quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Ironman 70.3 Brasil Paraguai - Itaipu - Relato





Bem, como não poderia deixar de ser, vamos fazer um "breve" relato da prova.

Vou dividir em duas partes. A primeira, referente à prova em si. Talvez útil para quem pensa em fazer no futuro. E a segunda, a minha atuação na prova.

Se fosse para dar uma nota para a Latin Sports, nesta prova, seria dez. Nove e meio, apenas para ser chato e ter algo para melhorar nos anos seguintes rs. Todos sabem o quão crítico eu sou com a Latin Sports, principalmente no que tange a Florianópolis. Mas, quando a coisa é boa, tem que falar.

Começando pelo lugar. Olha, os caras foram ousados. Fazer uma prova, 100% dentro daquele complexo da Usina de Itaipu, sendo bi-nacional, com a largada e T1 em um país e o restante em outro, com toda a logística que isso representa, tem que se tirar o chapéu. Não acredito que alguém consiga realizar uma prova em um lugar tão animal como esse.

Parem para pensar. É uma Usina, de segurança nacional, fechada totalmente. Nunca, ninguém corre lá. Nunca, ninguém pedala lá. Nunca, ninguém nada lá. Nunca, ninguém faz NADA lá, na verdade. A não ser estritamente acompanhados dos pacotes de passeio, funcionários, etc. Mas, naquele dia, aquelas centenas de atletas fizeram os três esportes. Sem ter que passar imigração de um país para o outro, utilizando apenas os ônibus de translado da usina sistematicamente organizados para que todo o transporte seja feito, tanto no bike-check-in no dia anterior, como no dia da largada. Incrivelmente, funcionou como um relógio.

Pedalar em cima da barragem da usina. Que experiência! Asfalto todo perfeito, prova sem nenhum carro passando, totalmente fechada para os atletas. Acho que vi um atleta apenas com pneu furado.

Quanto aos acompanhantes. Na edição passada reclamaram bastante que para quem assiste não era tão legal. Olha, realmente, a interação com o público é mínima. Além disso, se os atletas pegam esses transportes de translado de um lado ao outro, os acompanhantes também pegam. Mas, na boa, estão passeando dentro de uma das maravilhas do mundo moderno, de ônibus bacana, um puta visual. Não sei como reclamar. A única coisa que parece que foi chata é que, após a largada das 9:30, os acompanhantes só puderam partir para o lado brasileiro, a T2, às 11:30. Porque? Bem, por uma razão óbvia. Os atletas estavam pedalando exatamente onde o ônibus deve passar, ou seja, em cima da barragem. Então, não tem como passar ônibus. Eu entendo isso como uma situação absolutamente necessária para conseguirmos justamente fazer uma prova em um lugar tão bacana e ousado. 

Eu já organizei Solomans, como muitos sabem. O nível de logística é ínfimo perto de um evento como esse. E mesmo assim, para conseguirmos um lugar bacana, os acompanhantes devem entender que estão presenciando uma prova de triathlon de longa distância, não um esporte de arquibancada com o tio do hotdog passando e um telão pra acompanhar. Acho que este deve ser o espírito. Não tenho dúvidas que vão ter aquelas esposas e maridos chatos que querem uma certa mordomia durante a prova, rosquinhas ao leite e tiramissu enquanto esperam seus respectivos, mas, na boa, deixar de fazer uma prova dessa por causa disso, segue meu conselho: vá sozinho(a) ou, troque de esposa(marido) rsrs.

E para quem fala que Foz "não tem o que fazer", acho que foi a última vez antes dos anos 90. Só aquelas Cataratas do lado argentino, aquele Parque das Aves e aquela cidadezinha na Argentina chamada Puerto Iguazu para dar um rolê e comprar uns vinhos argentinos ótimos, valem a viagem. Sem contar que a rede hoteleira é vasta, para todos os gostos e bolsos.

Não sou muito de ficar avaliando "qualidade do kit" ou se "faltou água". Não posso opinar aqui. Mas, pela minha pequena percepção de ambos, acho que foi muito bom.

Quanto às proximidades de tudo, bem, realmente, este é um preço que pagamos por se fazer uma prova em um lugar tão bacana. Ninguém fica hospedado do lado da concentração e da Expo. Tudo precisa ser feito de carro. Portanto, vá com o seu ou alugue um.

Prova limpa? Sim, prova limpa. Sempre tem aqueles que fazem o tal "jogo dos 3 metros" na bike, mesmo a regra sendo 10 metros. Sabem como é. Três metros, dez metros, "tudo a mesma coisa" rsrs. Mas pelotão? Grupos de 10, 20, 30 atletas? Não vi nenhum.

Enfim, acredito que esta prova pode virar uma referência de circuitos Ironman no mundo. De verdade. Não consigo imaginar lugares mais legais que esse para se fazer uma prova.

