico ferrenho do doping. A coisa é simples: os atletas referência, que acompanhamos há tempos, de uma hora para outra, não são mais referência. Estão a anos-luz adiante. Não com uma diferençazinha, mas com uma diferença que você, como atleta, sabe que seria possível apenas com anos e anos de treino (ou talvez até impossível mesmo) e que no entanto, está lá, com pouquíssimo tempo depois.

Neste contexto, sempre aparecem os comentários defendendo:

1) "Vocês não entendem nada! Ele(a) tem um histórico enorme no esporte!"
2)"Ele(a) treina muito! Vai treinar!"
3) "Ele(a) passou no anti-doping!"

Quanto ao primeiro comentário, existe realmente um cuidado que sempre devemos tomar. Para mim, o único válido nesse contexto. Pode ser um atleta que você realmente nunca ouviu falar porque mora em outro estado, ou porque não acompanha a trajetória, enfim. Ser cauteloso em qualquer acusação aqui é necessário.

Quanto ao segundo comentário, acho que nunca escutei uma asneira tão grande. O que vocês acham que nós, os honestos, estamos fazendo? Sentados no sofá fumando um charuto cubano? Fazfavô! Além disso, ninguém toma droga alguma apenas para ir para a competição. Toma-se justamente para aguentar o treinamento. Então, não adianta vir me falar que enquanto eu treino 20/25 horas por semana outro(a) atleta treina "muito mais que eu", porque isso para mim, ao contrário do que poderiam imaginar, depõe justamente contra o(a) tal atleta. Ciclos de treinamento baseados na insanidade de horas e mais horas, sem nunca se cansarem, estarem sempre bem, são um bom indício de que algo está errado, inclusive.

Deixando os dois primeiros comentários de lado, é quanto ao terceiro de que se trata este texto.

Há algum tempinho saiu um vídeo bem completo do escândalo de doping da equipe russa de atletismo. Testemunhas, ex-atletas, evidências, enfim. Mais recentemente saiu um documentário de mesmo teor falando sobre a equipe do Alberto Salazar, um renomado treinador de atletismo dos EUA. (link do filme). E um texto do Joel Filliol (link do texto), um ultra experiente treinador de triathlon.

Não estou nem falando do famoso caso do Lance Armstrong e de inúmeros outros vídeos-denúncia que existem espalhados pelo Youtube.

Basicamente, a história é assim.Uma ou mais pessoas resolvem expor uma verdade escandalosa sobre o doping no esporte profissional. Ela vai atrás de várias e várias testemunhas, desde ex-atletas, atuais atletas, ex-diretores de agências, de federações, coletam uma variedade enorme de evidências e, em última instância, como foi no caso do filme sobre o Alberto Salazar, o autor do documentário, como atleta amador, chega ao ponto de se dopar, durante algumas semanas, com EPO e PASSA no que deveria ser o maior de todos os controles anti-doping existes: o passaporte biológico. Tudo isso para dizer: "Ei, olhem, estão se dopando e criando ídolos de mentira na sua frente e você está aí acreditando no anti-doping e que é tudo fruto apenas de treinamento árduo!". O segredo desvendado ali, para aquela situação, eram as "micro doses".

O incrível nestes documentários é o quão longe conseguem arrastar uma mentira. Podemos enfileirar mil testemunhas, coletar centenas de evidências. E falo de evidências científicas e factuais, não apenas fruto de observação e experiência. Ainda assim, os culpados continuarão mentindo! Até o fim, haja o que houver. E afirmando que "passaram no Anti-doping".

Neste documentário sobre Alberto Salazar, em pouquíssimas semanas de uso de EPO, os indicadores fisiológicos (bem como o FTP na bike) do protagonista aumentaram 7%!

Apenas para se ter uma ideia do que é isso, seria como se pegássemos um atleta de 300W de FTP e ele passasse a ter 321W. Para quem está acstumado a treinar por potência sabe o quanto é difícil isso acontecer. São ANOS para se ter esse tipo de ganho. Para ilustrar, seria como pegássemos um atleta de 70kg, 1,75cm no Ironman de Floripa e este atleta tivesse 300W de FTP, pedalando a 70% disso (210w) a perna de ciclismo ficaria por volta de 5h05. Depois de algumas poucas semanas de EPO e com 321W da FTP e pedalando nos mesmos 70% de esforço ele tirasse mais de 10minutos de seu tempo. (Usei as mesmas variáveis de peso da bike e equipamentos, coeficiente de rolagem, eficiência de drive chain, velocidade de vento, etc, etc)

Não estou contando nem o tempo que ele ganharia na natação e na corrida. Certamente é uma prova com pelo menos 30 minutos de diferença para aqueles atletas na faixa do sub-10 horas.

Mais recentemente, para consolidar a minha opinião de que eu sou "Contra o Exame de Anti-doping", apareceu uma matéria de que um amador foi pego no exame para EPO em um Ironman no exterior. Era um cara de Kona? Não, um amador de 11h30. 

Como assim?!?!?

Isto bastou para que eu tivesse a certeza de que foi montada uma espécie de circo. Os exames anti-doping existem apenas para se trazer aquela ideia de "faxina", manter a credibilidade dos eventos perante a sociedade. Manter viva aquela chama do "esporte limpo". Não falo apenas de triathlon e Ironmans, mas de qualquer esporte onde existe um apelo publicitário alto.

Hoje, do jeito que o anti-doping é aplicado, como processo, como método, não serve para absolutamente nada a não ser servir de desculpa pronta para os eventuais culpados. A falácia pronta:

- Passei no exame anti-doping, portanto, sou limpo.