Quanto à minha prova, se eu pudesse dar uma nota, seria sete, ou oito se eu estiver bem humorado rs.
Tenho alguns amigos que tem vontade de me bater quando falo isso, dizendo que foi "um provão" e tal, mas eu sou chato comigo mesmo. Boa parte dos triatletas é, na verdade. Mas o fato é que se eu pudesse voltar no tempo, faria pelo menos duas coisas diferentes: intensidade da bike e hidratação da corrida.

A prova é dura. Muito dura. Muito mais difícil que Pirassununga, mais difícil que GP Extreme (não a bike, mas o conjunto bike/corrida). Mentiram rsrs. Falaram que a natação ia ser flat, que o clima ia ser ameno e que não ia ter vento. Bem, natação bem difícil, muito mexida e com correnteza pacas, bike ultra técnica com bastante altimetria, retornos muito lentos e um vento forte. Um circuito lento em geral. A corrida bem desgastante, cheia de curvas, altimetria e clima sufocante.

O ciclismo teve 96,3km, de acordo com meu GPS, muita gente reclamou, mas, sinceramente, isso pra mim não foi problema não. A não ser aquela sensação de "ih, acho que errei o caminho" rs.

Acho que é impossível avaliar meu desempenho nessa prova sem avaliar o histórico. O último bom triathlon que eu fiz foi em 2012. De lá para cá, não emplaquei nenhuma boa prova. Fiz excelentes provas de corrida de montanha em 2014, mas triathlon? zero. Os motivos? Ajustes alimentares, lesões, treinos mal planejados. Um sem fim de falhas que me fizeram perder muito tempo e ficar estagnado como atleta. Encarei essa prova como "o retorno". Treinei bem, de forma consistente, forte, saudável. Finalmente havia reencontrado a confluência de todas as variáveis. Mas, ainda havia algo dentro de mim que dizia: "cara, você está forte, mas não faça merda para não ser outra experiência frustrante".

Para quem me conhece, sabe que essa distância de 70.3 é a que mais gosto de treinar e fazer. Já vinha com a bagagem de cinco Long Distances e três pódios na tal distância. No entanto, eu queria sair feliz de lá, não quebrado com a prova jogada fora.

Minha estratégia, portanto, foi a seguinte: nadar o mais rápido que dá, dentro das minha limitações na água, pedalar "fortinho", mas bastante conservador, e tentar fazer a minha melhor corrida em 70.3. Se não desse certo, pelo menos iria terminar com um tempo razoável o suficiente para me deixar feliz. E foi o que ocorreu.

Fiz a bike para 260w de NP. Exatamente em cima do que eu havia pretendido. Isso dá 3,7 watt/kg. eu fiz um monte de treinos onde o objetivo era tentar sacar qual seria o pacing de prova. Cheguei na conclusão que seria 260 watts após vários treinos de 260, 270, 280, 285, 290w e percebi que menos que 260 eu iria passear. Não fiz meu teste de FTP na bike esse ano, então, provavelmente está desatualizado. Desconsidero, portanto, o "Intensity Factor". O meu batimento médio na bike foi de 134bpm (só olhei depois da prova) o que mostra que realmente a bike foi pra lá de conservadora perto do que eu havia treinado. 

Em Pirassununga eu estava acostumado a simplesmente pedalar como se fosse um olímpico. Fazendo realmente muita força. Sensação que nem de perto eu cheguei nessa prova. Infelizmente, não tinha medidor de potência naquela época para comparar, mas certamente, foi muito mais que 260w.

Quando coloquei o pé no chão, quase dei risada. nunca havia me sentido daquele jeito em uma T2 de 70.3. Leve, solto, que delícia rsrs. Corri muito bem até o km 14, mas, um erro de hidratação de refrigeração me custou caro. O trecho era mais em declive na ida e mais subindo na volta, mas realmente, o superaquecimento me pegou e comecei a sofrer muito para segurar um pacing razoável e perder o mínimo de posições possível. No final, não foi uma corrida ruim, consideraria ela boa, mas muito aquém do ótimo. O erro? bebi pouca água, me refrigerei pouco. Erro primário. Cheguei realmente bem desidratado e superaquecido. Fui pra tenda médica, me seguraram lá um tempo e fui melhorando aos poucos. Fui um dos primeiros da tenda. Enquanto eu estava lá, analisei aquela prova, aquele circuito e clima, olhei pra cara dos enfermeiros e disse: "meus amigos, preparem-se, hoje vocês vão ter trabalho" rsrs.

No final, fiquei em 6o da categoria, 14o geral e garanti a vaga no Mundial da Austrália de 2016. No frigir dos ovos, não foi ruim para um "retorno". Estou feliz. Mas certamente, minha estratégia de prova será mais próxima do que sempre foi antigamente. Um baita aprendizado.

Agradecimento especial aos meus dois apoiadores:

Rakkau e My Place Office.